Pesquisar este blog

16/07/2011

Brinquedos de Cthulu

(homenagem a H.P.Lovecraft)

Muito tempo se passou antes que ele começasse a entender o que acontecia naquele ambiente de pesadelos no qual se encontrava agora. A escuridão era absoluta; o silêncio, ensurdecedor! Mal era capaz de ouvir sua própria respiração. Fazia muito frio, e ele estava deitado de costas sobre uma superfície aparentemente metálica. Incapaz de realizar o mínimo movimento, podia sentir inúmeras agulhas espetadas em sua pele, bem como um tubo que saía por uma abertura em sua traquéia. Provavelmente era isto que o impedia de gritar...

Tentou se lembrar de como havia parado lá, mas suas memórias não surgiam com clareza. Tudo o que chegavam eram cenas desconexas, que ele era incapaz de sequenciar numa ordem cronológica: ele deslizando (ou estaria sendo arrastado?) por um tubo estreito, depois o casulo translúcido mantendo-o imóvel, o terror pelo qual passou ao ver o brilho metálico do bisturi se aproximando de seus olhos... Por que ele não havia reagido? Ah, agora parece ficar mais claro: aquele casulo translúcido envolvia seu corpo todo, impedindo-o de tentar se defender de qualquer forma. Lembrava-se bem de estar pendurado dentro deste casulo quando Eles apareceram pela primeira vez. Mas que eram aquelas criaturas estranhas? Tinham pele cinzenta, dois gigantescos olhos completamente negros, nenhum nariz visível, bocas desproporcionalmente minúsculas... Quando se lembrou de tais cenas seus olhos começavam a se acostumar com a escuridão, e foi então que ele percebeu que aquelas criaturas continuavam lá, em torno dele, que estava deitado sobre aquela “mesa de operações”.

Ele nunca havia levado a sério tais histórias, mas agora que a estava vivendo na própria pele apenas uma conclusão lógica passou pela sua mente: “Fui abduzido!!” Cerca de seis daquelas criaturas cinzentas cabeçudas o observavam sem expressão alguma em seus rostos. Percebeu que conseguia mover um pouco a cabeça para a direita, e foi quando notou existirem quatro outra criaturas daquelas de costas, ocupadas em alguma atividade que ele era incapaz de descobrir qual era. O pânico o deixou sem reação, e observar foi tudo o que ele fez durante uma hora inteira. Seria este mesmo o tempo que se passou, ou seu sentido de tempo também estaria prejudicado?

As seis criaturas em torno dele permaneciam imóveis, enquanto vez ou outra ele notava surgir um tentáculo escuro e gosmento se dirigindo na direção dos quatro cinzentos ocupados à sua direita. Aparentemente levavam instrumentos para estas criaturas. Mas com o que elas estariam tão ocupadas?

“Aguenta aí, amigo! Se você cooperar isto acaba logo...”

Teria ouvido uma voz? Não, mesmo com aquela atividade toda o silêncio continuava absoluto. Não parecia ser uma voz real, de fora. Parecia vir de dentro de sua cabeça.

“Não é a primeira vez que me trazem aqui. E sei que não será a última?”

“Quem está falando? Como respondo?”

“Já está me respondendo! Basta pensar...”

Sim, ele estava tendo alguma forma de contato telepático, disto não havia dúvida.

“Quem é você?”

“Olhe para seu lado direito!”

Um único cinzento permanecia de costas agora, enquanto os outros três haviam se deslocado para o outro lado da outra mesa de operação à sua direita. Uma dúzia de tentáculos em volta pareciam surgir de lugar algum, aparentemente nascendo do próprio breu daquele ambiente. A figura deitada na segunda mesa de operações à direita parecia bem mais humana que os cinzentos, mas definitivamente ainda não era humana: olhos totalmente desprovidos de pigmentação, nenhum pelo sobre a cabeça, além de narinas e ouvidos reduzidos a simples orifícios no crânio. Mas ao menos aquela criatura demonstrava algum tipo de expressão no rosto, o que a tornava mais humanizada.

“Rapaz! Que fizeram com você?”

“Como assim?”

“Sua íris, o nariz, as orelhas... Onde foram parar?”

Mesmo naquela situação de total pavor, ele sentiu telepaticamente que seu interlocutor ria:

“Ora, eu diria que para mim é você que parece esquisito com todos estes pelos na cabeça, este pavilhão cartilaginoso em torno dos orifícios auriculares e este bulbo ósseo na frente das narinas. Fora todas essas agulhas incômodas que espetaram na minha pele, não me tiraram nada: nós somos assim mesmo como você está vendo.”

“Nós? Nós quem?”

“Nós, os marcianos.”

Marcianos? Era realmente a última coisa que ele esperava ouvir...

“Você pensava o quê? Que éramos homenzinhos verdes? Acho que você está nos confundindo com duendes... Somos mais parecidos contigo do que imagina.”

“Como pode? Marte é seco, tem uma atmosfera rarefeita, desprovida de oxigênio.”

“Você está sendo antropocêntrico demais. De onde vem esta sua certeza de que todo ser vivo precisa respirar oxigênio?”

“Além disso já mandamos sondas para Marte, e não encontramos marciano nenhum lá.”

“Bom, tudo o que posso dizer é que vocês não procuraram direito... Mas preciso confessar: nós marcianos até que sentimos uma pontinha de orgulho quando descobrimos que vocês estavam conseguindo enviar objetos para fora de seu planeta.”

“Como assim? Vocês não? E seus discos voadores?”

“Discos o quê? Não, meu amigo. Me dói muito dizer isto, mas a decadência de nós marcianos começou antes mesmo de desenvolvermos a tecnologia das viagens espaciais, quando começamos a estragar nosso planeta de uma forma irreversível. Nunca saímos de Marte, ao menos não por nossos próprios esforços, e atualmente somos obrigados a nos esconder no subsolo onde ainda existe um pouco de água e oxigênio.”

“Mas você disse que não respiravam oxigênio...”

“Não disse isto. Só disse que ele não é necessáriamente necessário para se desenvolver vida. Nós precisamos sim, só que bem menos que vocês. Na verdade, para nós o excesso dele é um veneno! Para vocês também, mas sua tolerância é bem maior...”

“Então ainda existem marcianos, mas vivendo debaixo da superfície?”

“É por isto que nem temos mais pigmentação na íris: depois de algumas dezenas de milhares de anos de evolução vivendo nestas tocas a proteção se tornou desnecessária. Mas estes discos voadores dos quais você fala... eles não são nossos.”

Um tentáculo aparece do nada e se dirige a uma das criaturas cinzentas em torno do terráqueo. A criatura, antes estática, parece ganhar vida quando o tentáculo toca sua nuca.

“Os discos são dEles então?”

“Não sei. Mas eles devem ter levado as matrizes marcianas para a terra de alguma forma a algumas centenas de milhares de anos atrás. Precisavam ter algum tipo de veículo espacial para fazer isto.”

“Matrizes marcianas? Do que você está falando?”

“Eles vinham fazendo estas experiências conosco há muito tempo antes de levarmos nosso planeta ao cataclisma final. Na época até que éramos mais parecidos com vocês, tirando todo este pelo da cabeça e esse negócio que vocês têm hoje em volta do orifício auricular...”

“Você quer dizer ORELHAS ?”

“Que seja. Dêem o nome que quiserem para esta coisa feia, hehehe.”

A criatura cinzenta se aproxima do terráqueo com uma espécie de capacete. Ele não consegue entender por que não pode se mover e fugir dali, mas seu companheiro marciano percebe a dúvida e responde em telepatia:

“Eles seccionaram sua espinha dorsal para fazerem os experimentos com mais segurança.”

“QUÊ??? ELES ME DEIXARAM PARALÍTICO??”

“Relaxa, irmão. Eles sabem consertar isto depois.”

“Você me chamou de ‘irmão’ ?? Não entendo...”

“Acho que primos seria um termo mais adequado. Sabe, nós marcianos nunca conseguimos entender estas relações de parentesco que vocês terráqueos usam. Na nossa sociedade, todos os progenitores de uma comunidade são os ‘pais’, e todas as suas crias crescem em conjunto como ‘irmão’. Isto nos livrou de muitos conceitos éticos que atormentam vocês. A idéia de “incesto”, por exemplo: para nós marcianos é muito difícil compreendê-la. Por algum motivo nós em Marte não desenvolvemos este conceito de posse que vocês terráqueos têm: estes são MEUS filhos, e aqueles outros são SEUS... Quando disse ‘irmão’, estava falando do ponto de vista genético”

“Explica melhor. Para mim tudo isto é novidade!”

Neste momento ele sente que o capacete é preso em torno de sua cabeça. Apesar de não sentir uma dor insuportável, ele percebe claramente que algo a está perfurando.

“Cara, que Eles estão fazendo agora? Estou me borrando de medo...”

“Tenta esquecer, pense em outra coisa para não atrapalhar a experiência, assim eles te liberam logo!”

“Certo, vou tentar... Então continue me contando esta história, talvez isto me distraia. O que é que você falava mesmo sobre genética?”

“Então... Eles perceberam que do jeito que estávamos estragando a atmosfera do nosso querido planeta Marte seríamos obrigados a nos abrigar no subsolo em pouco tempo, e a população reduziria drasticamente com isto. Além disso, a vida entocados debaixo da terra levaria a alterações genéticas ao longo da evolução futura que não interessavam para as experiências que Eles ainda pretendiam fazer conosco, por isto Eles resolveram conservar parte do código genético original de alguns marcianos levando-os para a Terra. Mas entenda, o ambiente da Terra não era dos mais agradáveis para um marciano viver: temperatura muito alta, umidade absurda, além de uma taxa de 20% de oxigênio na atmosfera que mataria um marciano em questão de horas por hiperventilação. Para conservar os genes, era necessário usar alguma espécie nativa do planeta como hospedeiro, já adaptada ao ambiente. E... - surpresa!! - coincidiu com o surgimento dos seus ancestrais mais primitivos, o Homo Erectus”

“Você quer dizer que uma parte dos humanos vem de Marte?”

“Você parece surpreso. Acha que na escala evolutiva algumas centenas de milhares de anos são suficientes para um primata antes saltando de galho em galho se desenvolver num ser racional capaz de enviar veículos pelo espaço interestelar? Os dinossauros tiveram muito mais tempo do que isto para evoluir, e ainda assim não surgiu nenhum tipo de lagarto gênio, não é mesmo?”

“E os marcianos?”

“Nossa evolução foi muito mais lenta, não tivemos este empurrão inicial. Desde que saímos das cavernas até o momento de construirmos as primeiras cidades, algumas dezenas de milhões de anos se passaram. Vocês evoluiram de carona com nossos genes, já pegaram o bonde quase no ponto final...”

“Você está inventando coisas. Tem também os gorilas e chipanzés, que já são relativamente bem evoluídos.”

“Eles, os cinzentos, não sabiam qual criatura da época iria se sobressair, por isso usaram os ancestrais destes símios como hospedeiros também. Vocês humanos só se adiantaram em uns, sei lá, cinqüenta mil anos! Mas se seus primos tiverem este tempo a mais para evoluir, pode ter certeza que eles também vão chegar onde vocês chegaram! Está nos genes, hehe!”

Logo passou num flash pela cabeça do terráqueo o filme “Planeta dos Macacos”, mas a comunicação cessou neste exato momento. Alguma coisa saiu errado com a experiência. A sua consciência do terráqueo foi sumindo aos poucos, até se tornar inexistente. Sim, ele havia morrido. O marciano na mesa ao lado ainda tentava se comunicar em desespero:

“Terráqueo, o que aconteceu? Fale comigo! Está tudo bem?”

Inútil, ele já não sentia mais a força vital de seu interlocutor naquele contato telepático. O marciano perdeu também toda a esperança que tinha de voltar ao seu amado planeta vermelho depois dos cinzentos terminarem a experiência, concluiu que desta vez eles haviam feito uma promessa falsa para ele. Tinha medo de olhar para o lado e descobrir o que havia acontecido ao seu novo amigo da Terra, mas olhou assim mesmo. A visão era pavorosa: o humano estava inerte sobre a mesa de operações, com o crânio serrado pouco acima da altura dos olhos. Um tentáculo negro segurava o capacete de dentro do qual se penduravam os dois hemisférios separados do antigo cérebro daquele humano.


Vários tentáculos começaram a sair de dentro daquela bolha de ar onde estavam os humanos da Terra e de Marte, bem como os dez humanóides cinzentos. Dentro da bolha havia uma criatura viva, outra morta e dez, digamos assim, nem vivas nem mortas. Eram orgânicos, sem dúvida alguma, mas não se poderia afirmar que eram vivos. Tratavam-se apenas de biômatos*, ossos recobertos de músculos, pele, um sistema nervoso distribuído e nada mais. Nem sangue, nem coração, nem órgãos digestivos, respiratórios,... nada!! Haviam terminações nervosas expostas em suas nucas, e delas é que vinham todos os comandos para mover estes biômatos. Terminações nervosas livres também existiam na ponta de cada um dos tentáculos, e ficava claro agora que eram eles que animavam aquelas criaturas cinzentas, simples bonecos seguindo a vontade de impulsos nervosos enviados pelos tentáculos, quando eles tocavam os biômatos na região correta de seus corpos.

Um por um os tentáculos saiam daquela bolha de ar. Fora da bolha existia o denso oceano de mercúrio líquido cobrindo todo aquele estranho planeta. Os tentáculos pertenciam a uma criatura monstruosa, inonimável, uma simbiose inusitada de uma água-viva com um enorme polvo de inúmeros tentáculos. Não, olhando bem, na verdade eram dois polvos gigantes em torno da pequena bolha de ar. Um era enorme, e o segundo ainda maior que o primeiro! Olhar é só uma forma de dizer: naquele denso ambiente de metal líquido, o breu era absoluto, nenhuma luz existia. Haviam imagens sim, mas não de fótons, e sim das emissões elétricas de baixa freqüência daquelas estranhas criaturas. Sinais elétricos se propagavam daquele primeiro polvo, de um lóbulo saliente acima daquilo que, para simplificar, vamos chamar de “cabeça”. Afinal, vivendo num gigantesco oceano metálico, haveria alguma forma mais eficiente de se comunicar? Difícil traduzir em termos humanos o que é que estava sendo dito, mas parecia alguém se lamentando, aborrecido com alguma coisa:

- Mamãe!!!! Mamãe!!!

- Que foi agora, Cthulu?

- Buáááááá! Buááááá! Meu humano...

- Que tem o seu humano?

- Meu humano quebrou de novo!!

Mamãe Cthulu parecia indignada.

- De novo não, Cthulu!! Eu avisei que estes dois era para devolver depois... Que foi que você fez desta vez?

- O cérebro... ele partiu no meio...

- Cthulu, quantas vezes vou ter que repetir isto: apesar de não usarem, os humanos precisam do cérebro para continuarem vivos! Se você tirar, eles quebram!

- Eu quero outro humano, eu quero, eu quero, eu quero...

Arcos voltaicos caóticos se propagavam pelo oceano de mercúrio, afastando-se daquele polvo-água-viva menor e incomodando criaturas semelhantes à sua volta. As birras de uma criança são insuportáveis qualquer que seja a espécie do Universo que você esteja observando. Foi por isto que a Mamãe Cthulu então cedeu:

- Tá bom! Tá bom! Quando eu passar na Terra de novo eu abduzo outro humano para você.

Cthulu ainda não parecia satisfeito. Relutou algum tempo, contraiu seus tentáculos em torno da boca central. Mas finalmente “falou”:

- Traz outro marciano também?

Mamãe Cthulu coloca um de seus tentáculos dentro da bolha, toca a nuca de um dos biômatos cinzentos e, através dos olhos gigantes dele, vê um marciano se contorcendo, com o topo da cabeça exposto e mal conectado a... um hemisfério direito de um cérebro humano! Ela tira rapidamente o tentáculo de dentro da bolha e começa a emitir raios no pequeno Cthulu. À primeira vista tais raios pareciam mortais, de potência de alguns megatons capaz de destruir a civilização de boa parte de serem racionais existentes na galáxia. Mas quando convertidos em escala humana ou marciana poderiam muito bem ser traduzidos como umas boas palmadas.

- Isto é para você aprender a não quebrar seus brinquedos!


FIM



* BIÔMATOS: tomei o termo emprestado do romance “Encontro com Rama”, de Arthur Clarke, mas não tenho certeza se o termo é dele mesmo. Prometo pesquisar mais sobre isto e postar aqui o que descobrir. A idéia é que “biômatos” sejam seres orgânico “construídos”, ou seja, não gerados por processos vitais de reprodução. Uma espécie de robô ou autômato, só que construído com tecidos orgânicos ao invés de metais e parafusos...

Nenhum comentário:

Postar um comentário