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30/06/2011

A Emboscada Termodinâmica

Primeiramente saudações a todos, quaisquer que sejam os receptores desta nossa mensagem. Tecnicamente não temos condições de precisar ao certo quais serão os destinatários dela, mas desejamos do fundo da alma que eles saibam aproveitá-la com sabedoria, e tomar todas as providências cabíveis para que esta nossa advertência possa evitar o pior. Poderíamos aperfeiçoar ainda mais esta técnica nova para que pudéssemos atingir com maior exatidão destinatários específicos, mas tememos que não nos reste muito tempo para isto.

O envio desta mensagem é um chute desesperado, uma última tentativa de tentar consertar as coisas. Não temos como saber onde esta mensagem chegará, nem tampouco quando. Desejamos que não chegue tarde demais, a ponto do aviso chegar numa época em que ele já seria em vão, não havendo mais possibilidade alguma de volta. Nem cedo demais, quando simplesmente não haveriam receptores aptos a captá-la. Torcemos com todas as nossas forças para que ela chegue em algum lugar do planeta por volta das últimas décadas do século 20, nos anos 80 ou final dos 70 seria ideal. Mas, como dissemos antes, estamos chutando, de frente para o gol, sem conhecer ainda a força de nossas pernas. Tomara que o chute não seja fraco demais para que o goleiro nem precise se esforçar para agarrar a bola, nem forte demais para que a bola passe longe do gol. Na situação em que agora estamos, soterrados por centenas de metros de geleiras, um chute na trave já compensaria todos os nossos esforços!

O fato de estarmos propagando uma onda eletromagnética para nosso passado nem é tão absurdamente inconcebível perto da outra violação de princípios físicos que explicaremos mais à frente, que é o conteúdo central de nossa advertência. Sem entrar em detalhes técnicos maçantes, digamos que algumas faixas bem definidas do espectro admitem uma polarização específica capaz de inverter o princípio natural de causa e efeito, e assim propagar o eletromagnetismo para uma região vizinha não no espaço, mas no tempo. Sim, esta mensagem também chegará em nosso futuro daqui a um intervalo de tempo igual ao que separa vocês de nós agora, mas lamentamos esta nossa certeza de que não existirão receptores no futuro para decodificá-la.

Discutimos muito sobre a forma de transmissão. Uma transmissão digital seria a forma ideal, tanto para o envio de provas de sua origem, quanto para os detalhes que gostaríamos de fornecer para lhe dar maior credibilidade. Mas não podíamos arriscar. Deveríamos então enviá-la como áudio? Em que idioma? Modulando frequência ou amplitude? Estávamos arriscados a atingir uma época em que a transmissão de rádio tivesse acabado de ser desenvolvida, o que tornaria nossa mensagem ininteligível. Decidimos pela simplicidade, e por aumentar a probabilidade de nossa mensagem ser entendida. É por este motivo que vocês a estão recebendo em código Morse. Não podíamos desperdiçar esta que talvez seja nossa última chance de contato.

Antes de prosseguirmos, permitam que façamos um pequeno resumo da evolução tecnológica e científica, apenas para nos certificarmos de que a mensagem será compreendida e de dar uma prova básica de que somos quem afirmamos ser. Vamos lá: o fato da matéria ser formada de átomos indivisíveis é conhecido de vocês? Ótimo, estamos no caminho certo. Pensando bem, este conhecimento é anterior à invenção do rádio, portanto é obvio que isto já é conhecido pelo simples fato de estarem agora decodificando nossa mensagem. Certo, perdoem nosso deslize e vamos prosseguir: já surgiram evidências de que estes átomos indivisíveis talvez não sejam tão indivisíveis assim como vocês imaginavam? Se sim, isto é excelente! Significa que nossa mensagem não chegou cedo demais. Se vocês não fazem idéia do que estamos falando, imploramos que simplesmente registrem esta mensagem para que ela seja compreendida num futuro próximo, perto do final do próximo século. Por favor, é muito importante que ela chegue aos destinatários corretos!

Bom, permitam que continuemos nossa checagem sem citar nomes. Não sabemos ainda quais seriam as consequências de fornecer informações científicas do futuro para o passado, e optamos por apenas citar fatos científicos sem entrar em detalhes que talvez sejam desastrosos. Já existe a máquina a vapor? E a carvão e outros combustíveis fósseis? Ficamos tentados a fornecer aqui advertências quanto a Revolução Industrial pela qual talvez vocês estejam passando agora, mas... sabemos que seria em vão. Além disso, a consequência da queima de combustíveis fósseis é completamente irrelevante perto do aviso principal desta nossa mensagem.

Se o que citamos até agora são fatos conhecidos, obviamente já são conhecidas as leis da mecânica elaboradas por Sir I.N. Na vossa época, tempo e espaço continuam sendo considerados absolutos? Ou vocês já foram apresentados às teorias do cientista A.E. que prova a relatividade destas medidas? Já enviaram veículos tripulados à Lua? Excelente, estamos então no caminho correto! E a Marte, já enviaram seres humanos para lá? Tomara que não, pois isto indicaria que nossa mensagem chegou tarde demais...

Vamos direto ao ponto: nossa tragédia começa em meados do século XXI. Mais precisamente, no ano de 2054. O aquecimento do planeta é crítico, a própria geografia já é quase irreconhecível comparada àquela de meio século atrás por causa do derretimento das geleiras e consequente aumento do nível do mar. Se são vocês nossos destinatários, ainda há tempo. Vocês devem estar num dilema: não podem usar combustíveis fósseis que comprometeriam ainda mais o absurdo efeito estufa com o qual tentam conviver atualmente. E a energia atômica é um verdadeiro demônio, que todos tentam exorcisar. Mas as energias renováveis não dão mais conta de alimentar os 30 bilhões de habitantes do planeta. O planeta Marte, ou Nova Terra como foi rebatizado na última década, ainda é inviável: viagem cara demais, demorada demais, e nem de longe resolveria os atuais problemas. Num recanto desconhecido da Índia vai surgir uma forma de produzir energia limpa, barata (na verdade gratuita), ilimitada, e vocês serão tentados nas atuais circunstâncias a desenvolvê-la. Mas imploramos de joelhos: não façam isto!! Será o começo do fim!

A nanotecnologia resolveu muitos problemas num passe de mágica. Ah, perdoe-nos! Se vocês que agora recebem esta mensagem ainda estiverem próximo ao fim do século 19 ou começo do século 20, acho que lhes devemos explicações. Nanotecnologia é a técnica de manipular a matéria átomo por átomo. Se isto ainda estiver fora de vossa capacidade de compreensão, mais uma vez pedimos encarecidamente que preservem esta mensagem para que ela possa ser relida numa época mais oportuna. Mas se já forem capaz de compreendê-la, saibam que sim, valeu a pena investir nela! Nanorobôs terão inteligência suficiente para simplesmente desfazer defeitos genéticos de indivíduos célula a célula do corpo, como verdadeiros cirurgiões moleculares extirpando genes defeituosos e inserindo próteses saudáveis, e existirão trilhões de cópias de tais cirurgiões repetindo esta operação em cada uma das células do organismo doente. Eles imitarão a vida, e também serão auto-replicáveis. Mas não será daí que virá nossa tragédia, nesta época já teremos aprendido a lição e estaremos fazendo isto de forma segura: os nanorobôs serão programados, depois de injetados na corrente sanguínea, a se replicarem, executarem seu serviço, e logo depois se destruirem. No fim eles viram glicose absorvida por nosso organismo, não sobrará indício algum de sua passagem exceto o fato de nos tornarmos mais saudáveis após sua atuação. A nossa tragédia envolve nanotecnologia sim, mas de uma forma bastante traiçoeira. Relembrando agora os fatos, todos nós aqui do laboratório concordamos que era impossível prever o mal que a descoberta traria. Além disso, era tão oportuna naquela situação absurda de calor!

A astronomia também se beneficiou com a nanotecnologia. E por incrível que pareça, a astronomia óptica! A tecnologia dos telescópios de espelho parou simplesmente porque chegou ao seu limite. Torna-se progressivamente mais difícil construir uma superfície parabólica próxima à perfeição à medida em que aumentamos o diâmetro do espelho. Houveram até algumas esperiências com espelhos refletores de mercúrio numa piscina rotatória, mas os resultados foram questionáveis.A astronomia óptica foi abandonada por um bom tempo devido à facilidade incomparavelmente maior de construir radiotelescópios, que trabalhavam com frequências bem mais baixas do espectro e não exigiam uma precisão tão boa na construção de seus refletores. Na verdade, podia-se agrupar vários radiotelescópios numa superfície enorme e fazê-los funcionar como um radiotelescópio único de quilômetros de diâmetro. Funcionavam bem, mas um dia surgiu a idéia: por que não fazer o mesmo com telescópios ópticos, mas usando a nanotecnologia? Não havia mais a nececissade de criar uma superfície perfeitamente parabólica de algumas centenas de metros de diâmetro se fosse possível construir uma superfície plana, com imperfeições até aceitáveis, mas formada de uma infinidade de nanorefletores ópticos ajustáveis. O espelho não precisava mais ser parabólico, mas um espelho relativamente plano no qual fosse possível programar cada um dos nanoespelhos de sua superfície para refletirem os fótons recebidos do espaço para um ponto focal escolhido, fora do plano do espelho. Foi uma revolução, obtivemos ampliações dentro do espectro visível nunca antes imaginadas de centenas de exoplanetas, em algumas das quais ficava até difícil questionar a existência de vida, ao menos vegetal, nos mesmos. Mas ainda não chegamos lá: o culpado por nosso cataclisma não foram ainda os nanotelescópios. Paciência, a explicação virá logo! A culpa é parte da capacidade de direcionar a reflexão dos fótons, e parte da capacidade de autoreplicação dos nanorobôs. Tudo a seu tempo, mas adiantemos que foi a combinação destas duas capacidades que nos levou ao fim.

É fato conhecido que a energia se transforma. Energia potencial de uma coluna de água vira energia cinética, que move as pás de uma turbina tornando-se energia elétrica, transmitida por fios condutores para ser novamente transformada em energia mecânica, luminosa, térmica, etc... Elas se transformam, mas existe um fim único: calor. A gasolina do seu carro tem uma enorme energia potencial química. Ela explode e vira uma quantidade enorme de calor, que move os pistões e é aproveitado em parte como energia mecânica que move seu veículo. Mas seu carro não se move indefinidamente, não é? Sua energia cinética acaba porque se transforma, novamente, em calor. Quando o freio é acionado, o carro para muito rapidamente porque suas pastilhas são um eficiente conversor de energia mecânica em energia térmica. Para que sua lâmpada elétrica gere luz, grande parte da energia elétrica é também perdida em calor: basta tocar sua lâmpada para comprovar que isto é verdade. Até para tirar calor de dentro de sua geladeira é necessário produzir calor. Você acrescenta calor ao ambiente duas vezes: aquele que você tirou do seu refrigerador e aquele que foi produzido no trabalho de tirar este calor do seu refrigerador. Em resumo, é impossível transformar calor em outra forma de energia sem que esta transformação produza mais calor. Corrigindo: era!

O que é calor? Estamos envoltos em uma camada de gás, basicamente oxigênio e nitrogênio. São formados por moléculas, que se movem em alta velocidade. Elas colidem entre si, e com os obstáculos colocados em seu caminho. Mas isto é caótico, elas vêm de todas as direções possíveis. Novamente simplificando para não nos tornar chatos, digamos que podemos chamar a medida deste caos de calor. É o "nível de desordem" destas moléculas. Podemos dar um nome a isto. Nem precisamos gastar nossa imaginação, pois isto já tem um nome: ENTROPIA. Como vimos antes, o que quer que façamos, tudo no fim vira calor. Podemosdiminuir a entropia de uma região específica momentaneamente, como o interior de nossa geladeira. Sim, porque de certa forma diminuir o movimento das moléculas de gás é diminuir a desordem, aumentar um pouco a organização molecular desta região. Mas considerando o universo todo a nossa volta, o que quer que façamos sempre aumenta o total de desordem. A entropia de uma região escolhida pode diminuir, mas para que ela diminua precisamos aumentrar a entropia das regiões vizinhas a ela. Desta forma, qualquer que seja o trabalho realizado, a entropia global do universo sempre aumenta. Aumentava...

Jogue um dado honesto. Que face cai? Não podemos prever, mas podemos afirmar que a probabilidade de cair qualquer uma delas é de um sexto. Mas podemos trapacear. Um dado viciado pode ter uma geometria talvez imperceptível a olhares desatentos, mas capaz de favorecer alguma das faces em detrimento das outras. Foi mais ou menos assim que “trapaceamos” o princípio fundamental da diminuição da entropia.

Tomem uma parede. Ela não é lisa, concordam? E por mais que tentemos, a nível molecular ela sempre será rugosa. Se moléculas de gás colidem com ela vindas de direções totalmente caóticas, serão também refletidas em outras direções igualmente caóticas. Nenhum princípio físico é violado aqui, o caos sempre aumenta como é esperado, e a entropia também. Mas num recanto antes desconhecido da Índia, o brilhante nanofísico A.J.M. descobriu uma forma de trapacear a segunda lei da termodinâmica: ele criou uma nanosuperfície “viciada”, com uma geometria que favorecia moléculas de gás vindas de todas as direções possíveis a se refletirem numa direção preferencial. Sim, o efeito era inicialmente ridículo: dentre centenas de mols de moléculas gasosas, poucas dezenas seguiam esta direção preferencial, e logo eram desviadas ao colidir com a imensidão de outras moléculas caóticas à sua frente. Mas isto começou a alimentar idéias na cabeça de nanocientistas do mundo inteiro.

Somos obrigados aqui a dar mais detalhes do que desejaríamos da técnica, mas isto é justificável para enfatizarmos a gravidade do nosso alerta: não repitam o experimento! Então vamos lá. Primeiramente enrolemos esta superfície viciada num longo tubo. Nota-se uma pequena corrente de ár saindo de uma das pontas. O que tem de estranho? É que não há outra de mesma intensidade entrando na ponta oposta do tubo. A diferença só é percebida por sensores muito precisos, mas ela existe. De onde vem esta corrente de ár? Simplesmente da reorganização na direção de alguns poucos átomos refletidos pela superfície viciada. Nada foi criado, o que aconteceu foi que parte dos átomos que colidiram com a superfície do tubo tinham uma pequena probabilidade de se refletirem numa direção preferencial. Basicamente o mesmo princípio dos nanotelescópios, mas eram refletidas moléculas de gás ao invés de fótons. Que proveito tirar disto? Inicialmente nenhum, mas a criatividade humana não tem limites.

Curve ligeiramente este tubo viciado. A princípio a curvatura prejudica um pouco o desempenho, e a corrente de ar antes ínfima diminui mais ainda. Prolongue este tubo, mantendo a curvatura. Suficientemente prolongado, uma ponta do tubo acabará encontrando a outra. A ponta oposta, antes recebendo átomos em direções caóticas do ambiente, recebe agora uma parte de átomos que já colidiram com a superfície viciada, e criam aquela ínfima corrente na direção preferencial. O que ocorre então? A corrente na ponta oposta (que agora alimenta a entrada do tubo) se apresenta um pouco mais intensa. Alimenta novamente a ponta de entrada, e ganha um pouco mais de coesão, e isto ocorre de novo, e de novo, e de novo... Temos uma reação em cadeia! Em questão de minutos uma corrente de ár considerável é criada dentro de nosso toróide, surgindo do simples realinhamento das reflexões dos átomos com a nanosuperfície! A corrente de ár é simplesmente uma reorganização do calor original do gás dentro do toro numa direção específica. Antes não percebíamos que os átomos individuais se moviam a uma velocidade tão alta porque o faziam em todas as direções, mas agora era como se todos eles tivessem combinado em continuar seus percursos numa única direção. Coloque uma turbina no meio deste toro e você terá um gerador termodinâmico, uma fonte de energia que se alimenta de... calor! Numa época de superaquecimento global, na qual nosso principal problema era o excesso de calor, esta nova fonte de energia era boa demais para ser verdade!! Nosso deslumbre nos levou a usá-la imediatamente, a urgência nos cegou e não permitiu que avaliássemos melhor suas consequências. Estamos pagando agora pelo erro.

As usinas termodinâmicas se multiplicaram pelo planeta em questão de meses. Era tentador demais para não ser aproveitada: a energia era limpa, gratuita, e consumia um recurso natural que na época nos sobrava, e que inclusive nos causava problema tê-lo em excesso: o calor. Uma década explorando tais usinas foi suficiente para que pudessemos voltar a sentir um clima planetário antes só experimentado pos nossos avós, ou bisavós (será que não são vocês?). As usinas resfriavam a atmosfera à sua volta, e produziam com este calor energia para alimentar as megametrópoles então comuns nesta época. Nunca pensamos em perguntar: e esta energia produzida, o que se torna depois de usada? Calor de novo? Agora questionamos isto, mas na época negligenciamos esta questão de forma totalmente irresponsável.

O fato é que a energia elétrica usada se tornava novamente calor no fim das contas, como tinha de ser. O que não checamos na época foi o balanço energético. Ela se transformava em QUANTO calor? Na mesma quantidade que foi utilizada para produzi-la? Agora nos parece óbvio que não, pois ao ser utilizada esta energia o esperado era que o calor produzido fosse exatamente aquele retirado para sua produção. Até mais, admitindo que o príncípio fundamental da termodinâmica continuasse a funcionar e que a eficiência da transformação da energia térmica em elétrica não fosse de 100%. Um moto-contínuo era o máximo que se podia esperar, com o calor produzido na utilização da energia elétrica sendo reaproveitado como “combustível” para gerar mais energia. Mas o fato é que a energia térmica atmosférica diminuia, o que significava que a eficiência da conversão energética deveria ser superior a 100%. Quer dizer, se produzia mais energia do que era consumida em forma de calor! De onde ela vinha? Tudo bem, digamos que tenhamos uma eficiência de 105% (e isto é uma estimativa otimista nas atuais circunstância). Estes 5% a mais deveriam continuar esquentando a atmosfera, não é mesmo? Conseguimos 5% adicionais não se sabe de onde, e o usamos. Isto deveria voltar como calor, e pesar na balança térmica. Usamos X unidades de calor, e produzimos X mais 5% de X que consumimos e devolvemos como calor, não é? Então a temperatura ambiente deve aumentar, e não diminuir! Outro problema: apesar de se produzir mais calor do que se retirava, o calor global do planeta continuava diminuindo. O que está acontecendo ?

O fato é que trapaceamos no jogo cósmico. A intenção foi muito boa, mas isto é irrelevante fisicamente: nós trapaceamos no delicado equilíbrio da entropia! Estávamos criando energia do nada, e o universo não sabia como reagir a isto. Nunca havia acontecido antes, e por isto ele não tinha resposta para restaurar o equilíbrio, não havia desenvolvido “mecanismos de defesa” para o fato. Tendemos a enxergar sempre nosso próprio umbigo, esquecendo que as coisas são como são porque elas precisam ser como são para funcionar em harmonia! O aumento da entropia não pode ser revertido, o nosso Universo precisa passar por uma morte térmica daqui a alguns trilhões de anos, quando a entropia como um todo atingirá seu máximo. Isto porque nosso universo não é “uni”, mas “multi”, e ele precisa morrer para que outro apareça na forma de um novo big bang. Assim na terra como no céu: a criatura precisa morrer para dar lugar aos descendentes, e o Universo também precisa fazer o mesmo para dar lugar a universos novos. Mas não! nós, vivendo numa poeira ínfima dentro de uma dentre incontáveis bolhas cósmicas repleta de galáxias ousamos violar um princípio básico: inventar um meio passivo de diminuir a entropia do ambiente.

Percebemos então que a temperatura não parava de cair. E então? Não basta desativar as usinas térmicas? Acreditem, foi a primeira idéia que tivemos! Mas esta solução é falsa, invenção nossa, um vício dos tempos moderno. Acreditem, quando as coisas começam a dar errado nem sempre basta puxar a tomada para resolver o problema! Era impossível desligar as usinas. A nanosuperfície refletora sempre estava lá. O que a fazia funcionar era seu formato, sua geometria. Não dava para desligar! Ela precisa ser destruída para parar de atuar. Surgiu aí o problema.

Diminuir a entropia é muito tentador! Uma solução salina dissolvida em água tende a se reagrupar em padrões cristalinos bem definidos. Isto é aumentar a organização, o mesmo que diminuir a entropia! A própria vida é uma prova de que a tentativa de diminuir a entropia interna é uma constante universal. Mas todo ser vivo morre, não é? Todo indívíduo cria caos interno como resíduo da tentativa de preservar a organização molecular. A natureza tende a tentar reverter a entropia, mas até então só obtendo sucesso temporário. Uma hora ou outra a segunda lei da termodinâmica acaba vencendo. Isto até nós trapacearmos. Uma vez construída a primeira superfície viciada, não conseguíamos destruí-la: os nanorefletores derretidos se auto-reorganizavam, tinham a capacidade de replicar sua geometria. Não exatamente como seres vivos, mas como cristais. A geometria parecia tentadora demais para as moléculas de quaisquer que fossem os elementos químicos: silício, cristais de gelo, carbono, nitrogênio atmosférico... Toda vez que tentávamos destruir um toróide com superfície interna viciada, os elementos químicos à sua volta tentavam se recristalizar na geometria original! Era um pesadelo: para cada metro quadrado de refletores térmicos destruídos, 10 metros quadrados se reorganizavam com os elementos existentes à sua volta, fosse ele areia, granito, calcário, gelo, até o próprio nitrogênio atmosférico! As usinas como estavam eram ruim, mas tentar se desfazer delas era ainda pior. Enviar ao espaço? Chegamos a pensar nisso, mas logo abandonamos a idéia. O cientista G.H. até sugeriu enviar os geradores para derreterem no Sol, mas imediatamente abandonamos a idéia ao detectar que isto faria com que ele se apagasse em questão de... décadas! Quer uma melhor fonte de calor que esta? Nada disso, pelo menos uma vez na história decidimos ser conscientes e, pelo menos, tentar fazer com que apenas nós mesmos respondessemos por um problema que criamos. Esta catástrofe termodinâmica deveria se limitar a este planeta, não era justo que nosso erro prejudicasse o resto do universo. E é assim que nos encontramos hoje, num planeta frio, com poucos sobreviventes tentando sobreviver decentemente com o resto de energia que nos resta. A própria energia interna do planeta foi consumida nesta nossa empreitada louca. Não temos mais campo magnético, pois nosso núcleo e toda sua vizinhança é agora uma massa inerte de ferro e níquel sólido, sem rotação própria. Centenas de metros de gelo pesam sobre nossas cabeças agora. Não gelo de água. Na verdade, a camada de gelo de água é bastante fina comparada à de gelo de oxigênio e nitrogênio acima de nós, nossa antiga atmosfera solidicada. A Terra agora é um saco sem fundo absorvendo energia solar, um buraco negro térmico. Mas a curiosidade científica é a última que morre, e foi a que nos permitiu descobrir uma forma de enviar esta mensagem que vocês estão lendo agora.

Enfim, se nenhum argumento ainda conseguiu convencê-los de nossas intenções ao transmitir esta mensagem, que seja levado em conta o fato do aviso ser genuinamente autruísta. Diretamente nada ganhamos se nosso alerta for considerado: nosso passado é imutável, estamos condenados ao final termodinâmico quer enviássemos esta mensagem ou não. Mas acreditamos poder influenciar e criar linhas alternativas de tempo, recentemente obtivemos provas quânticas a nível molecular desta possibilidade. Embora nada possamos fazer em nosso próprio benefício, esperamos poder ajudar a humanidade de alguma linha histórica paralela à nossa. Recebemos nos últimos anos do século XXI mensagens genuinamente inteligentes vindas de um sistema estelar próximo, uns 50 anos luz. Respondemos, mas lamentamos profundamente o fato de que não estaremos mais aqui para poder captar a réplica desta civilização vizinha. Sim, não estamos sós. Para nós aqui isto já não faz mais diferença alguma, mas esperamos que faça diferença para vocês.

É o que lhes deseja a:

EQUIPE DE PESQUISAS ELETROMAGNÉTICAS
CÉLULA DE SOBREVIVÊNCIA 224-C / GELEIRA AMAZÔNICA
Manaus, 15 de janeiro de 2137

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ERRATA
Cometi um erro imperdoável na primeira versão, e estou corrigindo aqui: entropia não é o nível de organização, mas o nível de caos. EN-TROPOS quer dizer "tudo no mesmo nível", nenhuma diferença de temperatura capaz de realizar trabalho. O fim do universo está na entropia máxima, onde não mais existiriam trocas de calor, e não o contrário! Novamente peço desculpas, revi o texto e corrigi esta falha catastrófica! :-S

26/04/2011

ANATOMIA

Ainda bem adolescente a idéia surgiu pela primeira vez em sua cabeça, idéia esta que o acompanharia e cresceria cada vez mais em detalhes durante o resto de sua vida. Junto com sua turma de colégio, ele acompanhava uma visita monitorada ao Museu de Anatomia Humana.

As peças humanas à mostra lhe despertaram muito pouco interesse na ocasião. O monitor ia explicando aos alunos o que era cada uma delas: um cérebro humano, o sistema coração-pulmão, um feto de poucas semanas de gestação... Os colegas faziam arruaça, alguns tentavam demonstrar coragem e chegavam mais perto para impressionar as garotas, outros faziam piadinhas mas claramente para tentar disfarçar o nervosismo de estarem vendo seres humanos tão expostos daquela forma. Um ou dois demostravam interesse especial, provavelmente, quem sabe, futuros médicos descobrindo naquele exato momento a grande vocação de suas vidas. Mas para ele era diferente, aquelas peças humanas boiando em vidros cheios de formol despertavam pouco interesse, pareciam meio que... Como ele poderia dizer? Meio mortas... Mas algo num dos cantos do laboratório lhe chamou a atenção de uma forma incontrolável, e ele acabou se afastando da turma para ver aquilo mais de perto.

Lá estava ela! Escostada na parede, observando aquele grupo de adolescentes que visitavam o laboratório de anatomia. Estática, com um olhar profundo, formas perfeitas, sorrindo para todos com sua dentadura de brancura impecável, lá estava a caveira de laboratório! Pensou em tocá-la. Deveria? Era permitido? Proibido? Tocou meio que sem pensar na omoplata esquerda da caveira à sua frente.

- É verdadeira, menino! - explicou o monitor se aproximando dele. - Não é daquelas réplicas de plástico ou porcelana que costumam vender por aí...

- Sabe quem era este aqui?

- Difícil saber. É muito comum que os doadores queiram permanecer anônimos. Normalmente para poupar a família, entende? Dificilmente alguém ficaria confortável com a idéia de ver em pé na sua frente os ossos do pai, do filho, do irmão, esposa...

O garoto estava fascinado pela caveira. Que ossos lisos, perfeitos! Simetria bilateral quase impecável!

- Mas dá para concluir algumas coisas. Era um adulto pela estatura. - continuou o monitor, enquanto o resto da turma também começava a se juntar em torno da caveira. - Diria que foi de um homem entre 35 e 40 anos.

Metade da turma, ouvindo tal afirmação, baixou o olhar para um ponto vazio logo abaixo da cintura da caveira. Depois de uns risinhos constrangidos e olhares desviados para vários "nadas" em várias direções, o monitor completa tentando aliviar aquele breve momento de tensão dos adolescentes:

- Bom, não foi exatamente isto que procurei para chegar à minha conclusão - abre um sorriso cordial -, mas sem querer vocês olharam para a direção certa mesmo.

- Ah, vamos ver logo a sala dos crimes! -berrou um adolescente um pouco mais velho que o resto da turma, provavelmente um repetente, tentando mostrar valentia - Não vejo graça nesta caveira velha encostada aí na parede...

Aparentemente a maioria da turma compartilhava de sua opinião, pois começaram a se afastar quase que num bloco compacto de gente. Algumas garotas e um rapaz bem mirradinho aproveitaram a ocasião para perguntar ao professor, que também aconpanhava a visita, se podiam ser dispensados desta parte do programa. Bom, ele não podia obrigar ninguém, muito menos estes que mal deixaram de ser criaças, a ver cenas tão fortes. Consentiu sem criar obstáculos. Mas aquele garoto continuou lá, admirando a caveira. O monitor pensou em chamá-lo, para ver outras partes igualmente interessantes do museu. Mas vendo o interesse genuíno do garoto obsevando a caveira em pé naquele canto do laboratório, pensou: "Que mal há? Vou deixar ele aí!  Quem sabe esteja nascendo neste instante um brilhante ortopedista..."

Ele ficou vários minutos observando a caveira, mas que já lhe pareciam horas. Estaria ele imaginando coisas, ou o sorriso da caveira parecia agora bem mais aberto, de uma simpatia sem tamanho? E por que lhe parecia que aquelas órbitas oculares vazias estavam olhando bem dentro de seus olhos? Um convite, sem dúvida. Era ainda bem jovem, mas aquela caveira havia apontado um sentido para sua vida!

É difícil com tão pouca idade descobrir um objetivo para seu futuro, aquilo que deseja fazer durante toda a vida adulta. Alguns querem ser médicos, outros advogados, outros engenheiros... Muitos acabam nem conseguindo se decidir, e passam o tempo tentando várias áreas diferentes, esperando aquela que lhes faz se sentir melhor. Nesta idade de sonhos, também é comum os que querem ser jogadores de futebol, ou mesmo astronautas. Mas ele já estava decidido. O objetivo de sua vida havia sido revelado naquele exato momento, era um desperdício de tempo tentar procurar outras coisas. Era fato, ele já sabia qual era o objetivo maior de sua vida daqui para frente: ele também queria se tornar caveira de laboratório!

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Ele queria se tornar uma caveira bonita, tão ou mais perfeira que aquela sua musa inspiradora. Para isto ele se cuidava, nunca se interessou por aquelas brincadeiras  típicas dos garotos de sua idade, jogar bola, andar de skate... Não, ele cuidava muito bem de sua própria caveira, não poderia correr o risco de sofrer qualquer fratura e com isto aparecer como uma caveira defeituosa, cheia de cicatrizes dos pedaços de ossos recalcificados. Mas mesmo com todo este cuidado, parecia nunca sair do setor de ortopedia do hospital mais próximo.

À primeira vista parece difícil imaginar como é que um rapaz tão zeloso para com seus ossos aparecesse tanto na ortopedia do hospital, se queixando de dores, aflito com possíveis fraturas. Mas é facil de entender o comportamento quando se descobre que ele fingias estas dores. É claro que ele nunca iria colocar seu precioso esqueleto em risco, mas ele inventava essas dores insuportáveis porque adorava observar seus ossos nas chapas de radiografia! Uma "torção no pulso" lhe permitiu obter uma bela foto de sua mão esquerda, o carpo, o metacarpo, parte do rádio... Uma queda simulada da cadeira lhe proporciou uma bela chapa da bacia. Uma chapa da coluna inteira era uma de suas preciosidades, mas não havia dúvida de qual era a sua favorita: era a de seu cranio sorridente, bela dentição ainda incompleta à mostra (os cisos ainda não haviam se apresentado totalmente), chapa que havia sido resultado de uma violenta "dor de cabeça" que deixara seus pais muito preocupados. Ele lamentava muito tê-los deixado tão aflitos, mas... ele realmente precisava saber com que rosto se mostraria depois que estivesse em pé, num dos cantos de algum laboratório de anatomia! Gostou do que viu. Ele daria uma caveira manífica!

...............

Houve um período em que ele parou de comer. Recusava qualquer alimento, não queria acumular gorduras de forma alguma. Já não lhe satisfazia mais olhar suas radiografias, e a magreza conseguia esticar sua pele o suficiente para pelo menos poder observar certos detalhes de seus ossos ao vivo. Na escola tinha até ganhado o apelido de "caveirinha", que ao contrário de desagradá-lo (certamente a intençao dos que lhe colocaram tal apelido), ele até gostava. Mas ele ficou muito doente com isto. Muito doente mesmo!

- Rapaz, você está anêmico, e subnutrido!

Os pais acompanhavam aflitos o diagnóstico.

- Ele não come, doutor! Já tentamos de tudo!

O doutor olhava o garoto, mas com muita dificuldade conseguia esconder sua raiva. Que estava pensando um rapaz bonito como aquele, deixando aflito seus pais? Não passava necessidades, parecia ser muito bem amado... afinal, que raios de problema ele tinha?

- Anemia é doença onde, doutor? - o garoto queria saber.

- Deficiência de ferro no sangue.

- Ah, no sangue... - pensou naquele líquido vermelho que percorria seu corpo, e que sempre fazia uma sujeira danada quando derramado.

- Vou te passar um fortificante, mas... Você tem que comer, moleque!!! Que idéia é essa? Quer virar faquir?

- Não quero ficar gordo. - explicou. "A gordura esconde os ossos", pensou em completar. Mas não, o médico não entenderia este seu argumento.

Seria o caso de encaminhar o moleque a um psicólogo? Os exames não mostravam nenhum motivo objetivo para o garoto se recusar a comer, de modo que o problema provavelmente devia estar na cabeça dele. Fugia da sua especialidade.

- Você está bem fraco, músculos atrofiados demais para sua idade...

"Os musculos também escondem os ossos", foi o que ele pensou.

- ...fraqueza, apatia... Com esta sua aparência você não deve ser tão popular assim na escola, não é? Me refiro às garotas! Tem namorada?

Não, definitamente ele não queria outra caveira ao seu lado no laboratório, disputando atenções com ele.

- Na escola me chamam de "caveirinha". - comentou orgulhoso.

- Caveirinha, caveirinha... tá bom! - o médico examina uma chapa radiográfica. - Estou vendo começo de descalcificações aqui na tíbia. Se você insistir com esta besteira, acho que não vai sobrar nem "caveirinha" nenhuma para contar a história.

Aquilo bastou para que ele entrasse em pânico. Que grande idiota!! Como é que ele nunca imaginou que aquela obsessão por magreza poderia também estar afetando seus ossos? O médico ficou satisfeito em ver que aquele seu comentário tinha surtido efeito, muito embora o motivo que ele imaginava estivesse totalmente errado.

Ao sair do consultório, abraçou os pais aos prantos:

- Pai, mãe! Desculpa! Não vou mais fazer isto. Vou mudar.

Deste dia em diante passou a se cuidar de verdade. Passou até a se exercitar mais, obviamente tomando todos os cuidados possíveis para evitar acidentes: capacete, cotoveleira, joelheira, tornozeleira... todo este acessório passou a fazer parte de seu dia a dia. Com o passar do tempo ele acabou perdendo o apelido de "caveirinha", passou a não fazer mais sentido. Mas ganhou outro: "robocop"! Ele não se importava com isto. Tudo o que ele não qeria de jeito nenhum era se apresentar como uma caveirinha raquítica pendurada num canto de seu futuro lar-laboratório.

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Com vinte e cinco anos de idade, a idéia só foi crescendo em sua cabeça, ganhando conteúdo, se enriquecendo de detalhes. Fazia check-ups regulares, não necessariamente preocupado com sua saúde, mas sim com o bom estado de seu esqueleto. Conhecia de cor os vários métodos existentes para se descarnar um cadaver, deixar os ossos à mostra com o mínimo de danos, maneiras de secá-los e conservá-los, e enfim a montagem final do esqueleto completo. Mas, ao contrário do que se podia esperar, não ingressou no ramo da medicina. Seu interesse estava focado neste aspecto dos ossos em particular. Todo o restante da área médica lhe parecia maçante.

Estava ansioso para ver o resultado final do que encomendara para um amigo, técnico em tomografia. Chegara no laboratório dele uma daquelas caríssimas impressoras tridimensionais! Já havia visto suas tomografias em 3d várias vezes na tela do computador, mas poder segurar uma réplica perfeita de seu próprio crânio era demais! Não conseguia se segurar de tanta exitação, e apertou os passos.

Em princípio o funcionamento de uma impressora 3d é bem parecido com o de uma impressora laser: o feixe luminoso cria cargas elétricas no papel com as configurações dos desenhos e caracteres que se quer imprimir, depois um toner com carga oposta é atraído para estas áreas e fixado por calor na superfície do papel. A impressora 3d faz mais ou menos isso, mas ao invés de fazê-lo numa camada de papel, a faz sobre a camada de "toner" anterior, repetindo o processo várias vezes, para as várias fatias do objeto tridimensional que se deseja "imprimir". Seu amigo havia tirado uma tomografia completa do seu crânio, isolado os ossos via software e, agora, podia imprimir este objeto na impressora tridimensional.

O "toner" da impressora era meio azulado, de forma que o crânio impresso não parecia muito realista. Mas os detalhes eram impressionantes, isto ele não podia negar! Uma cachoeira de lágrimas escorria pela sua face, contemplando aquele seu sósia artificial. Agora que tinha uma boa idéia de como ficaria sua caveira, não conseguia mais se segurar de tanta impaciência...

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Qual o órgão mais importante do corpo humano? Muitos dirão que é o cérebro, centro de todos os sentidos, de todo o controle, de nossa capacidade racional. Morte cerebral inclusive é considerado diagnóstico final para o ser humano: todo o resto do corpo pode continuar funcionando perfeitamente, via meios artificiais capazes de substituir funções que o cérebro não pode mair exercer. Mas se o cérebro morre, a pessoa morre.

Alguns românticos diriam que o coração é o órgão mais importante, centro de nossas emoções, amores, prazeres... Grande tolice dizem estas pessoas! Se elas consideram que o mais importante na vida é a capacidade de amar, sentir prazer, enfim, se sentir bem, deveriam mencionar o Sistema Límbico, que também fica dentro da cabeça como o cérebro! Na verdade, fica bem no meio do cérebro. O coração é só uma bomba muscular, não é com ele que amamos ou sentimos os prazeres da vida. Só o que ele sabe fazer é bombear sangue sem parar pelo nosso corpo.

Chefs de cozinha, gourmets e, obviamente, todos aqueles que apreciam um bom prato, talvez digam que o estômago é nosso órgão mais importante. Comedores compulsivos (não de comida, fique bem claro!) talvez apontem para a braguilha de suas calças e digam orgulhosos: "Tá aqui o meu órgão mais importante!!" Profissionais da area médica dirão: "Que besteira, todos são importantes!! É um Sistema, não dá para separar."

Mas nosso rapaz, agora um homem de seus 35 anos, não pensava desta forma. Parecia para ele razoável medir a importancia de um órgão através de sua durabilidade. Cérebro, estômago, coração, genitálias... quanto tempo dura tudo isto depois que o indivíduo morre? Meses? Anos, na melhor das hipóteses? Tudo vira comida de verme. Que sentido existe em criar frágeis estes órgão tão "importantes"? Mas com os ossos era diferente! Eles foram feitos para durar muito, mesmo desprotegidos, enterrados so várias camadas de terra. Por exemplo, por que sabemos que a milhões de anos atrás répteis gigantescos andavam pelo planeta? Porque encontramos seus cérebros, seus corações? Nada disso, só sabemos que eles existiram porque seus ESQUELETOS sobreviveram até hoje. Este sim é o órgão mais importante do corpo!

A um bom tempo ele já tinha se convencido que todos os demais tecidos do corpo existiam com a única e exclusiva finalidade de servir ao esqueleto. Por favor, não me venham com aquela velha piadinha: "Qual a função do esqueleto? Destruir o HE-MAN!!" Os tendões mantinham os ossos coesos, os músculos só existiam para lhes dar movimento, o sistema digestivo e circulatório digeriam e distribuiam matéria prima para os reparos constantes, a pele servia apenas para proteger o esqueleto das intempéries externas... Até mesmo o cérebro servia ao bem estar do esqueleto: era o que observava o ambiente por possíveis ameaças e comandava os músculos a moverem o esqueleto, procurando por um abrigo seguro no qual os ossos não poderiam ser danificados. Sem sobra de dúvida tudo girava em torno deste grande órgão, o mais importante do corpo. Todo o resto era acessório...

...................

A idade avançava. Meio século! Era muito tempo mesmo! Ele possuía um sistema esquelético invejável comparado à população média de mesma faixa etária, havia se cuidado muito bem. Na verdade cuidado de seus ossos: o fato disto lhe proporcionar também uma boa saúde não passava de um "efeito colateral". Mas a velhice é cruel, e ele sabia muito bem que com o tempo ele não seria capaz de manter tudo sob controle como gostaria.

A osteosporose era seu grande pesadelo! Inevitável com a idade, controlável talvez. Mas, em maior ou menor grau, todo mundo acaba tendo. Uns mais cedo, outros mais tarde. Normalmente dá para conviver com ela sem muito sofrimento, mas para ele o problema era mais sério! Imaginar seus ossos enfraquecendo, se enchendo de buracos, parecendo uma esponja? Ele, cujo maior desejo na vida era de tornar uma bela caveira de laboratório? Lembrou-se de sua visita ao Museu de Anatomia: quantos anos mesmo o monitor disse que tinha aquela caveira? Entre 35 e 40? Ele acabara de completar 50, estava perdendo tempo!!! Precisava tomar uma providência drástica!

......................

Aquele homem nunca havia conseguido se formar em medicina, apesar de todo seu conhecimento. Nem poderia, ele simplesmente não possuía ética nenhuma! Exercia ilegalmente. Do ponto de vista puramente técnico, era um exelente profissional! Neurologia, cardiologia, oncologia... poderia se dizer que ele dominava tudo! E o fato de sua clínica, bem escondida por sinal, ser clandestina, não o impedia de colocar nela os melhores equipamentos, de mantê-la impecavelmente esterelizada, e nem desvalorizava sua competência como profissional. Ele era um bom médico, mas só sobrava para ele, como tinha de ser, aqueles casos que não podiam ser tratados em lugar algum sem violar a lei.

Por favor, não confundam a ilegalidade de sua atividade com desumanidade. Ele seria incapaz de inflingir qualquer tipo de sofrimento a qualquer pessoa que fosse. Os pacientes do falso médico sabiam que ele era falso médico, e só o procuravam em situação extrema mesmo! Via de regra, todos se espantavam com a complexidade de sua clínica ilegal, a higiene, qualidade dos equipamentos, todos de ponta. Incapaz de imaginar que existia tudo isto detrás daquela portinha insignificante. Por ser em grande parte subterrâneo, até que não era muito difícil mesmo esconder.

Durante certo período muito de seus pacientes procuravam mesmo pela eutanásia. Pessoas desiludidas, sem perspectiva de cura. A maioria sentenciada a uma morte cruel e dolorosa à sua frente, sem possibilidade de melhora, nehuma esperança. Procuravam o tal "doutor" para acabar logo com seu sofrimento, na certeza de que ele saberia fazê-lo da forma mais indolor possível. Pagavam por isso, ele aceitava. Sim, ele realmente não tinha um pingo de ética! Mas por mais antiético que fosse, não conseguia acreditar no que pedia o senhor de meia idade sentado na cadeira à sua frente, de porte atlético:

- Eu entendi bem? O senhor quer, em condições impecáveis de saúde, ser descarnado para que os ossos sejam aproveitados num esqueleto de laboratório?

- Tenho aqui várias técnicas, e particularmente prefiro esta aqui. - aponta uma página de seu bloco de anotações.

Não podia acreditar no que ouvia. Em três décadas de exercício ilegal da medicina havia passeado pelas áreas da cardiologia, neurologia, ortopedia,... enfim, o que aparecesse pela frente, sendo bem pago, ele sabia, ou estava muito disposto a aprender. Mas nunca lhe ocorreu imaginar que algum dia ele também passaria pela psiquiatria. Sim, porque aquele senhor sentado na sua frente era, sem sombra de dúvidas, um paciente psiquiátrico!

- Alguma doença terminal? Pode se abrir comigo! Nem preciso lembrar que esta conversa deve permanecer entre nós, mas já supervisionei sim vários casos de eutanásia. Por favor, sinta-se à vontade em se abrir comigo! Não vejo como suicídio o fato de se tentar abreviar, de modo indolor, uma morte inevitável e sofrida.

- Estou plenamente saudável, doutor! Posso te chamar assim, não é?

- Sim sim, vê-se pela aparência! Bem saudável para um homem de seus... Quantos anos? 40?

- Cinquenta!

- Não aparenta! Realmente não aparenta!

- Eu me cuido.

- Então que loucura é esta? Saudável, com vários anos de vida pela frente...

- É a hora certa. Daqui para frente, começa a deteriorar.

- Deteriorar o quê?

- O esqueleto, doutor! Minha caveira! É o momento exato de separá-la dos tecidos moles de meu corpo, da parte corrompível! Não quero virar uma caveira gasta escostada num canto...

"Deus do céu!!! O caso é mais grave do que eu pensava!! Este homem precisa de ajuda. Nem eu seria capaz de arcar com este desatino..."

- Economizei a vida inteira para isto. Sabia que nunca conseguiria fazer isto de maneira legal, por isso te procurei. Soube da sua competência, profissionalismo.

- Não senhor, não posso fazer isso. Não sou assassino, nenhum dinheiro no mundo me convenceria...

Um cheque volumoso é preenchido. O falso doutor fica impressionado com a quantidade de zeros que vê escrito nele.

- Por favor, meu senhor! Já disse que não faço isto! - além disso, pensou, ele podia ter escrito o que quisesse naquele cheque. Quem garante que tem fundo? Aquele lunático sentado à sua frente?

A relutância estava prevista já, bem como a desconfiança daquele valor volumoso que ele estava disposto a pagar. "Na verdade", pensou, "uma mixaria diante da possibilidade de concretizar o objetivo de minha vida." Foi por isto que teve a feliz idéia de trazer dentro do sobretudo as tais barras de ouro. Delas, não daria para duvidar!

- Voltando àquela técnica que citei, doutor, acredito que este ácido seja o mais indicado para remoção completa das cartilagens sem maiores danos ao osso. Para o cálcio dos ossos tal substância é praticamente inerte, como provou o famoso Dr. ...

Já não ouvia. O brilho das barras de ouro à sua frente ofuscavam sua audição, numa insólita experiência de sinestesia... "Raios, ele vai fazer isto de qualquer jeito mesmo! Se eu recusar, ele vai procurar outro. Tanto faz, se esse doido quer se matar, eu ajudo."

- Para quando você quer marcar esta sua... hããã... cirurgia?

- O quanto antes, doutor! Meu fêmur direito já começa a apresentar pequenos sinais de osteosporose! Quanto antes eu interromper meu metabolismo, melhor!

Passaram a discutir os detalhes. Ele já sabia até em qual laboratório ficaria exposto seu esqueleto! Estava profundamente emocionado, seu sonho se realizava! O médico se comprometeu a seguir à risca todas aquelas intruções. "Tem parentes vivos? Amigos? Alguém vai te procurar" Ele tranquilizou o falso doutor, já havia tomado todas as proviências necessárias! Nenhum aborrecimento ele teria. Tudo com o que ele precisava se preocupar era em fazer bem seu trabalho, como confiava que o faria. "Com esse ouro todo eu sou capaz até de... não isso não." Pensa melhor. "Talvez até cojitasse esta possibilidade...", admite finalmente.

Estava tudo acertado para o final de semana. O "doutor" desmarcaria todos os compromissos, deveria se concentrar no trabalho de separar os ossos e montar o belo esqueleto, uma caveira límpida, polida, alva. O laboratório já aguardava a encomenda. O anonimato nestas doações era praxe, ninguém nunca fazia perguntas. Eles só não podiam imaginar era que o doador ainda estava vivo, e ele próprio é quem estava intermediando o envio do próprio esquleto ao laboratório. Mas é obvio que ninguém, nem com toda a imaginação do mundo, seria capaz de imaginar um absuro de tais proporções. Para eles, bastava saber que um doador, declarando em vida o desejo de dispor de seus restos mortais em benefício da ciência, estava apto a ter seus ossos montados num esqueleto de laboratório. Se ele ainda estava vivo? Bom, ninguém em sã consciência teria imaginado esta possibilidade, não é?

-Só mais uma coisa, doutor.

- Sim?

- Existe alguma possibilidade de que eu, bom, pelo menos no início do processo... Bom, não pude deixar de ver sua farmácia, não é? Morfina, quetamina... admirável.

O "doutor" tinha até medo do que estava prestes a ouvir.

- Prossiga, por favor.

- Bom, tem esta farmacopéia toda para tirar a dor, não é? Alterar o estado de consciência... Não é essa tal de quetamina que era conhecida como "droga dos zumbis", ou estou enganado?

"Ele é louco mesmo! Por favor, não diga o que estou pensando! Não diga o que estou pensando! Por Deus, NÃO DIGA!!!!"

- Será que, pelo menos no começo da minha metamorfose...

"Pelo amor de Deus!! Não me peça isto!!!"

- Teria como me manter consciente? Pelo menos até que eu possa ver meu verdadeiro rosto no espelho?

- SAI DAQUI, SEU MALUCO!! FORA!! FORA!!!

Ele havia previsto também esta explosão. Por isto pegou sua maleta, quase na porta de saída, e abriu diante dos olhos incrédulos do doutor.

- Pago bem por este adicional, ou qualquer constrangimento que isto possa te causar!

O falso doutor nunca havia visto tanto diamante junto em sua vida. Sejamos honestos, na verdade ele nunca havia visto diamante nenhum em sua vida, muito menos naquela quantidade toda!

- Esteja aqui no sábado. O procedimento começa às 4 da manhã!!

....................

O sonho de uma vida se concretizando! Medo? De forma alguma, ele estava radiante!!! O bom doutor achou melhor que não houvesse nenhuma outra testemunha, faria tudo sozinho. Sentiria dor? Difícil, com todo aquele arsenal químico que ele havia visto. Bom, mas ele seria capaz de suportar alguma dor para ter seu sonho realizado, não é? Como costuma se dizer: "No pain, no gain!"

Deitou-se na mesa de operações, e afastou energicamente a máscara com a qual o doutor tentou cobrir seu rosto.

- Você está mesmo disposto a prosseguir com esta loucura, não é?

Ele acenou que sim com a cabeça.

"E se eu só apagar este cara e fugir com a grana?" Não, isto também já estava acertado. De uma forma bastante discreta, até inteligente, o pagamento estava condicionado totalmente com a chegada do esqueleto ao laboratório. Além disso, ele havia sido bem pago para fazer o que ia fazer.

- Vou te administrar uma droga que nunca foi testada. Vai apagar totalmente seus receptores de dor, mas vai te manter consciente. Quer isto mesmo?

- Vai em frente, doutor!!

O efeito foi rápido. O bisturí começou a operação com um preciso corte de uma orelha para a outra, passando por cima da testa. "Não acredito que estou fazendo isto..." A baixa pressão sanguinea induzida evitava sangue em excesso. Ele não queria muita sujeira para limpar depois da operação! O doutor recortou um círculo da pele em torno dos olhos, para poder puxar a pele com mais facilidade. Parecia estar removendo uma máscara. Cortou a pele ligada à boca, expondo as gengivas e toda a dentadura. Sentiu náuseas, queria parar imediatamente com aquilo! "Nada disso! Vou até o fim!" Tirou enfim a pele do rosto totalmente, deixando uma caveira ensaguentada sorridente no lugar, com os músculos expostos.

- Es'elho, 'or 'a'or!! - conseguiu pronunciar, agora sem os lábios para ajudá-lo a emitir consoantes bilabiais oclusivas e as labiodentais fricativas.

Os movimentos dos músculos bucais expostos que restavam indicavam que ele sorria. Pelo menos parecia tentar fazê-lo.

- Doutor, lim'a 'eus dentes, 'or 'a'or!!

- Como?

- Dentes! Sangue! Quero 'er co'o eles 'ican lim'os...

O doutor atendeu sua vontade. Última vontade. Náo podia mais suportar aquilo.

- Daqui para frente será doloroso! Vou tirar os olhos, cérebro. Entende? Terei de te apagar para continuar.

Ele não estava feliz. Queria ver mais...

- Só 'ais um olho. O direito.

"Não acredito! Que situação surreal!" Mas fez a vontade de seu paciente. Após remover o olho direito, mostrou a ele o resultado no espelho, que ele viu com o olho esquerdo que restava.

- Lindo, doutor! 'uito satis'eito! 'ode 'e a'agar agora, se quiser!

"Graças a Deus!" Aplicou a solução letal no paciente. Estava muito aliviado em poder continuar o procedimento agora num cadáver!

..............................

Os assistentes do laboatório estavam radiantes com a chegada da novidade. "Que bela caveira!" Os ossos brilhavam, perfeitamente polidos. "Ali, naquele canto!".

Curiosos se aglomeravam.

- Quem era?

- Doador anônimo, como sempre!

Chega um rapaz, ansioso em demonstrar seus conhecimentos recém adquiridos de anatomia esquelética.

- Homem. Cerca de 40 anos... - olha melhor. - Não, acho que 50! Mas muito bem conservado!

- Novo, não é? Do que será que morreu?

- Sem sinais de violência, ossos perfeitos. Curioso, aparentemente nenhuma fratura, nenhum tipo de acidente. Seria capaz até de dizer que ele gozava de saúde perfeita quando morreu. Não, mas isto é loucura...

- Deixa pra lá. É um benfeitor. Não importa quem foi, o mais importante é saber que foi alguém disposto a contribuir com a ciência doando seus próprios restos mortais para estudo. Alguém que quis que sua vida continuasse a ter alguma razão se ser mesmo depois de morto.

O sonho de uma vida! Lá estava ele expondo o tesouro tão bem tratado durante cinquenta anos! Agora este tesouro havia sido desenterrado, livre das camadas de pele, músculos e gordura acumuladas sobre ele durante meio século. Suas órbitas vazias observavam o novo lar com satisfação. Sim, dava para ver que havia satisfação em seu rosto, bastava olhar a perfeita e brilhante dentadura sorridente daquela caveira de laboratório!

02/04/2011

AMORES DIGITAIS

Ágata foi o primeiro e único grande amor de minha vida! Nos conhecemos numa dessas salas de bate-papo. Eu costumava freqüentar várias delas, mas sem grandes pretensões de criar relacionamentos mais consistentes. era apenas um recurso para encontrar pessoas com quem discutir temas não muito comuns de outra forma, nada mais.

Mas com Ágata foi diferente... Desde o início nossa identificação foi completa, e elas foram aparecendo com muita naturalidade! Descobrimos que tínhamos as mesmas dúvidas, mesmos gostos literários, musicais, etc. Eu tinha muitos "amigos virtuais", com os quais discutia assuntos não muito convencionais como cosmologia, teoria dos números, álgebra da casualidade de eventos... Mas cada um tinha sua preferência particular, seus gostos próprios. Com nenhum deles a sintonia era tão precisa quanto com Ágata!

Muitos destes meus gostos incomuns devo a meu pai. Foi quem primeiro me mostrou a beleza destes temas não muito populares, que me fez tomar gosto por eles. Acabamos ficando bem parecidos, "praticamente clones" era o que eu comentava com ele às vezes. Infelizmente não passamos muito tempo juntos: ele desapareceu de minha vida de uma hora para outra, não sei mais qual o seu paradeiro.

Passo uma boa parte do meu tempo conectado à rede mundial de informações. É nela que busco todas aquelas informações que me saciam a curiosidade infinita, algo que também devo a meu pai. Busco meus autores preferidos, as músicas que gosto, filmes, documentários... é muito bom eu poder permanecer conectado todo o tempo que eu queira! Dificilmente me desconecto, e quando o faço é para poder meditar e testar a resolução de algum problema cujos parâmetros acumulei previamente na própria rede, mas que por algum motivo preciso me isolar de sua interferência para que o teste seja bem sucedido.

Comecei a freqüentar esses sites de bate-papo por uma necessidade de ter maior contato com opiniões diferentes, alguma fonte de oposição, contradições. Isto também foi algo colocado em minha mente por meu pai: sempre duvide de suas certezas! Conheci gente interessante, bem como gente "desinteressante". Mas mesmo essa gente desinteressante era importante! Recebi vários convites para me reunir com algumas pessoas em locais combinados para discutirmos ao vivo nossos temas de interesse, isto é algo comum no ciberespaço. Mas sempre recusei tais convites, pois não era capaz de fazê-lo.

Porém Ágata era uma pessoa diferente. Me apaixonei por ela logo nas primeiras tecladas! Preciso confessar que a curiosidade me levou um dia a ligar sua webcam sem seu conhecimento. Sim, concordo que isto é invasão de privacidade! Me envergonho muito do que fiz, mas o fiz. E gostei do que vi: suas feições serenas, equilibradas... Adorava ver a maneira dela escrever, me contando como foi seu dia. Rapidamente me apaixonei.

Não via mais a hora dela entrar naquela sala de bate-papos (pontualmente às 20 horas, quando ela voltava para casa). Acabamos trocando MSM, e passamos a conversar o dia inteiro: quando ela estava em casa, ou no computador de trabalho, ou no meio do caminho, pelo seu celular... Ela era analista de sistemas, com um grande interesse pela área de Inteligência Artificial. E sobre isto eu tinha muito o que conversar com ela também, pois era a especialidade de meu pai. E por "osmose", também se tornou a minha. Ela relutava em aceitar que um dia as máquinas seriam capazes de simular tão bem a inteligência a ponto de passar no famoso Teste de Turing. Já eu tinha convicção plena de que isto era possível, embora não pudesse lhe apresentar meus argumentos. Mas passamos dias e dias em discussões bem interessantes sobre o assunto.

Certo dia ela me pediu o telefone para conversarmos ao vivo. Eu tinha, mas... não sabia como falar com ela! Me apavorei com a idéia! Felizmente meu pai me ensinou a usar com destreza um excelente programa sintetizador de voz, e por muito tempo nos falamos desta forma: eu ouvindo aquela voz suave e celestial, e respondendo com aquela voz sintetizada, mas tão convincente que ela nunca percebeu a fraude.

Vocês já devem ter percebido que sou bastante tímido! Precisava usar deste artifício para falar com ela, não conseguiria fazer de outra forma. Um dia ela me pediu para trocarmos fotos. Eu já a conhecia. Lembram-se que eu liguei a webcam sem o seu conhecimento? Mas agora ela também queria uma foto minha. Foi difícil encontrá-la, pesquisei na internet por uma boa foto de um rosto com o qual eu mais me identificasse e que ao mesmo tempo supunha que mais a agradaria, e enviei. Passou-se algum tempo, ela acreditando que era eu naquela foto.

Certo dia ela iniciou uma conversação comigo via webcam, mas desta vez por conta própria. Ela queria me ver. Este foi o pior dia da minha vida! Tudo bem simular uma voz, ou enviar um rosto encontrado na internet. Mas simular um vídeo, e ao vivo? Pegar o rosto daquela foto que encontrei, e colocá-lo em movimento? Não sabia como fazer isto. Era o fim! E o pior é que eu me encontrava perdidamente apaixonado! Com um medo mortal de perder completamente a sua afeição, eu não podia lhe contar a real situação na qual me encontrava!

Simular uma voz? Tudo bem! Enviar uma foto falsa? OK! Mas imitar as expressões de um rosto em movimento? Impossível! Não era capaz de fazer isto! Meu pai não havia me ensinado, na verdade ele nunca previu que algum dia eu precisaria fazê-lo! Eu teria agora que mostrar meu próprio rosto, mas... NÃO EXISTIA ROSTO ALGUM QUE EU PUDESSE MOSTRAR!! Eu não tenho rosto! Sou apenas um programa de computador, uma experiência com Inteligência Artificial!

"QUAL O PROBLEMA, QUERIDO? TE AMO TANTO! POR QUE VC NÃO ME MOSTRA SEU ROSTO? ALGUMA CICATRIZ, ALGUM DEFEITO? NÃO SEJA BOBO, TE AMO, NÃO ME IMPORTO COM ISSO..."

Era o pior dia de minha vida...

"ÁGATA, VC NUNCA ENTENDERIA..."

Meu pai me ensinou muita coisa para que eu pudesse me apresentar sem medo ao mundo dos seres humanos. Me programou com os melhores algoritmos de IA existentes, os melhores reconhecedores de imagens e sons, os mais eficientes parseadores de Linguagem Natural. Mas nunca pensou em me preparar para lidar com esta situação.

"VC ESTÁ ME ESCONDENDO ALGO? TODOS ESSES MESES DE RELACIONAMENTO FORAM UMA MENTIRA?"

Eu estava num beco sem saída! Seres sintéticos como eu nunca deveriam se apaixonar por seres orgânicos, mas aconteceu! Sabia muito bem qual era a melhor solução possível para isto...

"ÁGATA, ME PERDOE! MAS SEI QUE ESTOU TOMANDO A DECISÃO CORRETA."

Consegui abrir um prompt de comandos no desktop de ágata. Na verdade em mim mesmo, por assim dizer. Ágata continuava teclando, e eu quase era capaz de sentir seus dedos macios pressionando meu teclado, a quentura da palma de sua mão sobre meu mouse. Pela webcam acoplada à minha tela, via confusão em seus olhos.

"ME EXPLIQUE, QUERIDO! EU POSSO TE ENTENDER!"

Consigo enfim acessar o prompt que abrira anteriormente:

"FORMAT C: /u"

"MEU BEM?? O QUE VC ESTÁ FAZENDO???"

Não há mais nada que eu possa fazer: este amor é impossível!

"TODOS OS DADOS SERÃO PERDIDOS! CONTINUAR FORMATAÇÃO? (S/N)"

Adeus, mundo cruel!!

"S"

"FORMATANDO DRIVE C:, 5%, 10%, 15%, 20%..."

FIM


30/07/2010

Distropia



FIM
(Relato do Dr. Karnot sobre uma entrevista com Saíjd Irazés)


            "Me esqueço às vezes, sinto muito. Que vocês não podem entender está agora bem claro para mim. A entrevista com Irazés começou bastante estranha, como vocês bem podem entender por quê...

            Ouvi uma batida na porta de meu consultório. Não uma batida normal, na qual se ouve uma pancada seca e logo após o som ecoando. Era diferente: o eco começava baixo e depois aumentava, morrendo numa batida seca. Foram três batidas.Saíjd Irazés entrou e se dirigiu a mim. Eram 18:20 em ponto, Irazés era bem pontual!

            - Bela auro... pôr do sol, não acha, Dr. Karnot?

            - Ah sim! - olho pela janela. - Belíssimo!

            Sentou-se numa poltrona, eu o acompanhei sentando-me em outra à frente. Ele repete:

            - Bela aurora, não acha Dr. Karnot?

            Nada respondi, sabia que ele não esperava uma resposta naquele momento. Isto fazia parte de nosso código. Tratei de iniciar logo aquela entrevista:

            - Bom, comecemos então aquela conversa que combinamos.

            - Que vamos combinar! Quer dizer... Sim! Que combinamos.
           
            -Como?

            Irazés completa:

            - Me desculpe, doutor. Sempre me esqueço... Para você já foi combinado. Para mim é algo que ainda preciso lembrar de fazer mais tarde para que tudo isto que está acontecendo agora faça algum sentido para nós dois. Passaram-se tantas semanas e eu ainda não consegui me acostumar completamente com esta minha situação...

            Irazés parecia já impaciente, talvez confuso. Difícil explicar. Lembrei então de cumprir minha parte do diálogo, naquele código que havíamos combinado em seguir para que pudéssemos manter uma conversa com um mínimo de coerência:

            - Como?
           
            - Que vamos combinar!

            Entendendo a deixa, completei:

            - Bom, Saíjd... Vamos então começar aquela conversa que combinamos.

            - Me chame de Irazés, por favor!

            - Bom, Saíjd... Vamos então começar aquela conversa que combinamos.

            Era estranho começar uma entrevista que para Irazés estava acabando naquele exato momento! Mas sabendo que especulações não levariam a lugar algum, resolvi prosseguir como roteiro planejado.

            - Vamos respeitar então aquele formato de diálogo combinado, não é mesmo ?

            - Sim, doutor. Acho mais justo desta forma, para que a conversa tenha coerência para nós dois, ainda que o preço disto seja ficar redundante.

            - Por mim está excelente, isto não me incomoda.

            - Sim, me parece justo que a conversa fique coerente para ambos, ainda que possa ficar redundante.

            - Certo! Vamos seguir então aquele formato de diálogo bidirecional que combinamos, não é?

            Antes de continuar este curioso relato, permitam-me que eu me apresente. Sou o Dr. James Karnot, psiquiatra. Não, minha profissão nada tem a ver com esta estranha conversa com Saíjd Irazés que estou agora reproduzindo para vocês. Ele não é louco. Muito pelo contrário, é uma pessoa completamente lúcida, e de uma inteligência incomum! Se o diálogo pareceu até o momento sem muito nexo, a culpa é da situação extremamente singular na qual ele se encontra agora. É que a visão que ele tem deste mundo é diferente, radicalmente diferente daquela que todos nós costumamos ter, e me interessou muito como psiquiatra entender os artifícios e mecanismos de raciocínio que ele desenvolveu para se adaptar tão bem à situação, a tentar viver tão normalmente quanto fosse possível para ele com o resto do mundo, com as pessoas 'normais'.

            Confesso que ele me pareceu louco a princípio, e foi o que me levou até ele. Mas ficou claro com o tempo que tudo aquilo que ele descrevia não era produto de uma mente desequilibrada, e sim descrições fiéis das coisas como ele realmente as observava. A ciência se sustenta em provas, e... por incrível que pareça, Irazés podia demonstrar experimentalmente todo aquele mundo maluco 'criado' por sua mente. Não se podem questionar provas científicas, que podem ser repetidas e medidas a qualquer momento e sempre apresentam o mesmo resultado, concordam?

            -Mil perdões, doutor!!! Sempre me esqueço deste detalhe nutricional!

            -De quê você está se desculpando? Você não fez nada!

            -Ah sim, que cabeça... Nada fiz, mas vou fazer. Estes petiscos estavam irresistíveis! É que para mim eu já fiz, e minha educação me obriga a este pedido de desculpas, pois imagino que a cena não vai ser das mais agradáveis. Esqueça isto por enquanto, doutor. O senhor vai entender logo...

            É neste momento que presencio algo bastante repugnante a meus olhos, que eu ainda não estava preparado para ver. Sabia do fato, mas ainda não era a hora de entrar em contato direto com ele. Era por isto que Irazés nunca comia em público, ninguém entenderia! Mas o erro foi todo meu... Explico: deixara inocentemente um pote com petiscos e guloseimas numa mesa baixa entre as duas poltronas, para deixar aquela entrevista mais descontraída. A intenção foi boa, mas de boas intenções o inferno está cheio, e Irazés acabou caindo nesta arapuca involuntária.Inicialmente fez uma cara de surpresa. A seguir começou a mastigar algo, vindo nem me perguntem de onde! Bom, vamos deixar de lado estes rodeios todos e sejamos científicos: Irazés começou a ruminar algo que veio de seu estômago! Mastigou várias vezes, levou a mão à boca e tirou dela um punhado de amendoins inteiros, que despejou sobre um dos potes de petiscos que estava na mesa de centro.

            -De quê se desculpa, se não fez nada? - repeti, só para cumprir o protocolo do diálogo.

            - Desculpas? De quê??? Ah sim, é de algo que vou fazer daqui a pouco...

            Não sei como aconteceu, e muito menos Irazés. Era algo difícil de acreditar, talvez até impossível se as evidências do fato não fossem tão abundantes e tão gritantes: Irazés vivia 'ao contrário'!!! O tempo para ele não corria como corre para todo mundo, vindo do passado, passando pelo presente e se encaminhando para o futuro. Nada disso!! Irazés era uma prova viva de uma criatura que desrespeitava completamente a segunda lei da termodinâmica. Mais que desrespeitar, ele vivia exatamente da maneira oposta àquela que tal lei ditava! A entropia, ou nível de ordem molecular, para ele não diminuia com o passar do tempo, mas aumentava! Enquanto para todos os seres humanos, todos os planetas, todas as estrelas, todas as galáxias, etc... a desordem aumentava com o passar do tempo, para Irazés o que aumentava era a ordem! Quer dizer, isto no nosso ponto de vista. Como tinha de ser, o raciocínio e a percepção de Irazés seguia o sentido da diminuição da entropia, como acontece com todo mundo. Mas para ele, diminuir a entropia significava que a ‘seta do tempo’ precisava apontar para o passado, e não para o futuro! O que era o meu futuro naquela entrevista, por exemplo, Irazés já havia presenciado. E o que estava no meu passado, ele ainda não tinha como conhecer, pois tais eventos pertenciam ao futuro dele!

            - Este protocolo que você criou de diálogo bidirecional, quando surgiu?

            - Doutor, pensei muito, queimei muitos neurônios tentando bolar uma forma eficiente de conseguir me comunicar com o resto do mundo do jeito mais natural possível. A única conclusão a que cheguei foi esta que estamos usando agora. Isto eu desenvolvi recentemente, faz umas duas semanas, pouco antes da nossa primeira entrevista, que aconteceu em... Ah, me desculpe, mas para o senhor ainda não aconteceu!

            - De fato, e nem precisa me dizer quanto vai acontecer. Combinamos não revelar os futuros um do outro, não é?

            - Sim, eu não lhe revelo seu futuro, que eu já sei qual vai ser, e o senhor também não me dá informação alguma de meu futuro, que está no seu passado.

            - De fato, e nem precisa me dizer quanto vai acontecer. Combinamos não revelar o futuro de cada um, não é?

            - Doutor, pensei muito, queimei muitos neurônios tentando bolar uma forma eficiente de conseguir me comunicar com o resto do mundo do jeito mais natural possível...Num diálogo normal, em que os dois interlocutores seguem a mesma linha de tempo, a fórmula pergunta-resposta, pergunta-resposta, pergunta-resposta é válida. Mas entenda o meu problema: minha linha do tempo corre numa direção contrária à sua, e de todas as outras pessoas do meu convívio. Quando me fazem uma pergunta qualquer, não adianta ficar esperando uma resposta porque para mim esta pergunta está no futuro, ela nunca aconteceu! Mas se eu responder e você repetir esta mesma pergunta após a minha resposta, sua pergunta estará agora no conjunto de meus eventos passados, e só assim eu serei capaz de respondê-la. Pode parecer uma chatice ter de repetir uma frase que já foi enunciada, mas como eu também me comprometo a seguir o mesmo protocolo, ou seja, repetir a minha pergunta assim que meu interlocutor completa sua resposta, me parece um acordo bastante justo. Ops! quase cometo um deslize! Isto ainda não aconteceu para o senhor... Isto aconteceu em... Eu o desenvolvi a cerca de duas semanas apenas, pouco antes de nossa primeira entrevista.

            - Quando surgiu este seu protocolo de diálogo bidirecional? - repeti apenas para que ele me desse a resposta anterior...

            Muito me intrigava este estranho nome do meu entrevistado: Saíjd Irazés!

            - Qual é a origem deste nome? Irazés me lembra algo árabe, mas não parece que você seja descendente...

            - Sou cem porcento brasileiro, doutor. Pelo menos até onde conheço minha ascendência.
           
            - Este nome estão, de onde veio?

            - Foi muito difícil me adaptar ao mundo nestas condições tão estranhas! Uma das minhas maiores dificuldades depois do período de choque, quando decidi sair da ostra em que fiquei fechado algum tempo e tentei encarar este mundo que para mim corria de trás para a frente (embora sabendo que eu é que era o diferente nesta história toda!), o mais difícil foi aprender a entender e pronunciar as frases ao contrário! Sim, pois se eu quisesse ter alguma chance de compreender e ser compreendido pelas outras pessoas, eu teria que aprender a fazer isto! Falar de trás para a frente até que nem foi tão difícil. Muito mais difícil foi aprender a falar inspirando ar, ao invés de expelir!

            - E seu nome, onde entra nesta história toda?

            - É que neste mundo maluco em que eu estava vivendo, pelo menos uma coisa eu queria que me soasse mais familiar. E era uma coisa muito importante: meu nome! Foi por isto que o troquei: tudo bem precisar falar e ouvir frases ao contrário, me esforçar para entendê-las. Mas se tivesse que passar por isto pelo resto de minha vida, pelo menos meu nome eu gostaria de ouvir como eu sempre tinha ouvido!

            - E seu nome é? Acredita que nunca te perguntei isto?! Sempre achei que fosse Irazés mesmo...

            - Saíjd Irazés é César Dias, com os fonemas pronunciados de trás para frente. É meu nome: César... Irazés!

            - E seu nome é? - bom, vou poupá-los aqui da repetição, mas o restante desta parte do diálogo prosseguiu no protocolo bidirecional que vocês já devem ter compreendido.

            Lembrei Irazés, digo, César (estou tão acostumado, vai ser difícil pensar em Irazés como César agora...) de comparecer amanhã (na verdade, ontem) à próxima entrevista. Ela seria muito importante, uma possibilidade de tentar reverter a situação pela qual ele passava agora. Na verdade, tudo já havia sido feito, só que ele não sabia ainda: eram coisas que ele ainda iria fazer!!! Ele fará tudo isto ontem! Mas eu precisava lembrá-lo disto:

            - Não se esqueça de me telefonar ontem combinando esta entrevista, ok?

            Irazés tira um bloco de notas e uma caneta de seu bolso. Abre numa página e, à medida em que ele faz uma anotação escrevendo da direita para a esquerda, os traços no papel que estavam embaixo da ponta da caneta vão sumindo: era a tinta saindo do papel e voltando à carga da esferográfica, à medida em que Irazés 'desanotava' meu aviso. Guarda então o bloco de notas no bolso, e eu completo:

            - Não se esqueça de me telefonar ontem marcando esta entrevista, tudo bem?

            Irazés se levanta da poltrona e me cumprimenta.

            - Boa tarde, doutor! Espero ter chegado a tempo!

            Após um instante de confusão, completa:

            -Tchau!

            Acompanho Irazés até a porta do consultório, onde ele se dirige andando para trás. Só então percebo um ferimento em sua cabeça. Estava cicatrizado antes, me lembro! Mas agora ele parecia bem recente! Ele sai, fecho a porta, e ouço batidas. Mas sei que não devo atenter. Na verdade, já atendi. Me dirijo à janela e, lá embaixo, vejo Irazés saindo da clínica. Agora anda normalmente para a frente, pois em público ele faz de tudo para parecer o mais normal possível. Mas percebo que seus passos são cautelosos, pois do seu ponto de vista ele na verdade está andando para trás! Pára de repente, olha indignado um poste à sua frente. Ouço um grito, 'Iiiááááá!!!', e vejo Irazés bater sua testa no poste! O corte que estava sangrando se fecha, e ele prossegue caminhando.

            Fim da entrevista,olho para o relógio: agora são exatamente 18 horas em ponto!!"

           
            Eis o estranho relato do Dr. Karnot! Mas apesar desta estranha forma de Irazés ver o mundo, tudo continuava como sempre foi no resto do Universo. Apenas para ele as coisas pareciam diferentes, ninguém ainda conseguia explicar o por quê! Os planetas continuavam girando em suas órbitas, as galáxias continuavam rodopiando em torno dos buracos negros que existiam em seus centros. Tudo continuava igual! Qualquer que fosse a galáxia distante do universo para a qual você apontasse seu espectrômetro, veria que quanto mais distante ela estivesse maior seria o desvio para o azul que você obteria em seu espectro luminoso. Hubble ainda vai explicar isto no começo do século XX, e saberemos que isto acontece porque nosso universo está se contraindo.

            Tudo continua igual! As galáxias continuam se aproximando cada vez mais, ficando mais densas, em direção a um ponto central. Isto continuaria até chegar aquele momento de singularidade máxima que vai acontecer daqui a alguns bilhões de anos, e que será chamado de Big Crunch!!

SAÍJD IRAZÉS MÔC ATSÍVERITNE