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25/09/2011
Mundos Ocos
O lago principal brilhava no centro da abóbada, bem acima de sua cabeça. Apesar da distância, ainda era possível vê-lo atrás daquela grossa camada de atmosfera apenas com tons mais levemente azulados. Seis canais caudalosos partiam radialmente deste lago, cada um fazendo com os vizinhos um ângulo de praticamente sessenta graus. Os canais se prolongavam, hora ou outra parcialmente ocultados pela densa vegetação, que era interrompida aqui e ali por pontos mais pálidos de aglomerados humanos, aldeias, vilas, ou cidades maiores. Com certa regularidade também partiam desses canais braços de água mais finos, correndo longitudinalmente para levar o líquido aos aglomerados mais isolados. Aquela distribuição radial dos canais não apenas parecia artificial: era artificial de fato! Também artificial era a presença de poucos morros pouco elevados, espaçados na calota esférica praticamente perfeita que se via à volta. As antigas elevações mais pronunciadas da cavidade foram reduzidas por precaução há algum tempo, numa tentativa de não afetar o delicado equilíbrio do sol central. A tragédia ocorrida na cavidade vizinha, que vitimou centenas de milhares de pessoas, não poderia se repetir!
Os canais continuavam se afastando até atingirem o máximo de SEPARAÇÃO numa região conhecida como "O Cinturão do Círculo Máximo", uma parede inclinada em ângulo reto do ponto de vista de onde ele agora obvervava a cavidade, abarcando com o olhar todo o seu mundo. Após o cinturão, os canais começavam a "descer" e se aproximar cada vez mais, até desembocarem todos no "Lago da Ilha". No centro deste lago, como era de se esperar, havia uma ilha (não me diga!!). Era do centro desta ilha que ele contemplava tudo isto. Estava na cidade de Shangri-Lá, capital daquela cavidade esférica.
Exatamente no meio do caminho entre o chão e o topo da abóbada estava o sol central, girando loucamente e mantendo assim ainda mais seu equilíbrio naquele ponto de equilíbrio instável onde se encontrava. Na cavidade em si não havia muito sentido em se falar de norte ou sul. O fato de todos localizarem a capital no sul e o lago principal no norte se baseava inteiramente no eixo de rotação deste sol, único ponto de referência que poderiam utilizar para utilizar tais coordenadas. Olhando para cima, via-se claramente o pólo sul de seu sol, que parecia girar em sentido horário.
Pólux precisava agora se dirigir ao Círculo Máximo, e tomar lá um dos ascensores até uma cavidade vizinha. Estando numa ilha, deveria tomar um barco? Não necessariamente, só se ele não estivesse com muita pressa. Não era o caso. Tomaria um teleférico, percorrendo a menor distância entre dois pontos: a linha reta! Topologistas da antiguidade não concordariam com isto, e diriam que o correto seria dizer que a menor distância era uma geodésica. Mas eles viviam num mundo diferente, convexo, e incapazes de perfurar o chão para abrir um caminho reto entre dois pontos da esfera de seus mundos, precisavam mesmo se conformar com a geodésica, mais comprida. Mas o mundo de Pólux era diferente, apenas o ar separava dois pontos quaisquer da superfície de sua cavidade. Nada mais natural do que esticar cabos de ligas de carbono entre vários pontos principais de seu mundo. E quanto mais distante, melhor: quanto maior a distância do meio do cabo até o solo, menor a força gravitacional. Mais o percurso perdia seu formato de catenária e se aproximava de uma reta. O único limite exigido era que sempre estivessem a uma distância segura do sol central, e isto ninguém era louco de desrespeitar. Não pelo calor, pois apesar de um pouco maior que no solo, especula-se que seria possível até mesmo tocar este sol sem riscos de queimadura. Evitava-se a aproximação para que em hipótese alguma seu equilíbrio fosse afetado!
Ao entrar no bonde que partia de uma das praias da ilha, começou a pensar. Seu povo já habitava aquele universo fechado a gerações incontáveis! Mesmo as antigas histórias contadas pelos anciões, nas quais Pólux acreditava sem questionar, começavam a chegar à cabeça das gerações mais novas como lendas antigas, sem fundamento científico. Sim, pois não dá para sustentar aquilo que não se pode provar! As leis da gravitação, por exemplo. Lendas antigas diziam que as pessoas viviam na superfície externa de esferas rochosas livres no vácuo, e que a gravitação mantinha estas rochas girando em órbitas estáveis ao redor de estrelas gigantescas. Como assim? Se todos nasciam vendo uma estrela central que deveria ter... Quanto? Quinze quilômetros de raio no máximo? Também diziam as lendas que os humanos da antiguidade viviam num mundo em que se alternavam hora períodos iluminados e hora períodos de trevas, dependendo se sua esfera rochosa, que girava, estava exposta ou não à estrela central. Como assim, período de trevas? O sol se apagava? Pólux até conseguia compreender que isto estava relacionado à rotação do mundo dos antigos, mas a idéia de períodos alternados de luz e trevas era inconcebível para grande parte da população. Isto tinha um nome... Qual era mesmo? Pólux tentou se lembrar. "DIA e NUIT, acho que era isso... só não lembro qual era o claro e qual o escuro..."
Vácuo... Está aí outra lenda antiga que nem Pólux, bastante instruído, conseguia compreender. Como uma região poderia conter "nada"? Nem atmosfera? A tendência do ar não é se expandir? Por que ele ficaria retido numa fina película em torno desses mundos rochosos, cercado de "nada" em toda a sua volta? Ah, claro! A atração gravitacional explicava isto. Uma grande massa de matéria tendia a atrair massas à sua volta, inclusive a atmosfera. Só que no mundo de Pólux esta idéia antiga precisava ser reformulada: era a ausência de matéria que REPELIA outras porções de matéria do seu centro, e por isso tudo permanecia "colado" às paredes da cavidade de seu mundo. No fundo até podiam ser explicações diferentes para o mesmo efeito: matéria atraindo matéria, ou ausência de matéria repelindo matéria. Mas definitivamente, no seu mundo côncavo a segunda idéia era muito mais fácil de aceitar! O sol central só permanecia estático no centro da cavidade porque era igualmente repelido em todas as direções, a força resultante era nula. Mas qualquer empurrão extra poderia fazê-lo despencar em algum lugar da cavidade. Eis o motivo do seu povo ser tão cuidadoso em não interferir no seu equilíbrio!
O teleférico chegou ao Círculo Máximo depois de uma viagem de cerca de duzentos quilômetros. Pólux relembrou com pesar da tragédia da cavidade vizinha, de como foram imprudentes em tentar atingir seu sol central com aeróstatos. Primeiro, desde sempre já se sabia impossível pousar nele: a força centrífuga criada naquela rotação altíssima impediria qualquer tentativa. Aterrissar num dos pólos então? Muito pior! Era o ponto mais sensível às interferências externas, um desequilíbrio total de sua estabilidade! O movimento de precessão se intensificou em minutos com aquele pouso mínimo. O eixo de rotação girou perigosamente em espirais cada vez maiores, como um pião desgovernado, até que deslocou o sol irreversivelmente do centro da cavidade. E haviam as gigantescas cordilheiras nas paredes da cavidade também. Talvez o sol até voltasse ao equilíbrio original se as paredes fossem mais perfeitamente esféricas, mas... O deslocamento do centro coincidiu com a direção de uma das maiores cordilheiras da cavidade. O sol começou a cair, parecia atraído pela massa de montanhas. Haveria então algum fundamento nas antigas histórias sobre atração gravitacional? Tanto faz. Saber disto ou não era irrelevante, a tragédia era irreversível! Todos foram dizimados. Na verdade, ninguém sabe disto, mas se supõe. Isto porque a via natural de comunicação entre as cavidades, uma caverna em meio às antigas rochas de seu universo que ligava as duas cavidades esféricas, foi fechada com a queda do sol. Transmissões quase inaudíveis de rádio atravessando camadas gigantescas de rocha indicavam que talvez houvesse sobreviventes, mas como atingi-los? Como resgatá-los? E, isolados, como sobreviriam naquela cavidade já sem um sol central fornecendo luz e calor? Isto já havia acontecido há quase um século, mas poderia ser esclarecido agora.
Século? Anos, dias, horas? De onde vinha esta estranha contagem de tempo, herança dos antigos que todos seguiam à risca? Bom, as instruções dos antigos para a construção dos pêndulos calibradores eram bem precisas: "Uma massa perfeitamente cúbica de irídio de dois palmos sagrados de lado deve ser presa na ponta de uma corda de comprimento exatamente igual à distância entre o olho esquerdo e a ponta do dedão direito da estátua do ídolo astronauta de platina que está no templo cósmico em Shangri-Lá. Prenda este pêndulo na abóbada central do templo e faça-o oscilar com uma amplitude pequena. Este será vosso Segundo! Sessenta desses serão Minutos, sessenta Minutos uma Hora! Vinte e quatro horas, um Dia. E 365.25 Dias um Ano; cem Anos vocês deverão denominar Séculos." Todos respeitavam, mesmo sem compreender tais números cabalísticos. Por que 60? Provavelmente pela gigantesca quantidade de divisores, a possibilidade de subdividir o tempo minimizando a probabilidade de se defrontar com dízimas. Mas e as 24 horas, ou, mais estranho ainda, 365.25 dias do ano? Os anciãos especulavam que devia ter alguma relação com a rotação e translação dos mundos convexos de onde vinham os que deixaram tais instruções, mas não havia como ter certeza disto.
A tecnologia das perfuratrizes se desenvolveu rápido em questão de décadas! 27 anos agora depois da primeira constatação de uma cavidade satélite. No caso da perfuração de canais entre as cavidades percebeu-se que nem sempre era possível criar um caminho reto. Vez ou outra se defrontavam com uma estranha matéria, de dureza inimaginável, incapaz de ser atravessada pelas brocas de diamante (material abundante no subsolo de seu mundo). No início a necessidade de desvios era freqüente, até que se aperfeiçoassem os sensores gravitacionais. Foi uma revolução, permitia planejar com antecedência uma perfuração reta até as cavidades satélites pela rota mais desobstruída possível, formada por rochas de fácil perfuração como granito ou sílica.
Os satélites descobertos eram sempre de dimensões pequenas. Era tão pouca a ausência de matéria proporcionada por seus raios que a baixa gravidade era característica comum neles. Sol central? Até o momento, nenhum havia sido descoberto em tais satélites minúsculos. Em algum uma leve fosforescência emanava das estranhas plantas que recobriam sua superfície, amenizando um pouco o completo breu. Mas sol central conhecido, apenas no mundo de Pólux, visto que o da vizinha havia sido destruído na catástrofe citada.
Pólux entrou no ascensor novo. Ascensor? Estranho denominá-lo assim, visto que ele iria descer. Bom, chamar de "descensor" seria bem estranho. E de fato ele alternava ambas as características: ele desceria, mas para chegar até onde agora estava ele precisou antes subir. Subir, descer... Pólux logo descobriria a imprecisão de tais termos. Mas entrou no ascensor, encontrando o velho amigo Cástor:
- Pólux! Vamos lá! Mal posso controlar a ansiedade e chegar logo!
Depois de anos de prática em atingir as cavidades satélites próximas, decidiram finalmente se aventurar à grande cavidade vizinha, vítima da tragédia ocorrida há quase um século! O ponto em que a primeira perfuratriz subiu à cavidade parecia isolada, mas luzes ao longe indicavam que alguma atividade continuava existindo lá, apesar do antigo cataclismo.
- É seguro? Tem atmosfera?
- Nenhum indício de descompressão quando a perfuratriz saiu da parede da cavidade! Alguns traços de hélio e xenônio a mais, mas totalmente inertes. Acreditamos que tem a ver com o colapso do sol central deles. Mas a diferença de pressão, por exemplo, não é significativa.
Começaram então a descida dentro da cápsula daquele novo ascensor. Sendo a primeira viagem logo após a abertura da passagem pela perfuratriz, ela aconteceria bem mais lenta que a dos ascensores comuns que levavam às cavidades satélites! Pólux e Cástor sentiam claramente a diminuição de seus pesos à medida que a cápsula entrava pela passagem cavada no tecido rochoso de seu universo.
- Cástor, sempre me pergunto: qual o tamanho de nosso universo?
- Como assim?
- Sei lá, acho estranha a idéia de uma quantidade infinita de rocha se espalhando em todas as direções, com cavidades isoladas aqui e ali...
Cástor se pôs pensativo. Sim, ele poderia revelar aquilo, estava certo de que Pólux era capaz de entender.
- Tem uma lenda transmitida pelos antigos a respeito de universos fechados. É difícil compreendê-la, envolve a aceitação de dimensões além daquelas observáveis... Nossos sábios estão trabalhando nestas questões. Mas, em resumo, elas dizem que nosso universo pode ser fechado. Que esta massa toda de rocha, embora não apresentando nenhum limite, tem volume finito, fecha-se sobre ela mesma.
- Quer dizer, se resolvermos avançar numa direção reta qualquer vamos sempre acabar chegando ao ponto de onde saímos?
- Isso mesmo! Admira-me a rapidez de sua conclusão! Inclusive já testamos esta hipótese: enviamos uma perfuratriz automática de pequena dimensão para tentar percorrer esta linha reta. Se os antigos estiverem certos, hora ou outra ela vai reaparecer na nossa cavidade, na parede oposta de onde ela saiu. Saberemos assim determinar qual é o tamanho de nosso universo.
- Nunca soube disto...
- Evitamos divulgar, afinal a grande maioria não compreenderia. Muitos até poderiam tentar vetar o experimento, julgando-o inútil...
- Entendo. Algum sinal de tal perfuratriz automática?
- Nenhum. Já deve estar a mais de 30 mil quilômetros de nós! Parece que, se o universo é fechado, deve ser bem maior do que imaginamos...
Agora um lampejo de compreensão brilhou na mente de Pólux. Relembrou as antigas aulas de geometria multidimensional, que ele sempre considerou inúteis, e de repente elas pareciam ser capazes de explicar uma realidade até então incompreendida: e se o universo tridimensional no qual viviam, cercado de rochas em todas as direções, fosse na verdade o exterior, a "superfície" de uma hiperesfera quadridimensional? Isto conciliaria, inclusive, a noção atual de repulsão gravitacional com a teoria da gravitação das lendas antigas, que Pólux evitava a todo custo desprezar. Num universo rochoso fechado, a aparente "repulsão" para as paredes da cavidade condizia perfeitamente com a atração gravitacional dos antigos: no universo fechado como um todo havia um pouco mais de matéria "puxando-o" para baixo do que para cima, onde havia uma cavidade puxando-o com menos força por estar preenchida de ar, uma matéria bem menos densa que as rochas e com capacidade de atração ínfima comparada a elas. Tudo parecia agora se encaixar...
A sensação de imponderabilidade se intensificava cada vez mais. Era evidente que eles ficavam cada vez mais leve, mas quando isto pararia? A lei era bem conhecida: à medida que nos aproximamos do sol central, o peso diminui linearmente de acordo com a sua distância do solo. Porém isto valia para o interior oco das cavidades, preenchidas de ar. No caso dos caminhos criados pelas perfuratrizes, cercada de inimaginável massa de rocha de seu Universo, a lei mudava: o peso diminuía mais rápido, proporcional ao quadrado da distância! Isto se você não estava se dirigindo a outra cavidade. Neste caso, a combinação da lei para ambas fazia isto acontecer mais rápido. E isto ficava evidente agora, quando Cástor e Pólux flutuavam sem peso dentro do ascensor. Se verificadas exatas as idéias sobre Universo Fechado, eles estavam agora num ponto bastante particular do mesmo: numa região em que toda a massa de seu universo os puxava com a mesma intensidade em todas as direções, dando aquela curiosa impressão de ausência de peso. Isto durou alguns minutos, mas foi desfeito em seguida. Lentamente Pólux começou a perceber que subia de novo, e perguntou ao amigo:
- Cástor, que aconteceu? Parece que estamos voltando. Estamos subindo, não é?
Cástor se divertia com a ingenuidade do amigo. Marinheiro de primeira viagem...
- Continuamos a caminho, Pólux! Ultrapassamos o ponto de equilíbrio gravitacional, e agora a força de repulsão de nossa cavidade vizinha começa a ficar mais intensa. Parece que estamos subindo agora, mas definitivamente continuamos viajando na mesma direção. Você não percebeu ainda que agora estamos no teto do ascensor?
Agora que Cástor mencionou o fato, ele se tornou evidente. Estavam agora no teto, e o peso aumentava cada vez mais.
- Que peso teremos lá?
- Quase o mesmo! Nossa vizinha era um pouco maior, mas nada que sejamos capazes de perceber.
- Gravidade maior? É por isto que no caso deles as instruções para construir o pêndulo calibrador exigiam uma corda um pouco maior.
- Provavelmente. Ainda não conseguimos descobrir direito como isto funciona. Mas parece que, gravidade maior, pêndulo maior. Nos nossos satélites pequenos, por exemplo, ficava bem claro que a oscilação dos pêndulos que trazíamos de nosso mundo era bem mais lenta.
A sensação de peso aumentava. A expectativa, igualmente! Existiriam sobreviventes, quase cem anos depois da tragédia? Estavam prestes a descobrir...
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Escuridão absoluta, silêncio total. Onde estavam as luzes mencionadas a princípio? Estariam os sobreviventes tentando se proteger, ao perceber que haviam sido "invadidos"? Saíram do ascensor, com a cúpula externa ainda improvisada. A atmosfera parecia ainda familiar. De fato, Cástor e Pólux não imaginavam mesmo serem capazes de perceber a pequena concentração excedente dos gases inertes.
- Que escuridão, Cástor! - e de repente veio à sua mente a antiga palavra "Nuit". Ah, agora se lembrava: era assim que os antigos denominavam aquele período de trevas!
Cástor ligou o holofote portátil, e tentaram se localizar. Nada, apenas vegetação selvagem. Vegetação? Estranho, mas as plantas (seriam mesmo plantas?) haviam se adaptado com uma rapidez incrível à falta de luz e calor do sol central para fotossintetizarem seu sustento. Do que viveriam agora naquele mundo de trevas? Bom, isto cabia agora aos biólogos pesquisarem.
- Que é aquilo?
Pontos voadores começaram a piscar em todas as direções. Vaga-lumes! Pelo menos vida animal primitiva havia sobrevivido então! Mas dificilmente eram estas as luzes que os robôs das perfuratrizes haviam mencionado. Eles tinham certa inteligência, e mencionaram claramente que as luzes vinham de pontos distantes da abóbada (por hora invisível, engolida pelas trevas), não podiam tê-las confundido com vaga-lumes. Cástor e Pólux estavam exaustos. Decidiram acampar ali mesmo, e continuarem a exploração depois de refeitos. Estranho, num mundo de dia eterno as pessoas permaneciam acordadas até a exaustão, e dormiam quando se sentiam esgotadas. Não havia hora certa para isto, e este ritmo biológico, particular de cada um, era uma das coisas mais respeitadas no mundo côncavo. Mas aquela escuridão toda, silêncio... De repente começou a fazer sentido as antigas lendas sobre a Nuit, o período de trevas que parecia sincronizar a vontade de dormir de toda a população de uma dada longitude da superfície externa das antigas esferas rochosas, rodopiando sem parar em torno de seus eixos de rotação...
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Uma luz branca de intensidade indescritível os despertou com violência. Nunca haviam presenciado uma luz branca natural, uma fonte emitindo com a mesma intensidade todas as faixas de freqüência do espectro visível! Seu sol central era alaranjado, e tão acostumados estavam com ele que o laranja sempre lhes pareceu branco. Por isso aquela luz lhes pareceu sobrenatural, revelando detalhes daquela cavidade, sempre considerada morta, em cores que eles nunca antes imaginavam que poderiam existir.
- Cástor, tira este holofote da minha cara! - queixa-se Pólux, ainda embriagado pelo sono.
Mas Cástor já está de pé, contemplando o fenômeno inexplicável.
- Acorda Pólux! Acorda, caramba! Você precisa ver isto!
Pólux abre os olhos, e se depara com a visão inexplicável de um sol central branco.
- Mas... Que significa isso tudo?
A visão era incompreensível! Olhavam para o centro da abóbada, para um estranho sol que não deveria estar a mais de uns trezentos quilômetro de distância, mas o fato era que... ele estava muito mais longe do que isto! Como era possível? Olhou em volta. A abóbada acima deles aparecia verdejante, iluminada pelo novo sol central. Um pouco acima da faixa de círculo máximo daquela cavidade estendia-se a ântica cordilheira. Uma enorme cratera a dividia em duas partes, e ao redor desta cratera uma mancha púrpura e cinza-grafite indicavam os restos despedaçados do antigo sol central, agora apagado para sempre e espalhado como um borrão escuro sobre a velha cordilheira. Definitivamente o antigo sol central não mais existia. Aquela luz branca tinha outra origem, que Cástor e Pólux não conseguiam ainda entender.
Olham com mais atenção o novo sol central. À medida que suas visões se aproximavam dele, tudo começava a escurecer. Uma aura negra rodeava o sol pálido. Como explicar aquilo tudo? Pólux se lembrou de lendas antigas. Os ancestrais que popularam aquele universo vinham de algum lugar onde as leis do universo pareciam ser completamente diferentes, não é mesmo? Mas como haviam chegado ali?
- Cástor, acho que nossos ancestrais chegaram por ali!
- Como?
- Não percebe? Este sol que vemos não está onde achamos que ele está!
- Pólux, o que está se passando nesta sua cabeça doida?
- Idéias antigas, Cástor! De dimensões adicionais reais, apesar de não observáveis...
Pólux se lembrou de antigas lendas sobre funis gravitacionais. Buracos negros, era este o nome? Ninguém sabia para onde levavam. Universos paralelos? Agora estava claro para Pólux: não levavam a universo paralelo algum! Na verdade, precisavam se curvar em alguma coisa, e o que acontecia parecia agora evidente: criavam microuniversos fechados! Uma estrela de nêutrons se colapsava pelo próprio peso, e se engolia dentro de um buraco negro. Para onde? Agora estava tudo claro: para lugar nenhum! Um microuniverso era criado dentro do universo principal, um apêndice pendurado ao espaço-tempo maior, e a massa comprimida de nêutrons encontrava novamente uma válvula de escape para se expandir de novo como matéria convencional, rochas, água, atmosfera... No processo de expansão, falhas eram possíveis, e era assim que apareciam cavidades vazias dentro do universo fechado criado dentro do buraco negro. Cavidades preenchidas por matéria mais tênue, gazes de nitrogênio, oxigênio... Mas agora estava claro: eles não estavam isolados! Sempre haveria um ponto, um contato com o universo principal. Cástor e Pólux estavam agora observando, através do buraco negro que criou seu Universo, o ponto de contato com um universo de dimensões nunca antes imaginada. Aquela estrela branca era a companheira maior daquela estrela de nêutrons que havia criado seu mundo, que era a "superfície" rochosa de um planeta hiperesférico de 100 mil quilômetros de raio. Certo dia, há incontáveis eras no passado, uma nave foi fisgada pela armadilha cósmica. Surpresos ao perceber que a gravidade incomensurável não os havia feito em pedaços, acreditavam agora estarem presos num estranho universo sem saída. Viveram da melhor forma possível, criaram uma população humana impensável neste microuniverso. Tentaram preservar sua ciência, mesmo sabendo que uma hora ou outra ela se deterioraria, degeneraria em lendas. Mas finalmente Cástor e Pólux viam uma saída daquela arapuca. Deveriam voltar e revelar a descoberta?
- Cástor, tenho medo do que possamos encontrar lá fora. Já imaginou o Vácuo? Lugar em que nada existe, nem o ár?
Cástor tremia dos pés à cabeça.
- Vamos firmar um pacto, tudo bem? Nada encontramos aqui, só um mundo despedaçado. Nenhum sobrevivente, portanto nem vale a pena voltar. Vamos recomendar até que o caminho seja fechado, para evitar que a atmosfera daqui contamine a atmosfera de nossa cavidade.
Pólux relutou muito, mas aquela idéia de vácuo, de nada... um universo preenchido com vazio... A humanidade ainda não estava preparada pala enfrentar isto.
- Você está certo, Cástor! E se isto que estamos vendo for mesmo uma passagem para um universo de vácuo, fico pensando o que impede que a atmosfera desta cavidade arruinada escape por ele. Vê o perigo? Uma hora ou outra o ar daqui vai acabar escapando por aquela passagem, a cavidade vai... – Pólux tremia ao imaginar esta possibilidade! – Ela vai despressurizar! Tem idéia do que seja isto, Cástor?
- Sim entendo! E o mesmo deve acontecer com qualquer outra cavidade conectada a esta aqui, não é mesmo? Por que estamos aqui perdendo tempo? Precisamos fechar esta passagem imediatamente!
Voltaram para o ascensor, com o pacto de silêncio selado até o fim de suas vidas. À medida em que desciam, iam fazendo o caminho acima deles desmoronar, selando de uma vez a passagem enquanto voltavam. Poderiam dizer a verdade, não é mesmo? Qualquer pessoa mais instruída concordaria com seus motivos. Ou manter a mentira combinada? Tanto faz. De um jeito ou outro, o mais importante agora era fechar esta conexão entre as duas cavidades.
20/09/2011
TANATUS
Mil e uma foram as maneiras que imaginei para começar meu relato, mas sendo a maioria delas uma forma de tentar suavizar o fato, embutir nele um eufemismo que não faz parte de minha personalidade, decidi ser honesto e autêntico, e começar a história com o fato curto e grosso que é a maneira com que estou acostumado a lidar com tudo: eu estou morto! Como sei disso? Bom, existem inúmeros indícios facilmente identificáveis de que alguém está morto. Eu não tenho pulso, por exemplo! Acho que faz uns quinze dias que meu coração não bate mais... não, acho que um pouco mais! Também não respiro, a não ser quando preciso falar com alguém. É uma necessidade, nosso aparelho fonador precisa que uma certa quantidade de ar seja inspirada para dentro dos pulmões para que possam ser vibradas as cordas vocais na expiração, modulando assim nossas vozes. Mas é esta a única situação em que conscientemente "respiro": quando quero falar! Normalmente não sinto falta do oxigênio. Comer? Bem, a um bom tempo também parei de sentir fome...
O que me faz estar aqui escrevendo para vocês então? Estou certo de que, ao contrário do Brás Cubas de Machado de Assis, eu não sou um autor-defunto nem um defunto-autor. De certa forma, ainda estou “vivo”, entre aspas... Acordo todos os dias, vou trabalhar, volto... Como? Realmente não sei, mas o faço. Ainda não contei isto para ninguém. Mas pensando bem, como eu contaria? Você acha mesmo que seria tão simples assim? Tente imaginar a cena: certo dia apareço em casa e digo “Oi mulher! Oi filho, oi filha! Tenho uma novidade para contar a vocês: papai morreu!” Por favor! Vocês não acham que eu vou levar a sério tal possibilidade, não é? Não sei como vou revelar isto, mas, definitivamente, não vai ser assim!|!
Com o tempo vai ficando cada vez mais difícil esconder o fato. Tem o cheiro, por exemplo! Eu mesmo já perdi o olfato há muito tempo, mas as pessoas comentam! Estou tentando disfarçar, usando bons perfumes... mas o cheiro de carniça já está ficando indisfarçável! Se eu pudesse fazer alguma coisa para resolver isto... Mas não posso! Que querem que eu faça? Eu morri! Nada posso fazer quanto à decomposição da minha carne!
Estou ainda tentando entender o que aconteceu comigo. O que é a morte? Morre-se de uma hora para a outra? Nunca aceitei isto totalmente. Sempre me foi estranha esta singularidade: agora você existe, e agora não, você deixou de existir. É assim mesmo? Bom, ninguém voltou ainda para contar como é. E por experiência própria, estou aqui afirmando que não é assim que acontece! O normal seria todos os seres vivos morrerem “aos poucos”. Esta fatalidade inquestionável é artificial: seu organismo é programado a tentar “acelerar” as coisas, mandar um aviso geral de “parar tudo!” Para te proteger de maiores sofrimentos? Pode ser... Talvez exista uma enzima "tanatus" enviada ao seu corpo todo, avisando a cada uma de suas células que o organismo principal morreu, e que portanto também elas devem para imediatamente! Mas isto pode falhar, e no meu caso, isto definitivamente NÃO FUNCIONOU! Meu corpo não recebeu nenhum aviso do tipo “parar tudo”, e eu continuei tentando funcionar “normalmente” mesmo depois de já ter morrido.
Do que morri? Eis aí mais uma pergunta difícil de responder! Não foi uma morte violenta, não lembro de ter sido atropelado, levado um tiro, caído e batido a cabeça na guia da calçada... Enfarte, derrame, ou doença de qualquer tipo? Difícil, sempre me cuidei tão bem! Acredito que tive a sorte de muitos e morri dormindo, mas definitivamente não consigo lembrar quando foi. O normal é que, quando você morre dormindo, não acorde mais. Mas, como expliquei antes, este mecanismo de proteção parece ter falhado no meu caso. Não sei exatamente quando aconteceu, mas nalgum dia entre três ou duas semanas atrás morri dormindo e acordei normalmente, sem me dar conta do acontecido. Quando percebi que eu não mais respirava? Realmente não sei, simplesmente chegou um dia em que me dei conta disso: "caramba, estou horas sem respirar!" E isto não me causava incômodo algum! Foi quando comecei a desconfiar do que havia acontecido.
Sim, parar de respirar foi muito mais fácil de perceber do que parar de comer. Você come quando tem fome, não é? Para que procurar comida quando não sente a menor necessidade dela? Foi por isso que não havia percebido que já estava a mais de dez dias sem comer nada, sem achar estranho o fato do meu estômago ainda não ter reclamado disto. Mas respirar... é tão natural que nem percebemos que o fazemos! Mas quando percebi que havia parado de fazer isto, fiquei realmente apavorado!
Apesar de tudo, a vida continuava correndo normalmente para mim. "Vida"? "Normalmente"? Sim, vendo do ponto de vista atual, fica estranho mesmo eu estar usando tais termos. Morto, eu continuava "vivendo"? Não sei explicar... Talvez apenas respondendo a estímulos externos como robô, acordando na hora programada, tentando interagir com as pessoas, mas... vivo? Faltava algo sim, embora eu não saiba explicar o quê. Vontade? Pode ser. Sei lá, parece que eu só estava reagindo aos estímulos externos. Acho que se eles cessassem, eu pararia de reagir, e definitivamente morreria como acontece com qualquer pessoa normal. Mas como se isolar de estimulos externos numa megametrópole? Eis meu atual dilema....
Sim, procurei um médico logo que percebi que havia parado de respirar. Ele começou medindo minha pressão... inexistente! Contou minha pulsação... inexistente! Mediu minha temperatura... temperatura ambiente! Me olhou incrédulo, e nem precisava falar nada para eu saber o que se passava em sua mente: "Cara, você está morto!" Grande novidade seria... Eu não estava querendo saber o óbvio, o que eu queria era uma explicação! Lógico que eu morri, qualquer idiota é capaz de verificar! Mas por que continuo andando, acordando todo dia e trabalhando, e mais... por que continuo procurando médicos como você para constatar um fato que eu já sei? O que me faz, morto, ficar vagando de um lado para outro ao invés de estar repousando debaixo da terra, confortávelmente vestido em meu "paletó de madeira"?
Lembro de algumas histórias fantásticas que li em vida, de alquimistas descobrindo a fórmula da imortalidade, ou de pessoas fazendo pactos demoníacos para conseguir vida eterna... enquecendo-se de também pedir juventude eterna. Nestas histórias, as pessoas continuavam vagando como cadáveres sem nunca conseguir o repouso eterno. Afinal, elas haviam pedido VIDA eterna, e não JUVENTUDE eterna: elas envelheceriam, deteriorariam, apodreceriam, mas continuariam VIVAS! Não é o meu caso! Nem acredito nessas coisas, e é certo que nunca fiz um pacto com o demônio para viver para sempre. O que aconteceu comigo foi um acidente natural, mas... como eu resolveria isto?
Penso em sumir do mapa. Acontece tantas vezes, não é? Definitivamente, não tenho a mínima idéia de como contar a meus amigos e familiares que morri, mas que apesar disto continuo "vivendo". Um desaparecimento talvez seja menos traumático do que tentar revelar esta realidade sobrenatural. Sobrenatural? Caros, acredito do fundo de minha alma que uma hora isto vai parar! Já mencionei meu desagradável odor de carniça, não é mesmo? Eu próprio não o sinto: meu olfato se foi a tempos, mas não tenho motivo algum para duvidar de meus amigos. Eu ESTOU apodrecendo, deteriorando, vejo isto em minha pele! Tal deterioração vai acabar chegando à minha massa encefálica, e acredito (na verdade, desejo isto muito!) que isto me fará parar de existir. Mas não quero testemunhas disso, pois tenho certeza que será desagradável! Eu mesmo já não me importo: percebi que entre tantas outras características dos seres vivos, já se foi tembém meu instinto de autopreservação. Já não faço mais questão de estar vivo, que por sinal já é uma situação que abandonei a algumas semanas. Mas se puder evitar que isto seja presenciado por alguém, farei de tudo para que assim seja!
Escrevo agora estas linhas finais com os movimentos que ainda restam em meus dedos. Minhas pernas pararam de se mover a algumas horas (os membros inferiores são afetados mais rapidamente pela estagnação do sangue!). Sinto finalmente a paralisia se espalhando por meus músculos mortos. Medo? Não sinto nenhum. Medo de quê? Já morri, o pior que poderia acontecer já aconteceu! Escrevo isto para os que encontrarem meu corpo deteriorado neste hotel barato daqui a... quanto tempo? Como saber? Só quero deixar isto por escrito explicando o porquê eu desapareci, e mais ainda desresponsabilizando de qualquer forma qualquer pessoa pela minha morte. Nada de mais aconteceu, eu só demorei um pouco mais que o normal para perceber que estava morto! Felizmente sinto que, apesar de toda a proteção da caixa craniana, meu sistema nervoso finalmente está deteriorando. Que alívio! Normalmente o corpo produziria as enzimas "tanatus" para acelerar tal processo e torná-lo menos doloroso. Mas antes tarde do que nunca! Sinto que finalmente está chegando minha hora de me entregar ao sono eterno, recompensa de todo ser vivente do planeta depois de cumprir seu papel no mundo dos vivos.
Por hora, simplesmente adeus!
*** FIM ***
O que me faz estar aqui escrevendo para vocês então? Estou certo de que, ao contrário do Brás Cubas de Machado de Assis, eu não sou um autor-defunto nem um defunto-autor. De certa forma, ainda estou “vivo”, entre aspas... Acordo todos os dias, vou trabalhar, volto... Como? Realmente não sei, mas o faço. Ainda não contei isto para ninguém. Mas pensando bem, como eu contaria? Você acha mesmo que seria tão simples assim? Tente imaginar a cena: certo dia apareço em casa e digo “Oi mulher! Oi filho, oi filha! Tenho uma novidade para contar a vocês: papai morreu!” Por favor! Vocês não acham que eu vou levar a sério tal possibilidade, não é? Não sei como vou revelar isto, mas, definitivamente, não vai ser assim!|!
Com o tempo vai ficando cada vez mais difícil esconder o fato. Tem o cheiro, por exemplo! Eu mesmo já perdi o olfato há muito tempo, mas as pessoas comentam! Estou tentando disfarçar, usando bons perfumes... mas o cheiro de carniça já está ficando indisfarçável! Se eu pudesse fazer alguma coisa para resolver isto... Mas não posso! Que querem que eu faça? Eu morri! Nada posso fazer quanto à decomposição da minha carne!
Estou ainda tentando entender o que aconteceu comigo. O que é a morte? Morre-se de uma hora para a outra? Nunca aceitei isto totalmente. Sempre me foi estranha esta singularidade: agora você existe, e agora não, você deixou de existir. É assim mesmo? Bom, ninguém voltou ainda para contar como é. E por experiência própria, estou aqui afirmando que não é assim que acontece! O normal seria todos os seres vivos morrerem “aos poucos”. Esta fatalidade inquestionável é artificial: seu organismo é programado a tentar “acelerar” as coisas, mandar um aviso geral de “parar tudo!” Para te proteger de maiores sofrimentos? Pode ser... Talvez exista uma enzima "tanatus" enviada ao seu corpo todo, avisando a cada uma de suas células que o organismo principal morreu, e que portanto também elas devem para imediatamente! Mas isto pode falhar, e no meu caso, isto definitivamente NÃO FUNCIONOU! Meu corpo não recebeu nenhum aviso do tipo “parar tudo”, e eu continuei tentando funcionar “normalmente” mesmo depois de já ter morrido.
Do que morri? Eis aí mais uma pergunta difícil de responder! Não foi uma morte violenta, não lembro de ter sido atropelado, levado um tiro, caído e batido a cabeça na guia da calçada... Enfarte, derrame, ou doença de qualquer tipo? Difícil, sempre me cuidei tão bem! Acredito que tive a sorte de muitos e morri dormindo, mas definitivamente não consigo lembrar quando foi. O normal é que, quando você morre dormindo, não acorde mais. Mas, como expliquei antes, este mecanismo de proteção parece ter falhado no meu caso. Não sei exatamente quando aconteceu, mas nalgum dia entre três ou duas semanas atrás morri dormindo e acordei normalmente, sem me dar conta do acontecido. Quando percebi que eu não mais respirava? Realmente não sei, simplesmente chegou um dia em que me dei conta disso: "caramba, estou horas sem respirar!" E isto não me causava incômodo algum! Foi quando comecei a desconfiar do que havia acontecido.
Sim, parar de respirar foi muito mais fácil de perceber do que parar de comer. Você come quando tem fome, não é? Para que procurar comida quando não sente a menor necessidade dela? Foi por isso que não havia percebido que já estava a mais de dez dias sem comer nada, sem achar estranho o fato do meu estômago ainda não ter reclamado disto. Mas respirar... é tão natural que nem percebemos que o fazemos! Mas quando percebi que havia parado de fazer isto, fiquei realmente apavorado!
Apesar de tudo, a vida continuava correndo normalmente para mim. "Vida"? "Normalmente"? Sim, vendo do ponto de vista atual, fica estranho mesmo eu estar usando tais termos. Morto, eu continuava "vivendo"? Não sei explicar... Talvez apenas respondendo a estímulos externos como robô, acordando na hora programada, tentando interagir com as pessoas, mas... vivo? Faltava algo sim, embora eu não saiba explicar o quê. Vontade? Pode ser. Sei lá, parece que eu só estava reagindo aos estímulos externos. Acho que se eles cessassem, eu pararia de reagir, e definitivamente morreria como acontece com qualquer pessoa normal. Mas como se isolar de estimulos externos numa megametrópole? Eis meu atual dilema....
Sim, procurei um médico logo que percebi que havia parado de respirar. Ele começou medindo minha pressão... inexistente! Contou minha pulsação... inexistente! Mediu minha temperatura... temperatura ambiente! Me olhou incrédulo, e nem precisava falar nada para eu saber o que se passava em sua mente: "Cara, você está morto!" Grande novidade seria... Eu não estava querendo saber o óbvio, o que eu queria era uma explicação! Lógico que eu morri, qualquer idiota é capaz de verificar! Mas por que continuo andando, acordando todo dia e trabalhando, e mais... por que continuo procurando médicos como você para constatar um fato que eu já sei? O que me faz, morto, ficar vagando de um lado para outro ao invés de estar repousando debaixo da terra, confortávelmente vestido em meu "paletó de madeira"?
Lembro de algumas histórias fantásticas que li em vida, de alquimistas descobrindo a fórmula da imortalidade, ou de pessoas fazendo pactos demoníacos para conseguir vida eterna... enquecendo-se de também pedir juventude eterna. Nestas histórias, as pessoas continuavam vagando como cadáveres sem nunca conseguir o repouso eterno. Afinal, elas haviam pedido VIDA eterna, e não JUVENTUDE eterna: elas envelheceriam, deteriorariam, apodreceriam, mas continuariam VIVAS! Não é o meu caso! Nem acredito nessas coisas, e é certo que nunca fiz um pacto com o demônio para viver para sempre. O que aconteceu comigo foi um acidente natural, mas... como eu resolveria isto?
Penso em sumir do mapa. Acontece tantas vezes, não é? Definitivamente, não tenho a mínima idéia de como contar a meus amigos e familiares que morri, mas que apesar disto continuo "vivendo". Um desaparecimento talvez seja menos traumático do que tentar revelar esta realidade sobrenatural. Sobrenatural? Caros, acredito do fundo de minha alma que uma hora isto vai parar! Já mencionei meu desagradável odor de carniça, não é mesmo? Eu próprio não o sinto: meu olfato se foi a tempos, mas não tenho motivo algum para duvidar de meus amigos. Eu ESTOU apodrecendo, deteriorando, vejo isto em minha pele! Tal deterioração vai acabar chegando à minha massa encefálica, e acredito (na verdade, desejo isto muito!) que isto me fará parar de existir. Mas não quero testemunhas disso, pois tenho certeza que será desagradável! Eu mesmo já não me importo: percebi que entre tantas outras características dos seres vivos, já se foi tembém meu instinto de autopreservação. Já não faço mais questão de estar vivo, que por sinal já é uma situação que abandonei a algumas semanas. Mas se puder evitar que isto seja presenciado por alguém, farei de tudo para que assim seja!
Escrevo agora estas linhas finais com os movimentos que ainda restam em meus dedos. Minhas pernas pararam de se mover a algumas horas (os membros inferiores são afetados mais rapidamente pela estagnação do sangue!). Sinto finalmente a paralisia se espalhando por meus músculos mortos. Medo? Não sinto nenhum. Medo de quê? Já morri, o pior que poderia acontecer já aconteceu! Escrevo isto para os que encontrarem meu corpo deteriorado neste hotel barato daqui a... quanto tempo? Como saber? Só quero deixar isto por escrito explicando o porquê eu desapareci, e mais ainda desresponsabilizando de qualquer forma qualquer pessoa pela minha morte. Nada de mais aconteceu, eu só demorei um pouco mais que o normal para perceber que estava morto! Felizmente sinto que, apesar de toda a proteção da caixa craniana, meu sistema nervoso finalmente está deteriorando. Que alívio! Normalmente o corpo produziria as enzimas "tanatus" para acelerar tal processo e torná-lo menos doloroso. Mas antes tarde do que nunca! Sinto que finalmente está chegando minha hora de me entregar ao sono eterno, recompensa de todo ser vivente do planeta depois de cumprir seu papel no mundo dos vivos.
Por hora, simplesmente adeus!
*** FIM ***
16/09/2011
Transmigração
Qvain se recorda com certa clareza de seus últimos 17 séculos de vida. Talvez tenha vivido mais, porém suas memórias não alcançavam tão longe. Estava quase a encerrar mais um ciclo de 60 anos, e contemplava agora o organismo clonado à sua frente, repousando no tanque de maturação. A cópia fora feita dois anos antes, porém o tanque já havia amadurecido o organismo o equivalente a vinte anos. Agora só faltava completar a transferência...
Qvain já havia perdido a conta de quantas transferências já realizara na vida, mas a mais recente ainda estava bem nítida em sua memória. Como agora, antes ele também havia insistido em ver o organismo receptor. Sua imagem no espelho. Um sistema nervoso com todas as conexões ainda a serem completadas, pronto para receber uma cópia exata do seu doador: lembranças, habilidades, personalidade... Mas ele nunca conseguiu se lembrar com detalhes da passagem. Lá estava ele, encarando seu reflexo na água. Tudo se torna confuso à medida em que Qvain mergulha em direção à imagem refletida. Tem uma sensação muito forte dos pensamentos sendo drenados enquanto a cópia é feita, e em seguida sente ... o nada! De súbito está do outro lado da superfície da água a se afogar, até erguer-se num rápido movimento para fora da água salgada do tanque de maturação.
Isto é tudo o que ele se lembra do processo de transferência mais recente, e tem a impressão de que os anteriores não foram muito diferentes. Seu atual organismo já está muito envelhecido, e o processo precisa ser repetido. Sua imortalidade deveria ser assegurada, pois Qvain era uma célula muito importante num organismo muito maior: a sociedade dos ashcronianos.
A cópia de ligações sinápticas para o organismo doador não era muito agradável, embora também não chegasse a ser insuportável. Grande parte do desconforto era devido ao dispositivo de exploração que envolvia todo o crânio do organismo doador. Tal dispositivo estimulava magneticamente áreas bem definidas do cérebro, e captava de forma semelhante as suas reações. Para que isto fosse possível, Qvain precisou ingerir antes soluções de metais pesados. Dissolvidos na corrente sangüínea, estes metais eram responsáveis por receber e transmitir estímulos eletromagnéticos para o dispositivo.
Copiar os estímulos de resposta não era tarefa simples, e necessitava de um considerável processamento antes de ser passado ao doador. Isto porque à primeira vista as respostas aos estímulos não passavam de ondas periódicas praticamente idênticas geradas por várias regiões do lobo estimulado. A informação se apresentava como variações muito sutis destes padrões, e apenas um processamento posterior de combinação das ondas poderia extrair uma variação mínima capaz de ser replicada no outro sistema nervoso. Acontecia assim pelo fato do cérebro armazenar informações como se fosse um gigantesco holograma: qualquer parte de um lobo cerebral é quase uma cópia do lobo inteiro, sendo que as informações apenas se tornavam mais "refinadas" à medida que se consideram partes maiores.
Os metais pesados ingeridos certamente deixariam seqüelas a longo prazo no organismo antigo de Qvain. Entretanto isto não tinha importância, pois ele seria destruído logo após a conclusão do processo de cópia. Os Preparadores também ofereceram a Qvain substâncias para facilitar a passagem dos impulsos nervosos entre os neurônios. Até alguns séculos atrás tais substâncias poderiam falhar em uma porcentagem mínima de doadores, facilitando de forma exagerada a transmissão dos impulsos e comprometendo toda a cópia das ligações nervosas. Isto ocorria porque naquela época os indivíduos não eram totalmente idênticos: o método de clonagem ainda gerava variações genéticas mínimas, mas imprevisíveis. Atualmente, com todos os organismos praticamente iguais, as reações destes em relação às várias substâncias eram totalmente previsíveis, e a possibilidade de falhas podia ser considerada nula (ao menos não ocorrera nenhum caso nos últimos quatro séculos). Foi confiando numa operação bem sucedida que Qvain se deitou e deixou que o dispositivo explorador se fechasse envolvendo seu crânio.
Alguns minutos se passaram para que os metais fossem totalmente absorvidos pelos bilhões de neurônios. Qvain aos poucos percebe luzes coloridas, embora esperasse total escuridão. Mas não está certo se são reais, ou conseqüência da dissolução dos metais, ou da substância facilitadora...
Um forte estímulo sem causa externa aparente faz Qvain concluir que o dispositivo de exploração começou a entrar em funcionamento. Iniciando a exploração pela parte anterior do cérebro, Qvain é invadido por uma confusão de conceitos, símbolos, sons e palavras. Sente uma vontade incontrolável de falar, conseqüência da combinação dos estímulos eletromagnéticos e da substância facilitadora. Sem saber se existem ouvintes (talvez os Preparadores estivessem supervisionando), passa a discursar sobre as formas de vida daquela região da galáxia, sua preocupação com o processo de transferência, os boatos infundados de degeneração nos processos de clonagem... Inicialmente, embora mudando de assunto de forma caótica, o discurso de Qvain ainda faria sentido caso fosse acompanhado por um possível ouvinte. Mas à medida que áreas mais centrais do cérebro são estimuladas, o discurso se torna simples sucessão aleatória de palavras, sem a mínima preocupação com a sintaxe. Qvain não está mais preocupado em formar sentenças com sentido, está simplesmente estudando os sons das palavras. Nunca antes havia percebido como são belos os fonemas! E também considera incrível a associação quase instantânea dos sons que ele emite com os símbolos e imagens que estes representam, e a forma como tais símbolos acabam gerando novas palavras... Sem dúvida a máquina estava testando tudo aquilo que ele havia aprendido.
A vontade de discursar acaba da mesma forma que havia começado. Está exausto e com sede. Ao sentir que está sendo aplicado o soro em seu braço, tem a certeza que os Preparadores realmente estavam lá fora supervisionando tudo. A reidratação tem um efeito particularmente agradável, e ele se sente pronto para que seja iniciada a exploração de outras regiões do cérebro.
As memórias de Qvain são as próximas informações a serem replicadas ao doador. Esta foi a parte mais confusa da transferência. Possivelmente ele não se lembra com clareza desta fase porque era exatamente a parte responsável pelas lembranças que estava sendo estimulada artificialmente. Foi sem dúvida a fase mais desagradável, pois a sensação posterior era de que havia uma falha no tempo, um período de alguns minutos que foi vivido mas totalmente perdido...
Alguns minutos antes da estimulação artificial do córtex motor, um inibidor muscular foi adicionado ao soro. Apesar do efeito um pouco desconfortável (pois era fracamente antagônico à substância facilitadora ativa no cérebro) era muito importante que os músculos do corpo fossem "desativados" nesta fase: Qvain poderia se machucar seriamente ao se mover em desordem, como conseqüência dos estímulos!
Apesar de totalmente imóvel, a sensação de estar correndo era muito clara. Mesmo com os músculos inertes, a substância inibidora não bloqueava a realimentação dos impulsos musculares, e Qvain sentia que seus membros respondiam como de costume aos seus comandos. Logicamente era uma sensação um pouco diferente da natural, pois não haviam as resistências normalmente sentidas por uma pessoa correndo: o atrito com as correntes de ar, o impacto com o solo, a sensação de peso... Também o equilíbrio não estava funcionando normalmente, e em determinado momento ele se sentiu em queda, deslizando numa superfície inclinada de gelo liso. A sensação de espaço estava seriamente afetada: ora Qvain se sentia enorme, ocupando a sala inteira, e no momento seguinte ele era um minúsculo ponto caindo num vácuo escuro. Mas nada disso era de todo desagradável. Ao contrário, tais deformações dos sentidos às vezes se tornavam bastante interessantes.
Com o inibidor ainda fazendo efeito, o aparelho passou a explorar as habilidades motoras mais primitivas armazenadas no cerebelo. Esta era uma das fases de cópia mais grosseira, pois de certa forma as ligações nervosas do cerebelo eram quase que inteiramente transmitidas geneticamente, portanto a maior parte destas ligações já estavam presentes no clone receptor. Mas ainda restavam poucas habilidades aprendidas que precisavam ser copiadas. Qvain não teve sensação de movimento nesta parte. Sentiu uma vaga catalepsia, a impressão de que o corpo não respondia às suas vontades. Isto era de se esperar, já que uma parte das respostas aos impulsos musculares eram tratadas pelo cerebelo. Na verdade todos os impulsos nervosos de alto nível gerados pelo córtex motor do cérebro passavam pelo cerebelo antes de serem transmitidos pela medula espinhal.
Muito mais se passou, e ainda muito mais Qvain não era capaz de recordar, tamanha a sua confusão nos momentums!
... ... ...
O final da transferência encontrou um Qvain desorientado. Era incapaz de se lembrar de todos os detalhes do processo, muito menos quanto tempo haviam durado. Um gosto metálico pulsava na base de seu crânio quando o mecanismo de exploração se abriu. Qvain nunca havia demorado tanto para completar um ato tão simples como se levantar. O estranho efeito se tornou mais forte quando ele se apoiou para fazê-lo: o tempo não parecia mais contínuo como sempre fora, mas estava quantizado. Nem mesmo a seqüência normal era mantida, pois enquanto Qvain prosseguia no aparentemente lento ato de ficar em pé, quadros anteriores e posteriores surgiam na sua mente simultaneamente. Embora apenas sentado e apoiado numa das mãos, tornava a se sentir deitado e, logo em seguida, já totalmente sobre seus pés. Ora o ritmo desta seqüência de pensamentos coincidia com as batidas metálicas em sua mente, ora defasavam. Mas o efeito geral era agradável.
Qvain se sentia muito feliz por conseguir levantar. Se sentia feliz com os "flashes" de imagens que invadiam sua mente, a cada milionésimo de intervalo de tempo. Os dois Preparadores que acompanharam o processo se dirigiam à porta que se abria para o dispositivo de dissociação molecular, pois era o momento de se desfazer do organismo antigo para assumir o novo.
Qvain se sentia feliz por estar caminhando até eles. Se sentia feliz porque o impacto de cada passo dado ressoava por todo o seu corpo e convergia para a base do crânio, aumentando aquele estranho gosto de metal sendo sacudido. Se sentia feliz por estar desorientado, e se sentia feliz porque os rostos dos Preparadores eram ora grotescos, para em seguida se tornarem angelicais.
Qvain se sentia muito feliz por ser um ashcroni. Se sentia muito feliz porque agora abandonaria um organismo já gasto. Se sentia muito feliz porque os ashcroni eram a única espécie hominídia conhecida que conseguira plenamente se tornar imortal. Se sentia muito feliz por habitar aquele planeta perfeito. Se sentia muito feliz por estar quase a 9/10 da extremidade do terceiro braço espiral daquela galáxia.
Ele se sentia muito feliz! Apenas isto! Não importa o motivo, não era importante naquele momento!
Estava feliz... alguém pode censurá-lo por isso?
Abre-se a porta de entrada para o minúsculo cubículo. Qvain entra sabendo que em breve ela se fechará, e o calor cuidará de devolver a matéria de seu velho organismo ao cosmo do qual ele foi produzido. Seus átomos serão dispersos para formar outros organismos e, talvez num futuro distante, estrelas. Mas isto não o assusta, pois agora tem certeza absoluta de que aquele velho corpo não é Qvain... Ainda se sente fracamente ligado a ele, mas isto (como explicaram os Preparadores) acabará quando seu antigo sistema nervoso for dissociado pelos raios térmicos. Muito menos teme a dor, já que não haverá tempo suficiente para a propagação dos impulsos nervosos. Os batimentos aceleram quando a porta do cubículo é cerrada, mas trata-se apenas da adrenalina liberada naquele organismo, que ele já sabe não fazer mais parte dele próprio.
Mas o fato é que ele sentiu sim um calor e uma dor indescritíveis quando os raios térmicos foram enfim ativados! Não soube precisar exatamente a duração. Sabe que foram frações ínfimas de segundos, mas também sabe que apesar disso pareceram intermináveis. Enfim, os pulsos nervosos realmente eram mais rápidos que a dissociação das células pelos raios térmicos... mas era muito tarde para constatá-lo. Os feixes se refletiam nas paredes prateadas do cubículo e o calor crescia cada vez mais. A fração de tempo em que sentiu dor pareceu eterna, pois agora sabia muito bem que seu tempo fluía de modo diferente. O calor e dor insuportáveis pareciam que nunca acabariam...
Por fim Qvain se sentiu desligado. Cessou a dor, com certeza as antigas células já estavam pulverizadas o suficiente para não permitirem mais a propagação do estímulo doloroso. Como ele não pôde se lembrar de tal fase traumática nas transferências anteriores? Provavelmente o trauma apagaria tais lembranças do organismo novo. Se lembraria disso ao voltar? Ou a lembrança seria novamente apagada?
Mas agora ele estava aliviado, flutuava numa paz profunda. Novamente, pode ter durado frações de segundos... mas para Qvain a sensação de tranqüilidade já durava uma eternidade.
Qvain só pensava agora em retornar ao organismo clonado. Como? Não fazia idéia. Nunca os Preparadores haviam entrado em tais detalhes, provavelmente porque não sabiam. Mas o fato é que todos retornavam. Ele próprio se lembra de ter feito isto inúmeras vezes. Não recordava com exatidão dos detalhes, das sensações de agora... mas sempre voltou. Talvez a cópia orgânica o atraísse como um ímã, devido à semelhança.
Qvain sente agora um pânico terrível! Tem a nítida noção de estar desintegrando. Primeiro fisicamente: de forma estranha, parece sentir cada um de seus trilhões de grãos pulverizados caírem suavemente, se acumulando num monte de poeira no fundo do cubículo. Depois vem a sensação ainda mais difícil de se conceber, que é a desintegração do pensamento e da própria consciência. Que teria acontecido?! É tomado pelo medo. Pela primeira vez lhe vem à mente que algo pode ter dado errado. Toda aquela lucidez de antes de entrar no cubículo, a sensação de ser algo separado de seu corpo... tudo lhe parece agora um terrível engano! Ele quer voltar, mais do que nunca ele deseja voltar. Mas como? Qvain não sabe mais para onde voltar. Nem sabe mais para quando voltar! Tempo e espaço não fazem mais sentido, dissolveram-se com a própria idéia de consciência. Não sabe mais se os fatos de que se lembra estão acontecendo, já aconteceram ou ainda estão para acontecer... Apenas num infinitésimo instante em meio ao caos ele consegue seqüenciar parcialmente suas lembranças e seu raciocínio. É quando acaba concluindo que, definitivamente, algo muito errado aconteceu desta vez! Lembrou-se claramente que nunca tivera as atuais sensações nas outras transferências. Na verdade, nem se lembrava de alguma "outra transferência". Se as sentiu agora, estava claro em sua mente que o motivo era ... ... ... não consegue completar o raciocínio... a sua consciência antes focalizada num minúsculo instante retorna ao estado caótico... ...
Nada disto tem mais importância para Qvain-Cosmo... ... a noção de que existe e de que é um indivíduo separado de todo o resto do universo se focaliza e se dissocia ritmicamente, inúmeras vezes em cada fração do tempo... (E o que significa "fração do tempo"? para cada pessoa significa uma coisa!!)... ...Qvain-Cosmo só deseja agora se dissolver completamente no caos, ter a última fração de sua consciência completamente absorvida pelo espaço-tempo... ... ... ... não há mais pensamentos, só silêncio, paz e escuridão... Ele sentiu o universo se expandindo... ... e Ele... ELE!!! ... Ele se expandia junto... ... e achou isto muito bom... ... ... Sim, isto era MUITO BOM!!!...
Ao se levantar bruscamente de seu tanque de maturação, a única coisa de que Qvain se recordava era de seus pensamentos sendo drenados, enquanto mergulhava em direção ao seu reflexo e se sentia afogar com aquela água salgada...
Qvain já havia perdido a conta de quantas transferências já realizara na vida, mas a mais recente ainda estava bem nítida em sua memória. Como agora, antes ele também havia insistido em ver o organismo receptor. Sua imagem no espelho. Um sistema nervoso com todas as conexões ainda a serem completadas, pronto para receber uma cópia exata do seu doador: lembranças, habilidades, personalidade... Mas ele nunca conseguiu se lembrar com detalhes da passagem. Lá estava ele, encarando seu reflexo na água. Tudo se torna confuso à medida em que Qvain mergulha em direção à imagem refletida. Tem uma sensação muito forte dos pensamentos sendo drenados enquanto a cópia é feita, e em seguida sente ... o nada! De súbito está do outro lado da superfície da água a se afogar, até erguer-se num rápido movimento para fora da água salgada do tanque de maturação.
Isto é tudo o que ele se lembra do processo de transferência mais recente, e tem a impressão de que os anteriores não foram muito diferentes. Seu atual organismo já está muito envelhecido, e o processo precisa ser repetido. Sua imortalidade deveria ser assegurada, pois Qvain era uma célula muito importante num organismo muito maior: a sociedade dos ashcronianos.
A cópia de ligações sinápticas para o organismo doador não era muito agradável, embora também não chegasse a ser insuportável. Grande parte do desconforto era devido ao dispositivo de exploração que envolvia todo o crânio do organismo doador. Tal dispositivo estimulava magneticamente áreas bem definidas do cérebro, e captava de forma semelhante as suas reações. Para que isto fosse possível, Qvain precisou ingerir antes soluções de metais pesados. Dissolvidos na corrente sangüínea, estes metais eram responsáveis por receber e transmitir estímulos eletromagnéticos para o dispositivo.
Copiar os estímulos de resposta não era tarefa simples, e necessitava de um considerável processamento antes de ser passado ao doador. Isto porque à primeira vista as respostas aos estímulos não passavam de ondas periódicas praticamente idênticas geradas por várias regiões do lobo estimulado. A informação se apresentava como variações muito sutis destes padrões, e apenas um processamento posterior de combinação das ondas poderia extrair uma variação mínima capaz de ser replicada no outro sistema nervoso. Acontecia assim pelo fato do cérebro armazenar informações como se fosse um gigantesco holograma: qualquer parte de um lobo cerebral é quase uma cópia do lobo inteiro, sendo que as informações apenas se tornavam mais "refinadas" à medida que se consideram partes maiores.
Os metais pesados ingeridos certamente deixariam seqüelas a longo prazo no organismo antigo de Qvain. Entretanto isto não tinha importância, pois ele seria destruído logo após a conclusão do processo de cópia. Os Preparadores também ofereceram a Qvain substâncias para facilitar a passagem dos impulsos nervosos entre os neurônios. Até alguns séculos atrás tais substâncias poderiam falhar em uma porcentagem mínima de doadores, facilitando de forma exagerada a transmissão dos impulsos e comprometendo toda a cópia das ligações nervosas. Isto ocorria porque naquela época os indivíduos não eram totalmente idênticos: o método de clonagem ainda gerava variações genéticas mínimas, mas imprevisíveis. Atualmente, com todos os organismos praticamente iguais, as reações destes em relação às várias substâncias eram totalmente previsíveis, e a possibilidade de falhas podia ser considerada nula (ao menos não ocorrera nenhum caso nos últimos quatro séculos). Foi confiando numa operação bem sucedida que Qvain se deitou e deixou que o dispositivo explorador se fechasse envolvendo seu crânio.
Alguns minutos se passaram para que os metais fossem totalmente absorvidos pelos bilhões de neurônios. Qvain aos poucos percebe luzes coloridas, embora esperasse total escuridão. Mas não está certo se são reais, ou conseqüência da dissolução dos metais, ou da substância facilitadora...
Um forte estímulo sem causa externa aparente faz Qvain concluir que o dispositivo de exploração começou a entrar em funcionamento. Iniciando a exploração pela parte anterior do cérebro, Qvain é invadido por uma confusão de conceitos, símbolos, sons e palavras. Sente uma vontade incontrolável de falar, conseqüência da combinação dos estímulos eletromagnéticos e da substância facilitadora. Sem saber se existem ouvintes (talvez os Preparadores estivessem supervisionando), passa a discursar sobre as formas de vida daquela região da galáxia, sua preocupação com o processo de transferência, os boatos infundados de degeneração nos processos de clonagem... Inicialmente, embora mudando de assunto de forma caótica, o discurso de Qvain ainda faria sentido caso fosse acompanhado por um possível ouvinte. Mas à medida que áreas mais centrais do cérebro são estimuladas, o discurso se torna simples sucessão aleatória de palavras, sem a mínima preocupação com a sintaxe. Qvain não está mais preocupado em formar sentenças com sentido, está simplesmente estudando os sons das palavras. Nunca antes havia percebido como são belos os fonemas! E também considera incrível a associação quase instantânea dos sons que ele emite com os símbolos e imagens que estes representam, e a forma como tais símbolos acabam gerando novas palavras... Sem dúvida a máquina estava testando tudo aquilo que ele havia aprendido.
A vontade de discursar acaba da mesma forma que havia começado. Está exausto e com sede. Ao sentir que está sendo aplicado o soro em seu braço, tem a certeza que os Preparadores realmente estavam lá fora supervisionando tudo. A reidratação tem um efeito particularmente agradável, e ele se sente pronto para que seja iniciada a exploração de outras regiões do cérebro.
As memórias de Qvain são as próximas informações a serem replicadas ao doador. Esta foi a parte mais confusa da transferência. Possivelmente ele não se lembra com clareza desta fase porque era exatamente a parte responsável pelas lembranças que estava sendo estimulada artificialmente. Foi sem dúvida a fase mais desagradável, pois a sensação posterior era de que havia uma falha no tempo, um período de alguns minutos que foi vivido mas totalmente perdido...
Alguns minutos antes da estimulação artificial do córtex motor, um inibidor muscular foi adicionado ao soro. Apesar do efeito um pouco desconfortável (pois era fracamente antagônico à substância facilitadora ativa no cérebro) era muito importante que os músculos do corpo fossem "desativados" nesta fase: Qvain poderia se machucar seriamente ao se mover em desordem, como conseqüência dos estímulos!
Apesar de totalmente imóvel, a sensação de estar correndo era muito clara. Mesmo com os músculos inertes, a substância inibidora não bloqueava a realimentação dos impulsos musculares, e Qvain sentia que seus membros respondiam como de costume aos seus comandos. Logicamente era uma sensação um pouco diferente da natural, pois não haviam as resistências normalmente sentidas por uma pessoa correndo: o atrito com as correntes de ar, o impacto com o solo, a sensação de peso... Também o equilíbrio não estava funcionando normalmente, e em determinado momento ele se sentiu em queda, deslizando numa superfície inclinada de gelo liso. A sensação de espaço estava seriamente afetada: ora Qvain se sentia enorme, ocupando a sala inteira, e no momento seguinte ele era um minúsculo ponto caindo num vácuo escuro. Mas nada disso era de todo desagradável. Ao contrário, tais deformações dos sentidos às vezes se tornavam bastante interessantes.
Com o inibidor ainda fazendo efeito, o aparelho passou a explorar as habilidades motoras mais primitivas armazenadas no cerebelo. Esta era uma das fases de cópia mais grosseira, pois de certa forma as ligações nervosas do cerebelo eram quase que inteiramente transmitidas geneticamente, portanto a maior parte destas ligações já estavam presentes no clone receptor. Mas ainda restavam poucas habilidades aprendidas que precisavam ser copiadas. Qvain não teve sensação de movimento nesta parte. Sentiu uma vaga catalepsia, a impressão de que o corpo não respondia às suas vontades. Isto era de se esperar, já que uma parte das respostas aos impulsos musculares eram tratadas pelo cerebelo. Na verdade todos os impulsos nervosos de alto nível gerados pelo córtex motor do cérebro passavam pelo cerebelo antes de serem transmitidos pela medula espinhal.
Muito mais se passou, e ainda muito mais Qvain não era capaz de recordar, tamanha a sua confusão nos momentums!
... ... ...
O final da transferência encontrou um Qvain desorientado. Era incapaz de se lembrar de todos os detalhes do processo, muito menos quanto tempo haviam durado. Um gosto metálico pulsava na base de seu crânio quando o mecanismo de exploração se abriu. Qvain nunca havia demorado tanto para completar um ato tão simples como se levantar. O estranho efeito se tornou mais forte quando ele se apoiou para fazê-lo: o tempo não parecia mais contínuo como sempre fora, mas estava quantizado. Nem mesmo a seqüência normal era mantida, pois enquanto Qvain prosseguia no aparentemente lento ato de ficar em pé, quadros anteriores e posteriores surgiam na sua mente simultaneamente. Embora apenas sentado e apoiado numa das mãos, tornava a se sentir deitado e, logo em seguida, já totalmente sobre seus pés. Ora o ritmo desta seqüência de pensamentos coincidia com as batidas metálicas em sua mente, ora defasavam. Mas o efeito geral era agradável.
Qvain se sentia muito feliz por conseguir levantar. Se sentia feliz com os "flashes" de imagens que invadiam sua mente, a cada milionésimo de intervalo de tempo. Os dois Preparadores que acompanharam o processo se dirigiam à porta que se abria para o dispositivo de dissociação molecular, pois era o momento de se desfazer do organismo antigo para assumir o novo.
Qvain se sentia feliz por estar caminhando até eles. Se sentia feliz porque o impacto de cada passo dado ressoava por todo o seu corpo e convergia para a base do crânio, aumentando aquele estranho gosto de metal sendo sacudido. Se sentia feliz por estar desorientado, e se sentia feliz porque os rostos dos Preparadores eram ora grotescos, para em seguida se tornarem angelicais.
Qvain se sentia muito feliz por ser um ashcroni. Se sentia muito feliz porque agora abandonaria um organismo já gasto. Se sentia muito feliz porque os ashcroni eram a única espécie hominídia conhecida que conseguira plenamente se tornar imortal. Se sentia muito feliz por habitar aquele planeta perfeito. Se sentia muito feliz por estar quase a 9/10 da extremidade do terceiro braço espiral daquela galáxia.
Ele se sentia muito feliz! Apenas isto! Não importa o motivo, não era importante naquele momento!
Estava feliz... alguém pode censurá-lo por isso?
Abre-se a porta de entrada para o minúsculo cubículo. Qvain entra sabendo que em breve ela se fechará, e o calor cuidará de devolver a matéria de seu velho organismo ao cosmo do qual ele foi produzido. Seus átomos serão dispersos para formar outros organismos e, talvez num futuro distante, estrelas. Mas isto não o assusta, pois agora tem certeza absoluta de que aquele velho corpo não é Qvain... Ainda se sente fracamente ligado a ele, mas isto (como explicaram os Preparadores) acabará quando seu antigo sistema nervoso for dissociado pelos raios térmicos. Muito menos teme a dor, já que não haverá tempo suficiente para a propagação dos impulsos nervosos. Os batimentos aceleram quando a porta do cubículo é cerrada, mas trata-se apenas da adrenalina liberada naquele organismo, que ele já sabe não fazer mais parte dele próprio.
Mas o fato é que ele sentiu sim um calor e uma dor indescritíveis quando os raios térmicos foram enfim ativados! Não soube precisar exatamente a duração. Sabe que foram frações ínfimas de segundos, mas também sabe que apesar disso pareceram intermináveis. Enfim, os pulsos nervosos realmente eram mais rápidos que a dissociação das células pelos raios térmicos... mas era muito tarde para constatá-lo. Os feixes se refletiam nas paredes prateadas do cubículo e o calor crescia cada vez mais. A fração de tempo em que sentiu dor pareceu eterna, pois agora sabia muito bem que seu tempo fluía de modo diferente. O calor e dor insuportáveis pareciam que nunca acabariam...
Por fim Qvain se sentiu desligado. Cessou a dor, com certeza as antigas células já estavam pulverizadas o suficiente para não permitirem mais a propagação do estímulo doloroso. Como ele não pôde se lembrar de tal fase traumática nas transferências anteriores? Provavelmente o trauma apagaria tais lembranças do organismo novo. Se lembraria disso ao voltar? Ou a lembrança seria novamente apagada?
Mas agora ele estava aliviado, flutuava numa paz profunda. Novamente, pode ter durado frações de segundos... mas para Qvain a sensação de tranqüilidade já durava uma eternidade.
Qvain só pensava agora em retornar ao organismo clonado. Como? Não fazia idéia. Nunca os Preparadores haviam entrado em tais detalhes, provavelmente porque não sabiam. Mas o fato é que todos retornavam. Ele próprio se lembra de ter feito isto inúmeras vezes. Não recordava com exatidão dos detalhes, das sensações de agora... mas sempre voltou. Talvez a cópia orgânica o atraísse como um ímã, devido à semelhança.
Qvain sente agora um pânico terrível! Tem a nítida noção de estar desintegrando. Primeiro fisicamente: de forma estranha, parece sentir cada um de seus trilhões de grãos pulverizados caírem suavemente, se acumulando num monte de poeira no fundo do cubículo. Depois vem a sensação ainda mais difícil de se conceber, que é a desintegração do pensamento e da própria consciência. Que teria acontecido?! É tomado pelo medo. Pela primeira vez lhe vem à mente que algo pode ter dado errado. Toda aquela lucidez de antes de entrar no cubículo, a sensação de ser algo separado de seu corpo... tudo lhe parece agora um terrível engano! Ele quer voltar, mais do que nunca ele deseja voltar. Mas como? Qvain não sabe mais para onde voltar. Nem sabe mais para quando voltar! Tempo e espaço não fazem mais sentido, dissolveram-se com a própria idéia de consciência. Não sabe mais se os fatos de que se lembra estão acontecendo, já aconteceram ou ainda estão para acontecer... Apenas num infinitésimo instante em meio ao caos ele consegue seqüenciar parcialmente suas lembranças e seu raciocínio. É quando acaba concluindo que, definitivamente, algo muito errado aconteceu desta vez! Lembrou-se claramente que nunca tivera as atuais sensações nas outras transferências. Na verdade, nem se lembrava de alguma "outra transferência". Se as sentiu agora, estava claro em sua mente que o motivo era ... ... ... não consegue completar o raciocínio... a sua consciência antes focalizada num minúsculo instante retorna ao estado caótico... ...
Nada disto tem mais importância para Qvain-Cosmo... ... a noção de que existe e de que é um indivíduo separado de todo o resto do universo se focaliza e se dissocia ritmicamente, inúmeras vezes em cada fração do tempo... (E o que significa "fração do tempo"? para cada pessoa significa uma coisa!!)... ...Qvain-Cosmo só deseja agora se dissolver completamente no caos, ter a última fração de sua consciência completamente absorvida pelo espaço-tempo... ... ... ... não há mais pensamentos, só silêncio, paz e escuridão... Ele sentiu o universo se expandindo... ... e Ele... ELE!!! ... Ele se expandia junto... ... e achou isto muito bom... ... ... Sim, isto era MUITO BOM!!!...
Ao se levantar bruscamente de seu tanque de maturação, a única coisa de que Qvain se recordava era de seus pensamentos sendo drenados, enquanto mergulhava em direção ao seu reflexo e se sentia afogar com aquela água salgada...
06/09/2011
Vida de Micróbio
Quando olhei para cima me dei conta de que aqueles próximos 2 milímetros seriam muito mais difíceis de se percorrer do que os quase 3 centímetros que eu já havia deixado para trás. Apesar do meu pavor inicial em precisar me arriscar naquele ambiente totalmente extraterrestre para mim, sem idéia alguma dos tipos de criaturas que encontraria pela frente, percorrer 3 centímetros praticamente planos certamente era muito mais fácil do que escalar os dois milímetros daquele paredão de vidro que se estendia à direita e à esquerda até onde minha visão era capaz de alcançar. Certamente que o paredão naquela escala não era liso como sempre se imagina que seja o vidro, apresentando várias irregularidades em forma de cristais de sílica que eu poderia usar para me apoiar na escalada. Porém era muito íngreme, seria uma escalada de praticamente 90 graus! Infelizmente não tinha escolha nenhuma, e só estava ganhando algum tempo para me acostumar com a idéia.
Sentei-me numa pedra no chão. Pedra não, era provavelmente um grão de pólen. Pus-me a relembrar aquela recente jornada tão diferente de qualquer coisa que eu seria capaz de conceber antes. Não estava longe de casa. Na verdade, acredito que nem deveria estar a mais de uns 20 centímetros da posição original combinada, que era onde eu deveria mesmo estar se não fosse aquele... tufão! E eu havia insistido tanto para que fechassem as janela! Provavelmente ninguém no laboratório sequer tenha sentido aquela tênue brisa, mas podem imaginar o que é uma brisa para uma criatura de pouco menos de 2 micrômetros de altura?
A visão do mostruoso ácaro, verdadeiro dinossauro perto de mim, me fez acreditar que era o fim. Tanta pesquisa, tantos testes, projetos bem executados, sonhos, para no final eu simplesmente virar comida de ácaro. Seria muita ironia se isto acontecesse. Mas percebi que o bicho, embora gigante, era totalmente estúpido. Estava mais interessados em escamas parcialmente decompostas no chão do que em mim. Na verdade, nem sei se ele era capaz de me ver. Ácaros têm olhos? Seria a primeira coisa que tentaria descobrir, se conseguisse sair desta enrascada em que me encontrava agora.
Aproveitei aquela pequena parada para olhar mais atentamente aquele meu corpo microscópico. Os cinco cílios em torno da ventosa que constituía minhas pseudo-mãos desempenhavam bem o papel de dedos. Havia até um cílio mais curto afastado dos outros quatro, cumprindo bem a função de polegar opositor. O par de pseudópodes superiores na ponta do qual se encontravam estas ventosas podiam se dobrar na metade do seu comprimento, imitando a junção dos cotovelos do braço humano. O mesmo ocorria com os inferiores, mais grossos, terminando nas ventosas que cumpriam o papel de pés. Os pares excedentes do microorganismo original foram bem reduzidos pela manipulação genética, tornaram-se quase imperceptíveis. Sim, eu estava bem orgulhoso do resultado daquele trabalho. Aquilo era o mais próximo que uma criatura microscópica poderia chegar da figura humana.
Me levantei e tentei encontrar uma parte se cristal de sílica mais liso naquele paredão. Queria um espelho para ver como havia me saído com a cabeça. Definitivamente a parte menos humana daquela manipulação genética do Tardigrade, mas era bastante funcional! Fiz questão dos olhos, era importante ser capaz de ver este mundo novo. Lógico que precisava abandonar a idéia de olhos normais, com íris, cristalino, retina, e tudo o mais. Decidi por criar um bulbo na criatura, na função de cabeça, e desenvolver nela duas manchas ocelares fotossensíveis. O nanocérebro eletrônico seria capaz de reconstruir isto nas imagens que eu estava acostumado, mas infelizmente eu precisei sacrificar com isto a percepção das cores: vivia agora num mundo monocromático, vendo tudo em vários tons de sépia. Poderia aprimorar isto num projeto futuro, criar manchas ocelares capazes de selecionar faixas do espectro, mas eu estava impaciente para colocar o projeto em prática o mais rápido possível. A cabeça até que não havia ficado tão ruim assim. Não havia nariz, pois eu não respirava. Ao menos não no sentido comum da palavra. Digamos assim que eu tomava goles de ár da atmosfera sempre que precisava de oxigênio, via pinocitose. Num organismo tão diminuto, estruturas especiais como sistemas respiratório e circulatório eram totalmente desnecessários, oxigênio e alimentos se propagavam de célula em célula por osmose. E que células! De fato eu era pluricelular, mas podia ver minhas células isoladamente a olho nu. Na escala atual, digamos que elas apareciam para mim mais ou menos do tamanho das vesículas que existem dentro dos gomos de laranja.
Voltemos à cabeça então. Orelhas também eram desnecessárias: os nanoreceptores auditivos poderiam captar as vibrações normalmente sentidas pela superfície de minha cabeça sem precisar de microestruturas especiais, como cóclea, tímpano, etc. Bastava concentrar os receptores em cada um dos lados do bulbo para se ter uma percepção espacial, poder localizar a direção da fonte sonora. A boca realmente não havia ficado muito boa. Criar duas fileiras articuladas de microplacas de cálcio era muito difícil, precisei abandonar a idéia de uma micromandíbula. Acabei cedendo à boca circular mesmo, construção anatômica mais comum neste mundo minúsculo. Daria para se acostumar a isto. Olhei então para aquela mancha escura difusa, no centro do bulbo encefálico: o nanocérebro quântico! Sim, podia vê-lo porque meu corpo era semi-transparente, como muitas das criaturas que compartilham minha escala de dimensões. Lá estava ele, o impossível realizado!
"Não dá para construir um nanocérebro complexo o bastante para replicar um cérebro humano!", era esta a opinião corrente da época! A um certo tempo já era uma prática comum as pessoas replicarem suas lembranças e personalidades em cérebros eletrônicos. Começou, como sempre, de forma bem rudimentar, com as lembranças dos entes queridos recém falecidos sendo copiados em computadores colocados no interior das lápides. Com o desenvolvimento da Inteligência Artificial, não apenas as lembranças podiam ser preservadas, mas parte da personalidade do morto. Os familiares podiam inclusive conversar com eles numa simulação quase realista! Muitos na época acreditavam estar tendo realmente alguma forma de contato com o além, tamanha a perfeição da interação dos computadores com os saudosos familiares. Também existiram muitas manifestações contra, como é de se esperar que ocorra com qualquer novidade tecnológica pouco compreendida. Isto foi a uns 50 anos. Atualmente, muitos não estavam dispostos a esperar morrer para se replicarem digitalmente. Inclusive foi levantada uma questão ética muito complicada, questionando se as réplicas criadas tinham direito à vida, ou se o seu original poderia destruí-las quando bem entendesse. No fim, tudo se resolveu com uma simples extensão das leis de direitos autorais: a cópia digital do cérebro pertencia única e exclusivamente ao possuidor do cérebro original, e apenas ele poderia decidir se e como seu "clone digital" poderia continuar "vivo" ou não. Por me conhecer muito bem, eu estava seguro, sabia que meu original, meu equivalente macroscópico, seria incapaz de destruir uma cópia microeletrônica de seu cérebro. Microletrônica? Não, me expressei mal. Meu cérebro não estava na escala micro, mas na escala nano. E nem era eletrônico, mas quântico. Foram estes fatos todos que fizeram a grande maioria duvidar da possibilidade de fazer a cópia.
O fato é que eu estava lá, e precisava acabar com estas divagações. Uma das primeiras atitides seria comer, pois os fagócitos internos em meu abdômem começavam a reclamar daquele jejum. Na minha primeira refeição como Tardigrade mutante eu realmente não tinha a mínima idéia do que consistiria minha base alimentar. Tentei agir por instinto. Acabei descobrindo que aquela colônia de bactérias em forma de bastonetes, que encontrei no meio da minha longa jornada de 3 centímetros, eram especialmente apetitosas. Pensei então: se o gosto é bom, então não deve fazer mal! Coloquei então algumas delas dentro de um saco improvisado, que consegui removendo o citoplasma de uma ameba. Sua membrana celular dava um belo couro transparente para carregar objetos! Mas haviam muitos mais bastonetes do que quando eu os coloquei lá no começo. Como estas bactérias se multiplicam rápido! Levei uma à boca, rasgando a membrana e deglutindo o seu refrescante citoplasma. Após comer mais umas três bactérias, me senti refeito para iniciar a escalada.
Por que era tão importante eu vencer aquele paredão de vidro? Óbvio, eu queria aparecer! Mostrar que ainda estava vivo, apesar daquele acidente inicial! Podia até imaginar o rebuliço dentro do laboratória, todos tentando me encontrar. Mas não podia ver nada. Sabia que a luz estava acesa, e a passagem de vultos vez ou outra indicavam a presença de pessoas lá. Mas tudo me parecia um borrão a tais distâncias! Eu era incapaz de perceber com clareza e nitidez qualquer objeto que estivesse a mais de uns, sei lá... talvez 4 milímetros de distância. Ainda estava tentando me ajustar à nova escala da minha realidade. O impacto quando caí levado por aquela brisa-tufão nem me machucou tanto, percebi logo que microscópico eu era bem mais resistente a essas coisas. O próprio efeito da gravidade sobre meu levíssimo corpo era bem menos intenso daquele que eu estava acostumado como ser macrocóspico. Ser macroscópico? Eu já fui um? Não era apenas uma cópia digital num nanocérebro? Certamente, mas minhas lembranças todas era do ser macroscópico original, do humano que se copiou naquele nanocérebro. E agora sentia que, realmente, eu parecia existir! Era indiferente eu ser o original ou a cópia. As lembranças eram minhas! De certa forma, eu FUI macroscópico um dia! Ou pelo menos me lembrava disto... Enfim, estou divagando de novo. Deixe eu me focar novamente no meu problema imediato.
As paredes estavam úmidas. Ótimo, isto facilitaria muito minha subida. Naquela minha jornada, descobri da pior maneira que microscopicamente a água era uma substância incrivelmente pegajosa. Vi uma gotícula de água, estava a mais ou menos a uns 3 milímetros do paredão naquela ocasião. A gotícula, na verdade, aparecia para mim como um domo gigantesco na minha frente, de centenas de metros de altura. Inocentemente me aproximei dele, e aprendi da pior maneira o que é tensão superficial: atraído pela película externa da gota, tive de fazer muita força para me desprender daquela parede adesiva! Foi a segunda vez que vi meu fim naquela jornada: escapando de virar comida de ácaro, estava agora condenado a ficar preso até morrer nas paredes de uma gotícula de água! Perdi meu polegar direito na tentativa de sair dela, tamanha a força com que me atraía! Você deve estar se perguntando: mas agora pouco você não disse que estava com as duas mão perfeitas? Pois é... Aprendi que minhas células se regeneram muito rápido. Acredito até que seu perder os pseudópodes que formam meus braços ou pernas eles serão capazes de crescer de novo. Mas é óbvio que não vou tentar fazer esta experiência, porque dói!!! E muito!! Nessas horas, penso que talvez não deveria ter feito os extensores sensoriais do meu nanocérebro tão sensíveis assim...
Acho que ainda não expliquei por que precisava tanto escalar aquele paredão, não é? Bom, digo agora. Quando percebi que o ácaro realmente não estava interessado em fazer de mim sua refeição, tentei me tranquilizar e localizar onde eu havia parado. Como disse, apesar de enxergar muito mal qualquer objeto a mais de meio centímetro, ainda via borrões. E o formato em L daquele microscópio óptico era inconfundível! Mesmo parecendo um borrão sépia escuro num céu totalmente branco, consegui me localizar. A única chance de resgate, se é que existia alguma, seria eu me fazer aparecer. Para isto eu teria de me deslocar até ao ponto focal da lente objetiva, esperar que alguém estivesse observando na ocular naquele momento, e começar a agir de formas que nem amebas, bacilos, ou qualquer outro ser microscópio descerebrado agiria. Escrever um SOS na superfície da lâmina usando Streptocosos, por exemplo, não seria uma má idéia. Aquele paredão de vidro na minha frente era uma das bordas da lâmina de amostras do microscópio!
Foi nesta situação tão inusitada que iniciei minha carreira de alpinista. As ventosas nas palmas de minhas mãos e pés se agarravam com firmeza da sílica umidecida, eu não precisaria improvisar nenhum instrumento de escalada! Talvez não fosse tão difícil assim chegar no topo da lâmina, cuja borda prilhava em vários tons sépia! Certamente eu veria isto em várias cores, se tivesse inserido no tardigrade genes de ocelos multicromáticos. Será que o nanocérebro era transplantáveis a microorganismos de versões melhoradas? Bom, isto não era o mais importante no momento. Só me interessava chegar ao topo la lâmina de amostra.
Meu leitor deve estar se perguntando: por que um cérebro artificial? Não seria possível desenvolver, via manipulação genética, um microcérebro celular no tardigrade? Minha resposta: não, pelo menos não com a complexidade que eu sonhava. Talvez um autômato limitado, um microrobô biômato. Mas isto não me deixaria satisfeito! Eu queria inserir inteligência neste microorganismo. Se não era possível por vias naturais, que fosse implantado nele um nanocérebro então! Na verdade (e isto eu nunca havia revelado para ninguém) meu sonho era eu próprio me copiar no meu mutante microscópio, ver o que ele via. Se consegui? Oras bolas, estou te descrevendo isto até agora! Meu equivalente macroscópico conseguiu? Certamente não, nada mudou para ele. Não existem miniaturizadores como os da "Viagem Insólita" de Asimov, e duvido que algum dia possa existir este tipo de coisa. Se você quer se tornar microscópico, você precisa NASCER microscópico! Foi o que fiz, mas me permiti colocar inteligência nisto! Implantar um cérebro numa criatura normalmente "burra". Funcionou, ou não estaria aqui descrevendo para vocês minhas aventuras! Mesmo meu original macroscópico não conseguindo realizar seu sonho, ele deve se sentir muito satisfeito se souber que uma cópia sua conseguiu. Sei disso, me conheço muito bem! Por isto é muito importante que eu apareça! Ele tem que saber que a experiência deu certo!
A escalada continuou, saliência após saliência. Os movimentos ficaram automáticos. Isto me permitiu continuar sonhando com o futuro. Como aperfeiçoar mais o projeto? A mutação que ele agora controlava poderia se reproduzir? Certamente sim, pois de fato haviam milhões de cópias deste tardigrade alterado dentro de algum tubo de ensaio. As mutações introduzidas eram propagáveis. Mas eram todos sem cérebro! O nanocérebro não se reproduzia, ere era implantado na criatura já formada. Como melhorar isto? Bom, nanoestruturas autoreplicáveis eram comuns. Só que todas elas eram bem simples, nem se comparavam a um nanocérebro! Qual seria a dificuldade de se criar um nanocérebro capaz de se replicar? E quando ele faria isto? Talves com sensores enzimaticos, que dessem o comando de duplicação exatamente no mesmo momento em que o organismo que o hospedava começasse a se duplicar. E quanto à informação do cérebro copiado? Idêntica à do original, ou uma folha em branco precisando reaprender tudo? As duas possibilidades eram tentadoras! Talvez o melhor fosse uma combinação aleatória das duas, com alguns cérebros replicando também as informações (os anciões) e outros totalmente virgens de experiências, inclusive sem memória alguma de uma vida macroscópia anterior. Uma nova sociedade micro-humana? Seria fabuloso, uma população de bilhões vivendo pacificamente dentro de poucos centímetros quadrados, continuando a desenvolver a cultura sem precisar disputar espaço, comida, território... Minha viagem mental atingia o clímax quando percebi ter atingido a borda superior da lâmina. Como o tempo passa rápido quando estamos sonhando acordados! Acordado... sim, eu estava neste estado a muito tempo! Precisava dormir. Mas como fechar os olhos? Não tinha pálpebras, mas mesmo que as tivesse elas seriam semitransparente, não me resolveriam o problema. Improvisei uma touca com o tecido de uma microalga que encontrei no topo, a coisa mais opaca que fui capaz de encontrar naquele mundo novo. Amarrei uma espécie de turbante de membrana em torno dos meus ocelos e da cabeça, e adormeci por algumas horas. Horas? Sei lá, talvez minha percepção microscópica de tempo seja diferente, mas no momento não havia como avaliar isto. Esvaziei a mente, e dormi...
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- Devagar! Nem respire, ok? Quantas vezes eu disse para fechar a janela! Ninguém me ouve aqui?
- Tem certeza de que ele está aí mesmo?
- Se tenho certeza? Lógico que tenho! É exatamente o que eu faria!
- Desculpe-me parecer tão insensível dizendo isto, mas... cara, ele pode estar em qualquer lugar! Pode ter sido fagocitado por uma ameba, se afogado numa gotícula de água, atacado por bactérias, sei lá!
- Ele está num destes microscópios! Tenho certeza que sim! É o que eu faria também!
- Relaxa! É só uma cópia! Não é você! Está levando isto juito para o lado pessoal...
Um tubo de ensaio quase voou na cabeça do técnico após ele lançar este comentário infeliz, mas Mandel conseguiu se controlar.
- Eu nem senti a brisa, então ele deve estar bem perto! Vejamos... peso, tantos nanogramas. Possível intensidade da brisa... - começa a fazer cálculos em sua calculadora de bolso. - Não mais de meio metro! Tenho certeza! Quantos microscópios existem na bancada, dentro desta região?
- Uns seis?
- Então, este é o último! Ele vai tentar aparecer! Quando tempo agora? 3 dias? Deve ter tentado escalar a lâmina. Talvez exausto, esteja descansando na borda antes de continuar caminhando até o centro. Continue procurando, mas... com cuidado, caramba!!! Sabia que para ele isto deve ser equivalente a um terremoto??
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Acordei ouvindo murmúrios incompreensíveis à distância. Meu espectro auditivo era vem limitado, não percebia nada muito além dos 150 hertz, apesar de conseguir identificar con clareza os infra-sons abaixo dos 3 hertz com uma clareza de até 4 oitavas de separação. Mas dava para perceber que eram vozes humanas discutindo! O chão de vidro balançando aos meus pés me causava vertigens, o que me levou a permanecer deitado.
Vi uma forte luz surgir ao longe. Puxa, não havia pensado nisto! A luz do microscópio me cegaria de imediato! Me protegi o mais rápido que pude com aquele turbante de microalgas improvisado.
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- Desliga esta lâmpada, vai cegá-lo!!
- E como vamos ver algo aí?
- Ligue o receptor digital, deve ser suficiente! Quando eu perceber que estou sendo observado, vou saber como dar algum sinal.
- EU??
- EU, ele... ah, tanto faz!! Só faz o que eu mando, ok?
- E se ele já foi para o centro da lâmina?
- Não deu tempo. Continue olhando as bordas, tá bom? As bordas!
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Estavam me procurando, não havia dúvida! Mas como chamar a atenção? Fazer uma fogueira, sinais de fumaça? Fora de cogitação, isto não se aplicava à minha situação atual. Um SOS, mas com o quê? Ainda mais sem poder olhar o que fazia... Que situação difícil! A luz passava por ele já pela sexta vez, e nada indoicava que ele havia sido localizado. Como uma criatura microscópia poderia chamar a atencão de criaturas macroscópicas?
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- Vai mais devagar!
- Caramba! Mais do que isso? Estou percorrendo a borda a um décimo de milímetro por segundo!
- Estamos procurando um ser de menos de dois micrômetros de altura. Precisa ser mais devagar sim!
- Pô, quero comer! Não vou perder meu almoço aqui procurando um micróbio!
Aúnica coisa que impediu Mandeu de dar um soco na cara do técnico foi a certeza de que isto poderia colocar tudo a perder...
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O resgate tão perto, e ao mesmo tempo tão longe... Quando a luz passou por ele pela vigésima vez, ficou bem claro que apesar da insistência de seu equivalente macroscópico, ele era pequeno demais para poder ser observado. Como se fazer um pouco maior, mais visível? Abriu sua sacola de membrana de ameba, procurando pelas bactérias. Morreram? Lógico que sim! Elas se multiplicam rápido, com certeza... desde que tenham matéria prima para produzirem suas cópias. Sem comida, morrem como todo ser vivo. Sua idéia de escrever um SOS fôra por água abaixo. Água? Vê uma microgotícula de água a algumas dezenas de micrômetros de distância. Ele queria se fazer maior? Era a última chance! Arriscado, sem duvida, mas... o que tinha a perder? Ele acabaria perecendo lá, se não fizesse nada. Se tentasse aquela loucura, tinha alguma chance. Ou aceleraria o fim, algo que nestas circunstãncias nem seria uma má idéia. Decidiu então mergulhar de cabeça e se arrastar até o centro da gotícula, arriscando-se a se afogar.
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- Ei, tem algo aqui!
Sim, definitamente aquela criatura não era um micróbio normal. Indetectável numa situação normal, mas no centro daquela gotícula de água a abóbada transparente funcionava como uma lente adicional, destacando a presença daquela criatura incomum. Tão humanizada! Braços, pernas, cabeça, até manchas que lembravam olhos! Ao ver aquela massa difusa no interior do buldo encefálico, Mandel não teve dúvida: era sua réplica microscópica!
- Tira ele daí logo! Está se afogando!
- Como?
- Micromanipuladores! Vai, anda logo!!
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Os micromanipuladores funcionavam com perfeição, e me enchi de orgulho ao constatá-lo. O que eu nunca podia imaginar é que minha vida um dia dependeria deles. Alguns segundos a mais, e eu estaria condenado a ser um microcadáver dentro de uma microgotícula de água. Mas as duas finíssimas garras de carbono me levantaram de dentro daquela gotícula de água com tanta delicadeza quanto uma mãe levando ao colo seu recém nascido! Me depositou no chão do topo daquela lâmina. Ainda permaneci algum tempo inerte para me refazer, mas tentei fazer um sinal de "jóia" para meus observadores. Será que aquele microscópio era acurado o suficiente para conseguir ampliar com clareza meu gesto? A luz ambiente começa a piscar, mas fraca o bastante para não me cegar. Era óbvio que meus salvadores estavam tentando se comunicar. Sabendo agora que os gestos de minha micromão não eram visíveis, passei a sacudir os braços. Eles começaram a piscar a luz a intervalos de exato um segundo. A intenção era óbvia: queriam a minha confirmação de que no meu mundo microscópio a sentação da passagem do tempo era igual ao do macroscópico. Comecei a sacudir os braços no mesmo intervalo de um segundo, confirmando para eles que nossa percepção de tempo era idêntica. Um grande medo, desfeito agora, era de que o cérebro quântico processasse rápido demais, dando ao seu portador a incômoda sensação de estar aprisionado no corpo de uma lesma. Felizmente, não era o caso!
O piscar recomeça, mas agora diferente. Tento memorizá-lo, 4 piscadas, 5 piscadas, pausa... 5 piscadas, 1 piscada, pausa... 1 piscada, 4 piscadas, pausa...3, 5, pausa... pausa... "Será código morse?", pensei... 1, 2, pausa... 1, 5, pausa... 3, 3, pausa. Parou. Lamentei profundamente nunca ter aprendido código morse. Aquilo e nada para mim era a mesma coisa. Mas... não! Provavelmente quem estava tentando se comunicar era meu equivalente macroscópico, e ele TAMBÉM não sabia código morse! Que código era aquele então? Pensei, pensei... óbvio! Não me orgulho de revelar isto, mas era o código que costumávamos usar para passar colas nas provas do meu tempo de faculdade bioquímica! Simples, eficiente, e... (hehehe) nunca desmascarado! A idéia era bem simples: num quadriculado de lado 5 por 5, coloque as 25 primeiras letras do alfabeto (nunca sentimos falta do Z, que sempre poderia ser substituida pelo S...):
A B C D E
F G H I J
K L M N O
P Q R S T
U V W X Y
Ainda não tinha improvisado caneta e papel no mundo microscópico, então tive de decodificar de cabeça: 4 piscadas, 5 piscadas, pausa, ou seja, linha quatro, coluna cinco... letra T! 5, 1, pausa: letra U. Meu leitor pode continuar o exercício se quiser, mas vou me adiantar para os mais impacientes: eles diziam (ou perguntavam, pois a interrogação estava de certa forma implícita): "TUDO BEM ?". Precisava responder levantando os braços: 3 vezes, 5 vezes, pausa... 3 vezes, uma vez, pausa. "OK!!". Esta conversa prosseguiu morosa, e não pretendo aborrecer meus leitores com detalhes. Resumirei. Era de fato com meu equivalente macroscópico a pessoa com quem eu "falava". Se desculpou repetidamente pelo acidente, dizendo que havia insistido muito com a questão das janelas (e disso eu lembro bem). Perguntou sobre danos, mencionei a perda do polegar mas a rápida regeneração do mesmo. Mencionei minha visão monocromática, incapacidade de reconhecer sons agudos, etc. Mas era urgente desenvolver uma comunicação melhor, pois seria penoso narrar detalhes de minha aventura por este meio tão lento de comunicação. Minha lâmina foi levada com cuidado ao local planejado desde o princípio, onde uma construção microscópica cheia de ferramentas úteis havia sido preparada previamente para que eu a habitasse. Sim, a idéia inicial não era eu me colocar logo de cara no mundo micro, mas viver um tempo num ambiente o mais parecido possível com o mundo macroscópico de onde vim até me acostumar lentamente com a idéia. Aquela brisa-tufão mudou meus planos, mas também acelerou minha curiosidade de exploração: não precisava mais de tanto tempo para adaptação ao "Microadmirável Mundo Novo"!
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Quando aprendi a manipular com destreza os equipamentos nanoscópicos de meu microlaboratório, percebi uma possibilidade mais eficiente de comunicação. A idéia não era nova, apesar de difícil. Só que naquela escala do meu atual mundo, ela se tornava viável: montar sequências de DNA. Era um pouco maçante cortar nucleotídeos daqui e colá-los ali, sequencialmente, da fita de DNA. Mas, inserindo os filetes gerados no DNA circular de certas bactérias, consegui algo nunca antes imaginado, e que valia a pena todo o esforço: livros capazes de se auto-replicar! O máximo da revolução das técnicas de imprensa: bastava abrigar e alimentar seus livros que eles fariam cópias e mais cópias deles mesmos!
Logo de cara eu precisei abandonar a idéia de usar os nucleotídeos individualmente: tinha à minha disposição apenas as letras A, C, G e T, e não dava para escrever coisas muito interessantes só com elas. Além disso, manipular nucleotídeos individuais era difícil, pois eles sempre se apresentavam fortemente conectados em trincas! Logo percebi que poderia dispensar o equipamento, e manipular estas trincas com minhas próprias mão: com o tempo se percebe fácilmente pelo tato cada um dos 20 aminoácidos codificados nestas trincas. 20? Mas trincas de elementos que podem assumir 4 estados não me daria um conjunto de 4X4X4=64 combinações? De fato, mas haviam aminoácidos codificados como trincas diferentes. Agora ficava claro para mim o motivo: pelo tato, dava para sentir muito pouca diferenca entre as trincas de nucleotídeos que codificavam um mesmo aminoácido específico. Precisava então inventar um alfabeto de 20 letras. Bom, já havia feito algo parecido antes, não seria tão difícil assim.
Primeiro ordenei os 20 aminoácidos pelos nomes. Sabia da existência de sequenciadores no macrolaboratório lá fora, e minha intenção era poder escrever algo que eles também pudessem ler. Mas óbviamente não havia como codificar 26 letras em 20 aminoácidos. Comecei a descartar algumas (me perdoem os puristas ortográficos, mas foi necessário!). Comecei eliminando o C. Para que esta letra? Ela assume ora som do S, e ora som do K, então eu poderia substituí-la por uma ou outra sem perda de clareza. O Y também se foi, pois sempre poderia usar I em seu lugar nas palavras estrangeiras. O W era útil, mas optei por substituí-lo pela combinação VV, que por ser inexistente em português ficaria claro que estava fazendo o papel de um W. E o X então, outro grande problema!! Uma letra esquizofrênica, capaz de assumir 4 ou 5 fonemas distintos, todos facilmente substituíveis: também o removi do meu alfabeto genético! Sempre gostei da combinação PH, e nunca entendi por que foi abandonada. Sendo criador do alfabeto, poderia colocar nele meis gostos pessoais. Foi por isto que removi também a letra F, e voltei a usar o PH no seu lugar. E finalmente... o Q! Letra exigente, sempre impondo a presença de um U como sequência, mesmo que ele não fosse pronunciado. Também o eliminei, e passei a escrever palavras como KEIJO, KUATRO, KUADRADO, etc. Estava pronto o meu alfabeto microscópico! Faltava a pontuação. Bom, é fato conhecido a existência de três combinações (todas iniciadas pela adenina) que não possuem expressividade genética: elas não codificam nenhum aminoácido! Nada melhor que usá-los como pontuação, e foi o que fix: ATT virou espaço, ATC ponto e ACG vírgula. QUanto ao resto? Sempre poderia improvisar com a letras que não expressavam paravra alguma: HI, hífen; AP, aspas; AP, FP, abre-parenteses e fecha parenteses, etc... Criei um conjunto de caracteres bastante prático desta forma, e meu equivalente macroscópico aprovou a idéia incondicionalmente!
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Atualmente vivo confortável dentro de minha fazenda de bactérias no fundo daquele tubo de ensaio. Por assim dizer, crio livros! Cuido deles, alimento. Tenho uma extensa biblioteca bactereológica formada de várias culturas-exemplares. Preciso sempre estar atento para que estas culturas não se misturem, pois isto comprometeria o conteúdo dos livros: ninguém gostaria de ler uma mutação da "Divina Comédia" misturada com o "Elogio à Loucura" e uma pitada de genes do "Principia" de Isaac Newton, concordam? Mas outras cópias micro-humanas repetiram minha esperiência e me ajudam nesta tarefa de isolar as colônias da microbiblioteca. Elas são melhoradas. Possuem visão tricromática, por exemplo. Infelizmente o transplante de meu cérebro para um tardigrade melhorado ainda não é possível, mas já me acostumei com o mundo monocromático.
Com o tempo desenvolvemos habilidade em ler estes livros pelo tato, fercorrendo os fios de DNA das bactérias modificadas entre os dedos e decodificando os aminoácidos codificados nas trincas. Como Braile? Não, bem melhor! A leitura era mais rápida! Pensando bem, esta forma de escrita lembra muito os quipus dos antigos incas, que registravam suas informações em nós espaçados em seus registros de fios.
Eu e meu equivalente macroscópico desenvolvemos um canal de comunicação enzimático: ele também é capaz de me escrever mensagens codificadas em soluções de enzimas, e assim mantemos um contato constante. Lento, mas bastante eficiente. É atravez dele que chega até vocês esta minha narrativa. Ele está radiante com o sucesso do experimento. Somos a mesma pessoa? Difícil dizer isto. Diria que não. Quer dizer, somos os mesmos até o momento da cópia do cérebro. Temos as mesmas lembranças, convicções de vários gêneros foram copiadas... Mas a partir daí cada um seguiu independente. Gostamos de nos imaginar como irmãos gêmeos cuja separação ocorreu bem depois do nível de blástulas! É uma boa explicação, e a idéia nos deixa confortáveis.
A sociedade micro-humana se desenvolve a passos gigantes! (descumpem o trocadilho inusitado, hehehe!!) O mundo macroscópico de 100 bilhões de habitantes já se tornou insustentável, apesar te todas as técnicas de produção de alimentos, saúde e construções disponíveis na atualidade! Empolgados com o bom resultado das experiências recentes, muitos mesmo estão dispostos a transferir suas mentes para seres microscópicos, com um mundo de espaço ilimitado esperando gente nova. Longevidade? O conceito atual mudou radicalmente! De fato, os seres microscópicos duram uns 6 anos atualmente, na melhor das hipóteses. Mas podemos realizar mitose, lembram-se? E a nanoduplicação do cérebro quantico já está bem desenvolvida hoje em dia. Ok, vivemos no máximo uns 6 anos no mesmo corpo microscópico, mas... por que precisamos nos prender a ele? Quando chega a hora, podemos simplesmente nos dividir, e criar duas cópias novas em folha de nós mesmos, com todas as memórias e habilidades preservadas. Isto sim é que é ser eterno! Talvez não seja nem um poouco parecido com a forma que sempre sonhamos, mas o fato é que nós, finalmente, descobrimos uma maneira de vencer a morte! Na forma de micróbios!
03/09/2011
Intocados
A chuva radioativa começou repentinamente. Impregnando o solo, causando mutações, acelerando a evolução. Separando impiedosamente as variações mais resistentes daquelas outras incapazes de sobreviver ao coquetel de isótopos ativos que bombardeavam tudo à volta. Ele continuou caminhando resoluto, as gotas da chuva purificando ainda mais sua pele escamosa. Tinha um destino em mente.
Passou pela tenda do Ciclope. Era assim chamado porque possuia um olho esquerdo diminuto, enquanto o direito era deslocado no rosto até quase a metade. Tal mutação curiosa o fazia parecer com a mitológica figura, da qual adotou o nome.
- Ei, Lagarto!
A chuva começa a ficar mais amena...
- Grande Ciclope!! Me encha um caneco daquele seu vinho de batatas especial...
Coloca dois cristais de quartzo sobre o balcão, moeda de troca corrente na época. Quase esvazia o caneco num só gole, os vapores alcalinos descendo pela garganta e logo em seguida se espalhando pela cabeça.
- Vai mesmo às minas de sal encontrar os Intocados? Os que conheço que voltaram de lá contaram que a visão não é muito agradável.
- É necessário! Este meu problema só posso resolver com eles.
- Sabe que vão tomar todas as precauções, não é? Desinfetar, te cobrir com capas de chumbo... Vai ser algo bem aborrecedor!
- Eles são frágeis, não suportariam alguém trazendo ambiente externo naquele ambiente esterilizado.
- Você deve saber por que são chamados de "intocados", não é?
- Claro! Nunca foram abençoados com o contato radioativo. São livres de mutações, dizem até que são geneticamente idênticos aos humanos do século passado.
- Não sobreviriam quinze minutos aqui fora. Tão fracos! Chega a me dar pena...
- Toda criatura viva tem direito ã vida garantido.
- Sim, de fato! Só não entendo que vida é essa, cercada por paredes de sal de centenas de metros de espessura e vivendo dentro de cápsulas de chumbo, incapazes de suportar nossa abençoada radiação.
Os efeitos da terceira grande guerra ainda se faziam presentes mais de cem anos depois do acontecido. Na época, quem pôde se escondeu nos vários abrigos anti-atômicos espalhados pelo planeta, protegidos do ambiente hostil que em pouco tempo cobriria toda a Terra. Continuaram se espalhando debaixo da terra como toupeiras. Mas bilhões não tiveram a mesma sorte, e precisaram suportar as consequências da guerra. Na verdade não a suportaram realmente. As primeiras gerações pós terceira-guerra sofreram muito com a adaptação forçada. A espécie humana, bem como grande maioria das espécies animais e vegetais, chegaram bem perto da extinção absoluta!
Porém, mesmo a radiação tem seu lado benéfico: ela acelerava espantosamente as mutações genéticas, resumia em décadas o resultado de evolução natural que antes demorava milênios. Quem não a suportava, perecia. Mas os que nasciam resistentes a ela, não encontravam concorrência biológica. Tinham um espaço gigantesco no planeta para passarem adiante suas mutações vitoriosas, bem sucedidas. Outro benefício inusitado: o mundo ficou enfim livre das baratas, ao contrário do que diziam as antigas lendas de que elas seriam as únicas herdeiras de um mundo pós guerra-atômica. Sobreviveram aos lagartos gigantes, mas os cogumelos radioativos foram demais para elas.
A população humana começou a aumentar mais uma vez. Humana? Poderiam não nos parecer mais tão bonitos, assimétricos, mas que importava isto se eram perfeitamente adaptados ao ambiente novo? E quem decide o que é belçeza? Qual o problema de não se ter orelhas, rosto assimétrico, quatro ou cinco mamilos, pele escamosa, ou o que fosse, se com isto também ganhassem resistência ao ambiente radioativo dentro do qual não tinham escolha, a não ser viver nele? Naquela era, bonito era conseguir sobreviver.
Lagarto, em particular, tinha uma tolerância incomum ao arsênico. Dádiva impagável herdada de uma mutação familiar propagada por no mínimo três gerações! Uma consequência inusitada de tal mutação era a existência de um sexto dedo, o mindinho, em cada mão. Como se queixar disto? Fôra abençoado com um dedo a mais em cada a mão do que a população média. Foi inclusive, embora ele nunca tivesse admitido, um dos critérios de escolha de sua atual parceira. Além, é claro, do fato dela ter um terceiro mamilo, algo que sempre o atraiu nas mulheres.
- Preciso da ajuda dos intocados para um teste, Ciclope! Ao que parece, meu futuro filho está se desenvolvendo... perfeito! Isto está me tirando o sono!
- Perfeito? Está certo disto? Nenhuma assimetria, membro adicional, anomalia metabólica?
- Você bem sabe que o único motivo dos meus viverem confortavelmente naquela terra anil é nossa tolerância ao arsênico do solo. É o que nos torna senhores daquele pedaço de terra por gerações! Não me passa pela cabeça a idéia de que nosso filho não possa crescer conosco...
- E eles, os "intocados", cederiam tais testes adicionais à sua esposa por qual motivo?
- Tenho o que barganhar com eles. Influência, você sabe bem do que estou falando. Posso propor uma troca interessante...
- A ponto deles arriscarem a presença do que... (como eles dizem mesmo?) - ... contaminação do mundo exterior?
- Estou disposto a ceder aos seus caprichos: as câmaras de descompressão, roupa anti-radioativa, duchas esterilizantes...
- Bom, que mais posso dizer se te vejo assim tão decidido? Boa sorte então!!
Lagarto vira o resto do vinho de batata do caneco, no fundo do qual brilha um pó fluorescente de césio, cortesia do Ciclope. Sai em direção às minas de sal, a uns quatro ou cinco quilômetros adiante.
..................
Coberto dos pés à cabeça com suas capas de chumbo, era impossível perceber qualquer parte dos corpos dos intocados que guardavam a entrada da cidade dentro daquela verdadeira cordilheira de sal! Mal se viam seus olhos, protegidos por uma grossa camada de vidro esverdeado impregnado de chumbo. Lagarto precisou se despir, colocando seu par de umbigos à mostra para quem quisesse vê-los.
- É mesmo necessário este banho para eliminar minha camada epitelial radioativa? Vou me sentir meio exposto, desprotegido sem ela.
- Ou concorda, ou não entra.
Lagarto se desfez então daquela camada de proteção. De qualquer forma, entrando naquele ambiente estéril, ela nem faria mesmo falta! Não havia lá dentro do que precisar se proteger.
Entrou por aquele extenso corredor branco. Apesar de pouco poder captar de suas expressões, era capaz de sentir a repugnância dos guardas "intocados" ao ver as escamas de sua pele. Era notório que eles, a todo momento, desviavam os olhares.
- Vista esta roupa de chumbo!
- Não vou me sentir sufocado?
- Vai te isolar. O ambiente lá dentro é mantido a 15 graus celsius. Ela vai te deixar confortável. Sua radiação natural também vai te ajudar nisto.
Quinze graus?!! Santíssima Radiação!!! Quanta diferença para os 60 graus do exterior, proporcionados pelo abençoado efeito estufa do dióxido de carbono!
- Esta luz fria que ilumina aqui, qual sua frequência?
- Luz branca estritamente dentro do espectro visível, exceto por uma pequena parte de infravermelho para manter o calor. Nada mais.
- Sem ultravioleta?
- Nenhum traço desta radiação letal dentro de nossas minas. - explica um dos guardas.
Luz praticamente 100% fria? Por um instante Lagarto se sentiu entrando no círculo infernal de gelo descrito por Dante. Como era possível alguém viver confortavelmente em tal ambiente?
........................
Foram câmaras e mais câmaras de descompressão. Ele contou umas dez, mas pode ter perdido a contagem no meio do caminho. Precisou inclusive vestir uma segunda capa de chumbo sobre a primeira!! Sagrado Plutônio! Como devem ser frágeis estes "intocados" para precisarem de tanta proteção...
Chegou na cidade do centro da montanha envolto em tantas camadas de poliestireno impregnado de chumbo que mal podia se mover. Sentiu-se um extraterrestre, ou melhor, um astronauta caminhando sobre o solo de seu próprio planeta. A população de intocados se aglomerava em volta, mas sempre guardando uma certa distância. Temiam talvez mutações genéticas saltitantes atravessando aquelas duas capas de chumbo e contaminando seus genes inalterados por mais de um século? Olhou com mais cuidado para seus rostos, e pensou: "Que gente feia!! Todos perfeitos, simétricos, dois olhos da mesma cor, cinco dedos em cada mão, narizes perfeitamente centralizados no rosto, tão... tão iguais uns aos outros!!" Como se reconheciam? No mundo exterior as mutações genéticas forneciam individualidade a cada pessoa. Ciclope, por exemplo, possuía uma assimetria ocular incomum. Poucos desenvolviam tal mutação, e era a característica que o fazia ser, inquestionavelmente, o "Ciclope"! Ele, Lagarto, não tinha uma característica tão incomum assim nas escamas de sua pele. Mas apresentava diferença de pigmentação nos olhos, o direito verde e o esquerdo castanho escuro. E pelo menos na vizinhança de onde vivia era o único que apresentava tal combinação, o que o identificava como "O" Lagarto... Era sua identidade!
Lançou mais um olhar para os intocados. Tão iguais!!! Mais do que se reconhecerem: como é que um intocado sabia que ele era ele mesmo, e não outro intocado? 50% do DNA da mãe, mais 50% do DNA do pai, sem margem para as variações aleatória proporcionadas pelos raios gama dos isótopos radioativos. Como era possível viver num mundo assim?
.................................
O diretor do Centro de Controle Genético apareceu com uma máscara cirúrgica no rosto. Grande Cogumelo Atômico, quanta hipocondria!!! Será que ele realmente temia tanto o abençoado contato radioativo, mesmo com tantas barreiras de chumbo que ele fôra obrigado a vestir? Estava claro que ele tentava evitar maiores contatos com o Lagarto. Ainda assim, lagarto tentou ser cordial:
- Os edifícios aqui em volta são bem baixos, não é?
- De fato! Recentemente limitamos em 1,5 metros a licença para propagação genética da estatura da nossa população. Isto nos permite construir edifícios de andares mais baixos, acomodando um maior número de pessoas em menos espaço. Isto é importante dentro destas montanhas, onde nosso espaço é limitado!
Lagarto olhou bem para o rosto do diretor: tão liso, tão perfeito, tão... repugnantemente simétrico! Toda aquela simetria bilateral começou a embrulhar seus três estômagos, e ele se segurou para não dar um vexame imperdoável naquele exato momento, regurgitando sua última refeição.
- Já sei o que você quer, não precisamos alongar muito este encontro.
- Ótimo, Senhor Diretor! Aqui estão os exames pré-natais da minha esposa. Espero que possa dar-lhes uma atenção especial.
- Pode estar certo de que vou colocá-los nas mãos de nossos melhores geneticistas. Trato é trato! De sua parte, também está tudo OK ?
- Certamente! Os núcleos radioativos de cada usina do topo da cordilheira de sal vão continuar gerando potencial elétrico limpo às suas cidades! Conversei em particular com cada um dos técnicos encarregados das barras de urânio...
- Nenhuma chance de contaminação?
Apesar de não compreender tanta relutância dos intocados em se exporem àquela bênção que os tiraria enfim da idade média evolutiva e de tanta dependência dos "seres exteriores", ele concordou:
- Sim, nenhuma "contaminação". Eu fiscalizei pessoalmente a instalação de cada uma das placas do maldito chumbo.
Aquele "maldito" lhe escapou sem querer, e o diretor percebeu isto. Mas fez questão de não comentar o deslize. Melhor assim!
- Dê-me seus exames. Verei o que meus geneticistas podem fazer. Se ficar comprovado que seu filho está se desenvolvendo normal, pode estar certo - engasgou neste ponto - hãm... que nós iremos acolhê-lo e ele conviverá normalmente em nossa sociedade. Será um humano intocado igual a qualquer outro, com todos os seus direitos garantidos!
.....................................
Pela reavaliação dos exames, o pior aconteceu: os geneticistas não puderam identificar no feto nenhuma anomalia genética significativa! Mas Lagarto iria até o final, não desistiria assim tão fácil! Apenas após a concepção, ao ficar claro que seu filho realmente nascera como um humano normal, totalmente desprotegido na superfície da Terra, é que ele o entregaria para viver naquele inferno esterilizado!
O novo ser começou a sair do ventre de sua esposa, de pernas abertas, a esquerda um pouco mais curta que a direita. Saiu a cabeça: dois olhos, orelhas, nariz... tudo normal!! Pele lisa sem escamas! Vê o resto do corpo saindo, expulso pelas contrações do parto. Dois braços idênticos, duas pernas...
É um menino. Mas infelizmente um menino normal: um pênis e dois testículos... Lagarto começa a entra em desespero! De fato isto condizia com a reavaliação dos geneticistas, mas no fundo ele ainda esperava que eles estivessem errados.
Enfim, saem os dois pés... perfeitos! O que ele e a esposa haviam feito de errado? Como tal criatura intocada poderia viver em seu mundo, junto de seus pais? A criança é levantada, e pendurado ao seu ventre se vê um único cordão umbilical. Só um umbigo!! O que ele fez para merecer tamanha desgraça??
Conformado em precisar entregar seu filho para os "intocados", ele pega sua mão pequenina: um, dois, três, quatro, cinco... seis dedos!!! Conta a outra: também seis!! Seis dedos, a marca da mutação tolerante ao arsênico! Enfim, seu filho poderia herdar suas terras, viver entre os seus! Olhou para as nuvens radioativas no céu, e fez uma prece de agradecimento com todas as forças que era capaz, lágrimas abundantes escorrendo de seu rosto:
- Muito obrigado, meu Santíssimo Arcanjo Megaton!!! Muito obrigado por meu filho NÃO TER NASCIDO NORMAL!!!
*** Fim ***
Passou pela tenda do Ciclope. Era assim chamado porque possuia um olho esquerdo diminuto, enquanto o direito era deslocado no rosto até quase a metade. Tal mutação curiosa o fazia parecer com a mitológica figura, da qual adotou o nome.
- Ei, Lagarto!
A chuva começa a ficar mais amena...
- Grande Ciclope!! Me encha um caneco daquele seu vinho de batatas especial...
Coloca dois cristais de quartzo sobre o balcão, moeda de troca corrente na época. Quase esvazia o caneco num só gole, os vapores alcalinos descendo pela garganta e logo em seguida se espalhando pela cabeça.
- Vai mesmo às minas de sal encontrar os Intocados? Os que conheço que voltaram de lá contaram que a visão não é muito agradável.
- É necessário! Este meu problema só posso resolver com eles.
- Sabe que vão tomar todas as precauções, não é? Desinfetar, te cobrir com capas de chumbo... Vai ser algo bem aborrecedor!
- Eles são frágeis, não suportariam alguém trazendo ambiente externo naquele ambiente esterilizado.
- Você deve saber por que são chamados de "intocados", não é?
- Claro! Nunca foram abençoados com o contato radioativo. São livres de mutações, dizem até que são geneticamente idênticos aos humanos do século passado.
- Não sobreviriam quinze minutos aqui fora. Tão fracos! Chega a me dar pena...
- Toda criatura viva tem direito ã vida garantido.
- Sim, de fato! Só não entendo que vida é essa, cercada por paredes de sal de centenas de metros de espessura e vivendo dentro de cápsulas de chumbo, incapazes de suportar nossa abençoada radiação.
Os efeitos da terceira grande guerra ainda se faziam presentes mais de cem anos depois do acontecido. Na época, quem pôde se escondeu nos vários abrigos anti-atômicos espalhados pelo planeta, protegidos do ambiente hostil que em pouco tempo cobriria toda a Terra. Continuaram se espalhando debaixo da terra como toupeiras. Mas bilhões não tiveram a mesma sorte, e precisaram suportar as consequências da guerra. Na verdade não a suportaram realmente. As primeiras gerações pós terceira-guerra sofreram muito com a adaptação forçada. A espécie humana, bem como grande maioria das espécies animais e vegetais, chegaram bem perto da extinção absoluta!
Porém, mesmo a radiação tem seu lado benéfico: ela acelerava espantosamente as mutações genéticas, resumia em décadas o resultado de evolução natural que antes demorava milênios. Quem não a suportava, perecia. Mas os que nasciam resistentes a ela, não encontravam concorrência biológica. Tinham um espaço gigantesco no planeta para passarem adiante suas mutações vitoriosas, bem sucedidas. Outro benefício inusitado: o mundo ficou enfim livre das baratas, ao contrário do que diziam as antigas lendas de que elas seriam as únicas herdeiras de um mundo pós guerra-atômica. Sobreviveram aos lagartos gigantes, mas os cogumelos radioativos foram demais para elas.
A população humana começou a aumentar mais uma vez. Humana? Poderiam não nos parecer mais tão bonitos, assimétricos, mas que importava isto se eram perfeitamente adaptados ao ambiente novo? E quem decide o que é belçeza? Qual o problema de não se ter orelhas, rosto assimétrico, quatro ou cinco mamilos, pele escamosa, ou o que fosse, se com isto também ganhassem resistência ao ambiente radioativo dentro do qual não tinham escolha, a não ser viver nele? Naquela era, bonito era conseguir sobreviver.
Lagarto, em particular, tinha uma tolerância incomum ao arsênico. Dádiva impagável herdada de uma mutação familiar propagada por no mínimo três gerações! Uma consequência inusitada de tal mutação era a existência de um sexto dedo, o mindinho, em cada mão. Como se queixar disto? Fôra abençoado com um dedo a mais em cada a mão do que a população média. Foi inclusive, embora ele nunca tivesse admitido, um dos critérios de escolha de sua atual parceira. Além, é claro, do fato dela ter um terceiro mamilo, algo que sempre o atraiu nas mulheres.
- Preciso da ajuda dos intocados para um teste, Ciclope! Ao que parece, meu futuro filho está se desenvolvendo... perfeito! Isto está me tirando o sono!
- Perfeito? Está certo disto? Nenhuma assimetria, membro adicional, anomalia metabólica?
- Você bem sabe que o único motivo dos meus viverem confortavelmente naquela terra anil é nossa tolerância ao arsênico do solo. É o que nos torna senhores daquele pedaço de terra por gerações! Não me passa pela cabeça a idéia de que nosso filho não possa crescer conosco...
- E eles, os "intocados", cederiam tais testes adicionais à sua esposa por qual motivo?
- Tenho o que barganhar com eles. Influência, você sabe bem do que estou falando. Posso propor uma troca interessante...
- A ponto deles arriscarem a presença do que... (como eles dizem mesmo?) - ... contaminação do mundo exterior?
- Estou disposto a ceder aos seus caprichos: as câmaras de descompressão, roupa anti-radioativa, duchas esterilizantes...
- Bom, que mais posso dizer se te vejo assim tão decidido? Boa sorte então!!
Lagarto vira o resto do vinho de batata do caneco, no fundo do qual brilha um pó fluorescente de césio, cortesia do Ciclope. Sai em direção às minas de sal, a uns quatro ou cinco quilômetros adiante.
..................
Coberto dos pés à cabeça com suas capas de chumbo, era impossível perceber qualquer parte dos corpos dos intocados que guardavam a entrada da cidade dentro daquela verdadeira cordilheira de sal! Mal se viam seus olhos, protegidos por uma grossa camada de vidro esverdeado impregnado de chumbo. Lagarto precisou se despir, colocando seu par de umbigos à mostra para quem quisesse vê-los.
- É mesmo necessário este banho para eliminar minha camada epitelial radioativa? Vou me sentir meio exposto, desprotegido sem ela.
- Ou concorda, ou não entra.
Lagarto se desfez então daquela camada de proteção. De qualquer forma, entrando naquele ambiente estéril, ela nem faria mesmo falta! Não havia lá dentro do que precisar se proteger.
Entrou por aquele extenso corredor branco. Apesar de pouco poder captar de suas expressões, era capaz de sentir a repugnância dos guardas "intocados" ao ver as escamas de sua pele. Era notório que eles, a todo momento, desviavam os olhares.
- Vista esta roupa de chumbo!
- Não vou me sentir sufocado?
- Vai te isolar. O ambiente lá dentro é mantido a 15 graus celsius. Ela vai te deixar confortável. Sua radiação natural também vai te ajudar nisto.
Quinze graus?!! Santíssima Radiação!!! Quanta diferença para os 60 graus do exterior, proporcionados pelo abençoado efeito estufa do dióxido de carbono!
- Esta luz fria que ilumina aqui, qual sua frequência?
- Luz branca estritamente dentro do espectro visível, exceto por uma pequena parte de infravermelho para manter o calor. Nada mais.
- Sem ultravioleta?
- Nenhum traço desta radiação letal dentro de nossas minas. - explica um dos guardas.
Luz praticamente 100% fria? Por um instante Lagarto se sentiu entrando no círculo infernal de gelo descrito por Dante. Como era possível alguém viver confortavelmente em tal ambiente?
........................
Foram câmaras e mais câmaras de descompressão. Ele contou umas dez, mas pode ter perdido a contagem no meio do caminho. Precisou inclusive vestir uma segunda capa de chumbo sobre a primeira!! Sagrado Plutônio! Como devem ser frágeis estes "intocados" para precisarem de tanta proteção...
Chegou na cidade do centro da montanha envolto em tantas camadas de poliestireno impregnado de chumbo que mal podia se mover. Sentiu-se um extraterrestre, ou melhor, um astronauta caminhando sobre o solo de seu próprio planeta. A população de intocados se aglomerava em volta, mas sempre guardando uma certa distância. Temiam talvez mutações genéticas saltitantes atravessando aquelas duas capas de chumbo e contaminando seus genes inalterados por mais de um século? Olhou com mais cuidado para seus rostos, e pensou: "Que gente feia!! Todos perfeitos, simétricos, dois olhos da mesma cor, cinco dedos em cada mão, narizes perfeitamente centralizados no rosto, tão... tão iguais uns aos outros!!" Como se reconheciam? No mundo exterior as mutações genéticas forneciam individualidade a cada pessoa. Ciclope, por exemplo, possuía uma assimetria ocular incomum. Poucos desenvolviam tal mutação, e era a característica que o fazia ser, inquestionavelmente, o "Ciclope"! Ele, Lagarto, não tinha uma característica tão incomum assim nas escamas de sua pele. Mas apresentava diferença de pigmentação nos olhos, o direito verde e o esquerdo castanho escuro. E pelo menos na vizinhança de onde vivia era o único que apresentava tal combinação, o que o identificava como "O" Lagarto... Era sua identidade!
Lançou mais um olhar para os intocados. Tão iguais!!! Mais do que se reconhecerem: como é que um intocado sabia que ele era ele mesmo, e não outro intocado? 50% do DNA da mãe, mais 50% do DNA do pai, sem margem para as variações aleatória proporcionadas pelos raios gama dos isótopos radioativos. Como era possível viver num mundo assim?
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O diretor do Centro de Controle Genético apareceu com uma máscara cirúrgica no rosto. Grande Cogumelo Atômico, quanta hipocondria!!! Será que ele realmente temia tanto o abençoado contato radioativo, mesmo com tantas barreiras de chumbo que ele fôra obrigado a vestir? Estava claro que ele tentava evitar maiores contatos com o Lagarto. Ainda assim, lagarto tentou ser cordial:
- Os edifícios aqui em volta são bem baixos, não é?
- De fato! Recentemente limitamos em 1,5 metros a licença para propagação genética da estatura da nossa população. Isto nos permite construir edifícios de andares mais baixos, acomodando um maior número de pessoas em menos espaço. Isto é importante dentro destas montanhas, onde nosso espaço é limitado!
Lagarto olhou bem para o rosto do diretor: tão liso, tão perfeito, tão... repugnantemente simétrico! Toda aquela simetria bilateral começou a embrulhar seus três estômagos, e ele se segurou para não dar um vexame imperdoável naquele exato momento, regurgitando sua última refeição.
- Já sei o que você quer, não precisamos alongar muito este encontro.
- Ótimo, Senhor Diretor! Aqui estão os exames pré-natais da minha esposa. Espero que possa dar-lhes uma atenção especial.
- Pode estar certo de que vou colocá-los nas mãos de nossos melhores geneticistas. Trato é trato! De sua parte, também está tudo OK ?
- Certamente! Os núcleos radioativos de cada usina do topo da cordilheira de sal vão continuar gerando potencial elétrico limpo às suas cidades! Conversei em particular com cada um dos técnicos encarregados das barras de urânio...
- Nenhuma chance de contaminação?
Apesar de não compreender tanta relutância dos intocados em se exporem àquela bênção que os tiraria enfim da idade média evolutiva e de tanta dependência dos "seres exteriores", ele concordou:
- Sim, nenhuma "contaminação". Eu fiscalizei pessoalmente a instalação de cada uma das placas do maldito chumbo.
Aquele "maldito" lhe escapou sem querer, e o diretor percebeu isto. Mas fez questão de não comentar o deslize. Melhor assim!
- Dê-me seus exames. Verei o que meus geneticistas podem fazer. Se ficar comprovado que seu filho está se desenvolvendo normal, pode estar certo - engasgou neste ponto - hãm... que nós iremos acolhê-lo e ele conviverá normalmente em nossa sociedade. Será um humano intocado igual a qualquer outro, com todos os seus direitos garantidos!
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Pela reavaliação dos exames, o pior aconteceu: os geneticistas não puderam identificar no feto nenhuma anomalia genética significativa! Mas Lagarto iria até o final, não desistiria assim tão fácil! Apenas após a concepção, ao ficar claro que seu filho realmente nascera como um humano normal, totalmente desprotegido na superfície da Terra, é que ele o entregaria para viver naquele inferno esterilizado!
O novo ser começou a sair do ventre de sua esposa, de pernas abertas, a esquerda um pouco mais curta que a direita. Saiu a cabeça: dois olhos, orelhas, nariz... tudo normal!! Pele lisa sem escamas! Vê o resto do corpo saindo, expulso pelas contrações do parto. Dois braços idênticos, duas pernas...
É um menino. Mas infelizmente um menino normal: um pênis e dois testículos... Lagarto começa a entra em desespero! De fato isto condizia com a reavaliação dos geneticistas, mas no fundo ele ainda esperava que eles estivessem errados.
Enfim, saem os dois pés... perfeitos! O que ele e a esposa haviam feito de errado? Como tal criatura intocada poderia viver em seu mundo, junto de seus pais? A criança é levantada, e pendurado ao seu ventre se vê um único cordão umbilical. Só um umbigo!! O que ele fez para merecer tamanha desgraça??
Conformado em precisar entregar seu filho para os "intocados", ele pega sua mão pequenina: um, dois, três, quatro, cinco... seis dedos!!! Conta a outra: também seis!! Seis dedos, a marca da mutação tolerante ao arsênico! Enfim, seu filho poderia herdar suas terras, viver entre os seus! Olhou para as nuvens radioativas no céu, e fez uma prece de agradecimento com todas as forças que era capaz, lágrimas abundantes escorrendo de seu rosto:
- Muito obrigado, meu Santíssimo Arcanjo Megaton!!! Muito obrigado por meu filho NÃO TER NASCIDO NORMAL!!!
*** Fim ***
25/08/2011
Lados Siameses
Odeio o esquerdo, mais do que qualquer outra coisa na minha vida! Desde quando? Não estou muito certo, mas acredito que desde sempre. Começou na infância, e só vem aumentando até hoje. Você é comunista, socialista? Mil desculpas, acho que comecei mal esta narrativa! Não estou de forma alguma expressando minhas convicções políticas. Eu não odeio você, o que eu odeio é o lado esquerdo, todo metódico, controlador, previsível... Meu lado esquerdo é realmente insuportável!
Meu leitor é canhoto? Me perdoe de novo, também não odeio você. Acho que comecei errado mais uma vez. É lógico que não odeio meu lado esquerdo, aliás eu próprio sou canhoto! Na verdade nem tive muita opção, eu tinha necessáriamente de ser canhoto visto que este é o único lado do corpo sobre o qual tenho um certo controle. Deixe-me reformular a idéia: eu não odeio TODO o lado esquerdo do meu corpo. Só odeio uma parte dele, mais especificamente o hemisfério esquerdo do meu cérebro. Se este ódio é correspondido? Na verdade ele mal sabe da minha existência! Talvez sinta este meu ódio instintivamente, mas... não, definitivamente ele não tem esta capacidade. Todo racional, metódico, ele não deixa muito espaço para instintos. E é isto que me deixa maluco!
Mas parece que a estratégia dele funciona. A maior parte do tempo ele tem controle total dos dois lados do corpo, inclusive do lado esquerdo que é meu de direito. Ou (perdoem-me pelo trocadilho) eu tenho direito ao lado direito também? Acho que sim, pois é o mesmo lado em que se encontra minha metade dos hemisférios cerebrais. O lado esquerdo é meu por motivos neuronais, é o lado que eu controlo. Mas o direito também deveria sê-lo por motivos posicionais, pois se encontra do mesmo lado que o meu hemisfério. Porém só tenho controle sobre meu lado esquerdo e direito quando meu irmão adormece, e são estes os únicos momentos em que tenho um pouco de independência. Mas preciso ser cuidadoso para que ele não acorde, ou vai tudo por água abaixo. Acho que até poderia tentar competir com ele pelo controle do corpo em vigília, mas por enquanto quero que tudo continue como está, com meu irmão da esquerda desconhecendo minha existência.
É, anda não fui cem porcento claro: lógico que o esquerdo sabe que eu existo! Melhor, ele sabe que meu hemisfério existe, mas ele não tem idéia que tenho existência independente. Ele acha que o hemisfério direito e esquerdo é uno, que meu hemisfério também pertence a ele como todos os outros dois lados do corpo. Deixe que ele pense assim por enquanto, é adequado a meus propósitos.
Ele está começando a achar que está enlouquecendo. Isto porque, quando ele adormece e eu assumo controle, saboto sua vida: mudo coisas do lugar, desfaço o que ele fez durante o dia, discuto com seus amigos... Óbvio que ele nunca se lembra de nada disso! O cérebro do corpo que compartilhamos possue uma anomalia incomum, uma assimetria no feixe neural que liga os dois hemisférios cerebrais. Por um infeliz acaso, a conexão do meu lado esquerdo com o direito é mais eficiente do que a minha com ele, e é este o motivo de seu maior controle. Mas quando ele baixa a guarda, é quando eu aproveito para viver, fazer meus planos prosseguirem.
Várias vezes já sonhei com uma separaçaão cirúrgica, mas no meu caso isto é impossível. Mesmo em gêmeos siameses existe grande risco na separação dependendo do caso, ainda mais quando os órgão compartilhados são vitais. No nosso caso, compartilhamos todos os órgãos, inclusive o cérebro! Mais que gêmeos, somos LADOS SIAMESES! Sim, é impossível separar-nos e vivermos livres como duas metades... A única solução é realmente eu conseguir assumir controle sobre as duas metades, direita e esquerda. Mas como fazê-lo? Como disse antes, a única forma é tentar inutilizá-lo completamente, fazê-lo acreditar que está enlouquecendo e assim tirar dele o controle sobre as duas metades: a dele e a minha!
Como expliquei anteriormente, meu acesso ao hemisfério cerebral de meu irmão é limitado. Mais ainda quando tento fazê-lo de uma forma que ele não perceba. Felizmente aprendi como preservar dele minhas próprias memórias, minha afirmação de individualidade. Se eu armazeno minhas memórias de forma exclusivamente emocional ele é praticamente incapaz de decodificá-las. Eu percebo quando ele tenta usar o lado direito do cérebro, que é meu, e tento não me manifestar nestas horas para não denunciar minha existência. Quanta dependência!! Sempre que ele tenta me acessar, são aqueles momentos desesperados em que a razão se mostra inútil para resolver uma situação em particular. Quando ele conheceu a primeira e única namorada, por exemplo, que é atualmente sua noiva: quanta insegurança! Tentou de todas as formas apelar para sua ridícula racionalidade, primeiro negando que estava apaixonado, depois tentando achar algum assunto maçante para começar a conversa com a garota... Economia, situação política mundial? Por favor, ele achou mesmo que ela estava interessada nisto? Por fim apelou para seu irmão aqui, e muito a contragosto (para que ele não viesse a perceber minha existência) sugeri um comentário sobre gosto musical, pois percebi imediatamente o nome da banda estampada na camiseta da garota. Como ele pôde ser tão idiota assim de não ter percebido um pretexto tão óbvio para iniciar uma conversa? Digo a contragosto porque, apesar de perceber que meu irmão estava totalmente apaixonado, eu realmente detestei a garota. Durante estes últimos dois anos de namoro nunca deixei de demonstrá-lo. Será que ela é tão tapada a ponto de nunca perceber que aquelas agressões sem sentido sempre partiam do braço esquerdo, que eu era capaz de controlar se me esforçasse um pouco ?
Como aconteceu este caso tão particular de "dupla personalidade"? Realmente não sei responder. Existem casos parecidos? Como entrar na mente de outras pessoas para responder isto com certeza? Na verdade, nem chamaria isto de "dupla personalidade". As personalidades são distintas, não são alternadas!! Ele tem a dele, eu tenho a minha! O tempo todo! O que acontece é que ele tem controle sobre os atos do corpo que o hospeda a maior parte do tempo, enquanto meu controle é restrito aos momentos em que ele não está no comando. E isto nem acontece sempre, pois... eu também preciso dormir, né?
Ontem desmanchei o noivado com a garota. Disse a ela coisas que realmente não posso reproduzir aqui! Digo ONTEM porque foi antes da meia noite. Meu irmão já dormia, e é óbvio que quando acordar ele não vai ter a mínima noção do acontecido, pois não tem acesso a estas lembranças. Para mim nem foi tão difícil: como disse antes, nunca gostei mesmo da garota. Vejo meu irmão acordando, tentando entender o que "fez". Excelente! Vai reforçar ainda mais sua suspeita de que está enlouquecendo! Talvez se interne voluntariamente por segurança, e é neste momento que vou sugerir a ele (intuitivamente, é claro) a tomar o tal remédio. Já estudei seu efeito! Sei que, entre tantos que são colaterais, o crucial, o que realmente me interessa, é aquele que reforça a intensidade dos estímulos do hemisfério cerebral direito. Quer saber o nome dele? Esquece, eu não seria tão irresponsável a ponto de publicar aqui o nome do princípio ativo.
Enfim, todo o resto do plano parece correr como o planejado. Lógico, meu hemisfério não tem a capacidade de fazer tal tipo de planejamento racional, típico do lado direito, mas... apesar de limitado, eu também tenho acesso ao hemisfério do meu irmão! Usei-o como podia, para não fracassar. Arriscado? De certa forma sim, precisei ser cuidadoso para que ele não percebece minha presença enquanto elaborava o plano. Sei que ele vai ficar arrassado com o rompimento, pode até pensar em dar cabo da própria vida por causa disto, mas... não!! Numa situação de tão intensa tensão emocional ele vai querer me consultar antes de tomar alguma decisão! Esgotadas as soluções racionais ele vai me consultar, e já tenho uma resposta prontinha para ele, hehehehe!
FIM
Meu leitor é canhoto? Me perdoe de novo, também não odeio você. Acho que comecei errado mais uma vez. É lógico que não odeio meu lado esquerdo, aliás eu próprio sou canhoto! Na verdade nem tive muita opção, eu tinha necessáriamente de ser canhoto visto que este é o único lado do corpo sobre o qual tenho um certo controle. Deixe-me reformular a idéia: eu não odeio TODO o lado esquerdo do meu corpo. Só odeio uma parte dele, mais especificamente o hemisfério esquerdo do meu cérebro. Se este ódio é correspondido? Na verdade ele mal sabe da minha existência! Talvez sinta este meu ódio instintivamente, mas... não, definitivamente ele não tem esta capacidade. Todo racional, metódico, ele não deixa muito espaço para instintos. E é isto que me deixa maluco!
Mas parece que a estratégia dele funciona. A maior parte do tempo ele tem controle total dos dois lados do corpo, inclusive do lado esquerdo que é meu de direito. Ou (perdoem-me pelo trocadilho) eu tenho direito ao lado direito também? Acho que sim, pois é o mesmo lado em que se encontra minha metade dos hemisférios cerebrais. O lado esquerdo é meu por motivos neuronais, é o lado que eu controlo. Mas o direito também deveria sê-lo por motivos posicionais, pois se encontra do mesmo lado que o meu hemisfério. Porém só tenho controle sobre meu lado esquerdo e direito quando meu irmão adormece, e são estes os únicos momentos em que tenho um pouco de independência. Mas preciso ser cuidadoso para que ele não acorde, ou vai tudo por água abaixo. Acho que até poderia tentar competir com ele pelo controle do corpo em vigília, mas por enquanto quero que tudo continue como está, com meu irmão da esquerda desconhecendo minha existência.
É, anda não fui cem porcento claro: lógico que o esquerdo sabe que eu existo! Melhor, ele sabe que meu hemisfério existe, mas ele não tem idéia que tenho existência independente. Ele acha que o hemisfério direito e esquerdo é uno, que meu hemisfério também pertence a ele como todos os outros dois lados do corpo. Deixe que ele pense assim por enquanto, é adequado a meus propósitos.
Ele está começando a achar que está enlouquecendo. Isto porque, quando ele adormece e eu assumo controle, saboto sua vida: mudo coisas do lugar, desfaço o que ele fez durante o dia, discuto com seus amigos... Óbvio que ele nunca se lembra de nada disso! O cérebro do corpo que compartilhamos possue uma anomalia incomum, uma assimetria no feixe neural que liga os dois hemisférios cerebrais. Por um infeliz acaso, a conexão do meu lado esquerdo com o direito é mais eficiente do que a minha com ele, e é este o motivo de seu maior controle. Mas quando ele baixa a guarda, é quando eu aproveito para viver, fazer meus planos prosseguirem.
Várias vezes já sonhei com uma separaçaão cirúrgica, mas no meu caso isto é impossível. Mesmo em gêmeos siameses existe grande risco na separação dependendo do caso, ainda mais quando os órgão compartilhados são vitais. No nosso caso, compartilhamos todos os órgãos, inclusive o cérebro! Mais que gêmeos, somos LADOS SIAMESES! Sim, é impossível separar-nos e vivermos livres como duas metades... A única solução é realmente eu conseguir assumir controle sobre as duas metades, direita e esquerda. Mas como fazê-lo? Como disse antes, a única forma é tentar inutilizá-lo completamente, fazê-lo acreditar que está enlouquecendo e assim tirar dele o controle sobre as duas metades: a dele e a minha!
Como expliquei anteriormente, meu acesso ao hemisfério cerebral de meu irmão é limitado. Mais ainda quando tento fazê-lo de uma forma que ele não perceba. Felizmente aprendi como preservar dele minhas próprias memórias, minha afirmação de individualidade. Se eu armazeno minhas memórias de forma exclusivamente emocional ele é praticamente incapaz de decodificá-las. Eu percebo quando ele tenta usar o lado direito do cérebro, que é meu, e tento não me manifestar nestas horas para não denunciar minha existência. Quanta dependência!! Sempre que ele tenta me acessar, são aqueles momentos desesperados em que a razão se mostra inútil para resolver uma situação em particular. Quando ele conheceu a primeira e única namorada, por exemplo, que é atualmente sua noiva: quanta insegurança! Tentou de todas as formas apelar para sua ridícula racionalidade, primeiro negando que estava apaixonado, depois tentando achar algum assunto maçante para começar a conversa com a garota... Economia, situação política mundial? Por favor, ele achou mesmo que ela estava interessada nisto? Por fim apelou para seu irmão aqui, e muito a contragosto (para que ele não viesse a perceber minha existência) sugeri um comentário sobre gosto musical, pois percebi imediatamente o nome da banda estampada na camiseta da garota. Como ele pôde ser tão idiota assim de não ter percebido um pretexto tão óbvio para iniciar uma conversa? Digo a contragosto porque, apesar de perceber que meu irmão estava totalmente apaixonado, eu realmente detestei a garota. Durante estes últimos dois anos de namoro nunca deixei de demonstrá-lo. Será que ela é tão tapada a ponto de nunca perceber que aquelas agressões sem sentido sempre partiam do braço esquerdo, que eu era capaz de controlar se me esforçasse um pouco ?
Como aconteceu este caso tão particular de "dupla personalidade"? Realmente não sei responder. Existem casos parecidos? Como entrar na mente de outras pessoas para responder isto com certeza? Na verdade, nem chamaria isto de "dupla personalidade". As personalidades são distintas, não são alternadas!! Ele tem a dele, eu tenho a minha! O tempo todo! O que acontece é que ele tem controle sobre os atos do corpo que o hospeda a maior parte do tempo, enquanto meu controle é restrito aos momentos em que ele não está no comando. E isto nem acontece sempre, pois... eu também preciso dormir, né?
Ontem desmanchei o noivado com a garota. Disse a ela coisas que realmente não posso reproduzir aqui! Digo ONTEM porque foi antes da meia noite. Meu irmão já dormia, e é óbvio que quando acordar ele não vai ter a mínima noção do acontecido, pois não tem acesso a estas lembranças. Para mim nem foi tão difícil: como disse antes, nunca gostei mesmo da garota. Vejo meu irmão acordando, tentando entender o que "fez". Excelente! Vai reforçar ainda mais sua suspeita de que está enlouquecendo! Talvez se interne voluntariamente por segurança, e é neste momento que vou sugerir a ele (intuitivamente, é claro) a tomar o tal remédio. Já estudei seu efeito! Sei que, entre tantos que são colaterais, o crucial, o que realmente me interessa, é aquele que reforça a intensidade dos estímulos do hemisfério cerebral direito. Quer saber o nome dele? Esquece, eu não seria tão irresponsável a ponto de publicar aqui o nome do princípio ativo.
Enfim, todo o resto do plano parece correr como o planejado. Lógico, meu hemisfério não tem a capacidade de fazer tal tipo de planejamento racional, típico do lado direito, mas... apesar de limitado, eu também tenho acesso ao hemisfério do meu irmão! Usei-o como podia, para não fracassar. Arriscado? De certa forma sim, precisei ser cuidadoso para que ele não percebece minha presença enquanto elaborava o plano. Sei que ele vai ficar arrassado com o rompimento, pode até pensar em dar cabo da própria vida por causa disto, mas... não!! Numa situação de tão intensa tensão emocional ele vai querer me consultar antes de tomar alguma decisão! Esgotadas as soluções racionais ele vai me consultar, e já tenho uma resposta prontinha para ele, hehehehe!
FIM
02/08/2011
Salada de Gente
- Francamente, Lycopodium! Não sei por que insisto nesta besteira...
- Sei muito bem o que vi, Selaginella!
Selaginella Rupestris ainda achava uma perda de tempo e completo desperdício de energia se deslocarem por centenas de anos luz só para “comprovar” uma idéia de Lycopodium que já poderia ser considerada um absurdo logo de cara. Olhou o amigo com um ar de desconfiança.
- Animalias ambulantes? Lyco, por acaso você andou fumando espongiários de novo?
Selaginella estava sendo cruel: por um instante ele se imaginou tragando os vapores hormonais daquele longo tubo de tecido animal, uma ponta acesa e a outra escostando em suas caviades aéreas. Não, ele não voltaria a fazer isto. Precisava resistir à tentação.
- Você sabe muito bem que não faço mais isto. Sei muito bem o que eu vi naquele planeta azul.
- Não pode ter se enganado? Talvez tenha sido o vento batendo nestes animalias que te fez achar que se moviam. Ou quem sabe apenas anemóides gigantes, movendo os tentáculos em torno da boca.
- Não, eu vi muito bem! Elas tinham autonomia completa, não eram sésseis como as animálias lá do nosso mundo.
- Ah, tem mais essa agora... Animalias sem raízes, é o que você quer dizer? Movendo-se de um lado para outro sem precisarem se fixar em sedimentos? Por favor, agora você está indo longe demais.
- Espere e verá. A propósito, lá esta o planeta azul que te falei! Estamos chegando perto.
A nave não era propriaprente o que se poderia chamar de disco voador. Na verdade era esférica, e nem ao menos era metálica. Tinha uma textura diferente, basicamente um coco gigante! Dois seres sairam de dentro deste coco, e tinham aproxidamente uns três, talvez quatro metros de altura. Moviam com destreza cinco patas inferiores articuladas, espaçadas igualmente em torno do seu tronco cilíndrico de formato ligeiramente pentagonal. Eles eram verdes, como a maioria das pessoas imagina que sejam seres extraterrestres. Só que definitivamente não eram “homenzinhos verdes”. Se não fosse pelo fato de se moverem com habilidade e aparentemente não estarem enraizadas no chão de forma nenhuma, qualquer um afirmaria que estes seres extraterrestres eram vegetais!
- Olha ali, Selaginella!!! Uma das animalias ambulantes de que te falei!
O pobre coiote mal teve tempo de emitir seu último uivo antes de ser partido em dois por uma garra esverdeada recoberta de espinhos cortantes.
- Ora, mas são bastante frágeis as animalias deste planeta, não é?
- Que está fazendo, Lyco? Pode ser venenoso!
- Já que estamos aqui, não custa nada experimentar.
Lycopodium levou a garra até uma apertura no topo do prisma pentagonal que constituía seu corpo.
- Hmmm, não diria que é o melhor tecido animalia que já provei, mas também não é de todo desagradável. Pena que é pequeno demais, dá só para um aperitivo mesmo...
Selaginella não pôde conter a curiosidade, e também provou um pedaço da carne do coiote.
- Talvez com uma pitada de nitrato isto fique mais palatável. Que acha?
- Só sei que esta animalia me abriu o apetite. Venha, lembro de ter visto espécimes maiores aqui por perto.
O espécime maior que os vegetanos encontraram ela o azarado Carlos Lineu, que nada entendeu ao ver aquelas duas árvores avançando em sua direção. Berrou, tentou protestar, se comunicar de alguma forma... Mas só percebeu a inutilidade de seus esforços depois que seu antebraço esquerdo foi arrancado por aquela garra verde. Berrou muito mais do que imaginava ser capaz de fazer, mas inteligentemente concluiu que sua única chance era correr... enquanto ainda tinha pernas.
- Selaginella, não te pareceu que este animalia tenha tentado se comunicar conosco?
- Não seja ridículo, Lycopodium! Vai começar agora a conversar com sua comida também?
- Mas não te parece que o espécime esteja fugindo?
- Oras bolas, espasmos musculares comuns dos animalias! Estes são bem particulares mesmo. Acredito que ele pare de se mover se cortarmos aqueles seus dois apêncides inferiores.
E foi assim que Carlos Lineu perdeu também as pernas, e ficou a se contorcer no chão daquela estrada deserta. Os dois vegetanos levavam à boca central os apêndices recém-amputados do pobre Lineu. Acha que eles estavam sendo cruéis? Não, então você ainda não foi capaz de compreender o ponto de vista destes seres. Você acharia crueldade ver um coelho arrancando pedaços de uma cenoura? Óbvio que não! Mas estou certo que uma outra cenoura observando isto acharia a cena abominável...
- Tão pouca carne, e ainda tem este caroço branco duro no meio dela... Sabe o que é?
- Parece ser feito de cálcio... É bastante duro mesmo!
- E a carne nem é tão boa. Já comi animalias mais saborosas que esta.
Carlos Lineu já havia desfalecido quando Selaginella tocou sua barriga com as garras vegetais.
- Este pedaço aqui parece mais mole. Quer experimentar?
Rasgou o abdomem de Carlos (a esta altura, já mortinho da silva!) e puxou para fora suas tripas. Enzimas digestivas começaram a escorrer dos estames em torno de sua boca central.
- Humm, isto está parecendo mais interessante! Ainda mais com toda esta solução vermelha de hemoglobina e plasma escorrendo. – e levou parte das tripas de Carlos até a boca, digerindo-a com satisfação.
- Sei não, já provei coisas melhores.
Deixaram o cadáver de lado, desinteressados.
- Me parece que o fato dos animalias deste planeta se moverem com independência não passa de uma curiosidade. Nem saborosos eles são! Prefiro muito mais aqueles que cultivamos no nosso planeta.
- Podemos tentar fazer cruzamento de espécies, caso encontremos algum mais interessante. Combiná-los com o DNA de anêmonas, por exemplo, para que eles fiquem anemonados no chão ao invés de sairem pulando por aí...
- É uma idéia. Mas depois desta experiência, não acho que vamos encontrar nada muito mais interessante.
- O nosso espião, será que já chegou naquele aglomerado animalia? Já que estamos aqui, não custa nada dar mais uma espiada, não concorda?
O espião de que eles falavam era um vegetano pequeno, despretencioso, que mais lembraria um simples cacto se não fosse pelo fato de que... ele andava! Espículas oculares espalhadas por todo seu corpo lhe davam uma visão de 360 graus do ambiente, visão esta que era transmitida aos dois vegetanos principais. Foi caminhando com cautela para uma pequena cidade, até uma porta onde se lia no alto, escrito em uma placa: Restaurante Vegetariano. É lógico que nem o espião nem os vegetanos souberam decodificar estes dizeres. Só mesmo em filmes B de ficção científica é que os extraterrestres chegam de uma longínqua civilização localizada a milhares de anos luz da terra já nos saudando em inglês, português, ou que lingua humana for, com um “Viemos em paz”. Aqui estamos falando da vida real, e obviamente os vegetanos não sabiam falar, e muito menos ler palavras escritas em português. Foi por isto que o pequeno cacto espião entrou despretenciosamente no restaurante.
- Está vendo quantos animalias ambulantes, Selaginella? Eu disse que tinha razão.
- Sim, de fato. Mas... o que eles estão fazendo?
- Comendo, parece.
- Ora, que besteira! Animalias não comem! Qualquer mudinha vegetana aprende na escola que tudo o que eles fazem é reaproveitar os dejetos que nós eliminamos, na forma de tubérculos açucarados. É assim que eliminamos o excesso de açucar que produzimos.
- Me parece que eles estão comendo sim. Será que nosso espião conseguiria se aproximar melhor para vermos o que é?
O espião subiu, viu, e estremeceu com o que viu. Bandejas e mais bandejas cheias de... folhas!!! Caules mutilados, temperados com óleo, cloreto de sódio e seivas fermentadas!! Uma visão de pesadelo!
- MONSTROS!!! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO???!!
A seiva elaborada começou a azedar dentro dos floemas de Selaginella.
- Por favor, se controle! Deve ter uma explicação para isto.
- Como podem fazer isto?? - óleos aromáticos começavam a escorrer de cada um dos cinco pistilos oculares de Selaginella. – Estas folhas ainda estão vivas! VIVAS, Lycopodium! Devoradas vivas por animalias!
O amigo tentou interromper, mas foi em vão: Selaginella já avançava em direção ao restaurante disposta a vingar as pobres folhas mutiladas.
Nenhum dos freqüentadores do restaurante teve tempo sequer de começar a compreender a carnificina que estava começando. Selaginella decepava membros, cabeças, partia corpos ao meio com suas longas garras espinhosas. Estava descontrolada! Lycopodium apenas observava, ao descobrir que era inútil tentar contê-la. Quando tudo pareceu se acalmar, ele tomou um objeto esférico entre suas garras: uma cabeça humana decepada. Atirou-a contra o chão, e ela se abriu. Uma massa cinzenta saía das metades de crânio separadas.
- Olha aqui, Selaginella! Isto parece interessante.
Levou um pedaço daquela massa cinzenta à boca central. A sensação era indescritível!
- É a coisa mais deliciosa que já provei em toda a minha vida!!
Selaginella fez o mesmo. Enfim, a viagem até aquele planeta não havia sido em vão! Acabaram descobrindo uma das maiores iguarias de toda a galáxia: cérebros humanos! Levaram amostras para seu planeta, na tentativa de cultivar. Não o humano todo, mas apenas suas cabeças, brotando do corpo de anemonóides gigantes. Ainda faltavam mais pesquisas para conseguir produzir estas cabeças em larga escala a ponto de fornecê-las para o resto da galáxia, mas até lá podiam ir se virando com as seis bilhões que já existiam no planeta azul.
FIM
- Sei muito bem o que vi, Selaginella!
Selaginella Rupestris ainda achava uma perda de tempo e completo desperdício de energia se deslocarem por centenas de anos luz só para “comprovar” uma idéia de Lycopodium que já poderia ser considerada um absurdo logo de cara. Olhou o amigo com um ar de desconfiança.
- Animalias ambulantes? Lyco, por acaso você andou fumando espongiários de novo?
Selaginella estava sendo cruel: por um instante ele se imaginou tragando os vapores hormonais daquele longo tubo de tecido animal, uma ponta acesa e a outra escostando em suas caviades aéreas. Não, ele não voltaria a fazer isto. Precisava resistir à tentação.
- Você sabe muito bem que não faço mais isto. Sei muito bem o que eu vi naquele planeta azul.
- Não pode ter se enganado? Talvez tenha sido o vento batendo nestes animalias que te fez achar que se moviam. Ou quem sabe apenas anemóides gigantes, movendo os tentáculos em torno da boca.
- Não, eu vi muito bem! Elas tinham autonomia completa, não eram sésseis como as animálias lá do nosso mundo.
- Ah, tem mais essa agora... Animalias sem raízes, é o que você quer dizer? Movendo-se de um lado para outro sem precisarem se fixar em sedimentos? Por favor, agora você está indo longe demais.
- Espere e verá. A propósito, lá esta o planeta azul que te falei! Estamos chegando perto.
A nave não era propriaprente o que se poderia chamar de disco voador. Na verdade era esférica, e nem ao menos era metálica. Tinha uma textura diferente, basicamente um coco gigante! Dois seres sairam de dentro deste coco, e tinham aproxidamente uns três, talvez quatro metros de altura. Moviam com destreza cinco patas inferiores articuladas, espaçadas igualmente em torno do seu tronco cilíndrico de formato ligeiramente pentagonal. Eles eram verdes, como a maioria das pessoas imagina que sejam seres extraterrestres. Só que definitivamente não eram “homenzinhos verdes”. Se não fosse pelo fato de se moverem com habilidade e aparentemente não estarem enraizadas no chão de forma nenhuma, qualquer um afirmaria que estes seres extraterrestres eram vegetais!
- Olha ali, Selaginella!!! Uma das animalias ambulantes de que te falei!
O pobre coiote mal teve tempo de emitir seu último uivo antes de ser partido em dois por uma garra esverdeada recoberta de espinhos cortantes.
- Ora, mas são bastante frágeis as animalias deste planeta, não é?
- Que está fazendo, Lyco? Pode ser venenoso!
- Já que estamos aqui, não custa nada experimentar.
Lycopodium levou a garra até uma apertura no topo do prisma pentagonal que constituía seu corpo.
- Hmmm, não diria que é o melhor tecido animalia que já provei, mas também não é de todo desagradável. Pena que é pequeno demais, dá só para um aperitivo mesmo...
Selaginella não pôde conter a curiosidade, e também provou um pedaço da carne do coiote.
- Talvez com uma pitada de nitrato isto fique mais palatável. Que acha?
- Só sei que esta animalia me abriu o apetite. Venha, lembro de ter visto espécimes maiores aqui por perto.
O espécime maior que os vegetanos encontraram ela o azarado Carlos Lineu, que nada entendeu ao ver aquelas duas árvores avançando em sua direção. Berrou, tentou protestar, se comunicar de alguma forma... Mas só percebeu a inutilidade de seus esforços depois que seu antebraço esquerdo foi arrancado por aquela garra verde. Berrou muito mais do que imaginava ser capaz de fazer, mas inteligentemente concluiu que sua única chance era correr... enquanto ainda tinha pernas.
- Selaginella, não te pareceu que este animalia tenha tentado se comunicar conosco?
- Não seja ridículo, Lycopodium! Vai começar agora a conversar com sua comida também?
- Mas não te parece que o espécime esteja fugindo?
- Oras bolas, espasmos musculares comuns dos animalias! Estes são bem particulares mesmo. Acredito que ele pare de se mover se cortarmos aqueles seus dois apêncides inferiores.
E foi assim que Carlos Lineu perdeu também as pernas, e ficou a se contorcer no chão daquela estrada deserta. Os dois vegetanos levavam à boca central os apêndices recém-amputados do pobre Lineu. Acha que eles estavam sendo cruéis? Não, então você ainda não foi capaz de compreender o ponto de vista destes seres. Você acharia crueldade ver um coelho arrancando pedaços de uma cenoura? Óbvio que não! Mas estou certo que uma outra cenoura observando isto acharia a cena abominável...
- Tão pouca carne, e ainda tem este caroço branco duro no meio dela... Sabe o que é?
- Parece ser feito de cálcio... É bastante duro mesmo!
- E a carne nem é tão boa. Já comi animalias mais saborosas que esta.
Carlos Lineu já havia desfalecido quando Selaginella tocou sua barriga com as garras vegetais.
- Este pedaço aqui parece mais mole. Quer experimentar?
Rasgou o abdomem de Carlos (a esta altura, já mortinho da silva!) e puxou para fora suas tripas. Enzimas digestivas começaram a escorrer dos estames em torno de sua boca central.
- Humm, isto está parecendo mais interessante! Ainda mais com toda esta solução vermelha de hemoglobina e plasma escorrendo. – e levou parte das tripas de Carlos até a boca, digerindo-a com satisfação.
- Sei não, já provei coisas melhores.
Deixaram o cadáver de lado, desinteressados.
- Me parece que o fato dos animalias deste planeta se moverem com independência não passa de uma curiosidade. Nem saborosos eles são! Prefiro muito mais aqueles que cultivamos no nosso planeta.
- Podemos tentar fazer cruzamento de espécies, caso encontremos algum mais interessante. Combiná-los com o DNA de anêmonas, por exemplo, para que eles fiquem anemonados no chão ao invés de sairem pulando por aí...
- É uma idéia. Mas depois desta experiência, não acho que vamos encontrar nada muito mais interessante.
- O nosso espião, será que já chegou naquele aglomerado animalia? Já que estamos aqui, não custa nada dar mais uma espiada, não concorda?
O espião de que eles falavam era um vegetano pequeno, despretencioso, que mais lembraria um simples cacto se não fosse pelo fato de que... ele andava! Espículas oculares espalhadas por todo seu corpo lhe davam uma visão de 360 graus do ambiente, visão esta que era transmitida aos dois vegetanos principais. Foi caminhando com cautela para uma pequena cidade, até uma porta onde se lia no alto, escrito em uma placa: Restaurante Vegetariano. É lógico que nem o espião nem os vegetanos souberam decodificar estes dizeres. Só mesmo em filmes B de ficção científica é que os extraterrestres chegam de uma longínqua civilização localizada a milhares de anos luz da terra já nos saudando em inglês, português, ou que lingua humana for, com um “Viemos em paz”. Aqui estamos falando da vida real, e obviamente os vegetanos não sabiam falar, e muito menos ler palavras escritas em português. Foi por isto que o pequeno cacto espião entrou despretenciosamente no restaurante.
- Está vendo quantos animalias ambulantes, Selaginella? Eu disse que tinha razão.
- Sim, de fato. Mas... o que eles estão fazendo?
- Comendo, parece.
- Ora, que besteira! Animalias não comem! Qualquer mudinha vegetana aprende na escola que tudo o que eles fazem é reaproveitar os dejetos que nós eliminamos, na forma de tubérculos açucarados. É assim que eliminamos o excesso de açucar que produzimos.
- Me parece que eles estão comendo sim. Será que nosso espião conseguiria se aproximar melhor para vermos o que é?
O espião subiu, viu, e estremeceu com o que viu. Bandejas e mais bandejas cheias de... folhas!!! Caules mutilados, temperados com óleo, cloreto de sódio e seivas fermentadas!! Uma visão de pesadelo!
- MONSTROS!!! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO???!!
A seiva elaborada começou a azedar dentro dos floemas de Selaginella.
- Por favor, se controle! Deve ter uma explicação para isto.
- Como podem fazer isto?? - óleos aromáticos começavam a escorrer de cada um dos cinco pistilos oculares de Selaginella. – Estas folhas ainda estão vivas! VIVAS, Lycopodium! Devoradas vivas por animalias!
O amigo tentou interromper, mas foi em vão: Selaginella já avançava em direção ao restaurante disposta a vingar as pobres folhas mutiladas.
Nenhum dos freqüentadores do restaurante teve tempo sequer de começar a compreender a carnificina que estava começando. Selaginella decepava membros, cabeças, partia corpos ao meio com suas longas garras espinhosas. Estava descontrolada! Lycopodium apenas observava, ao descobrir que era inútil tentar contê-la. Quando tudo pareceu se acalmar, ele tomou um objeto esférico entre suas garras: uma cabeça humana decepada. Atirou-a contra o chão, e ela se abriu. Uma massa cinzenta saía das metades de crânio separadas.
- Olha aqui, Selaginella! Isto parece interessante.
Levou um pedaço daquela massa cinzenta à boca central. A sensação era indescritível!
- É a coisa mais deliciosa que já provei em toda a minha vida!!
Selaginella fez o mesmo. Enfim, a viagem até aquele planeta não havia sido em vão! Acabaram descobrindo uma das maiores iguarias de toda a galáxia: cérebros humanos! Levaram amostras para seu planeta, na tentativa de cultivar. Não o humano todo, mas apenas suas cabeças, brotando do corpo de anemonóides gigantes. Ainda faltavam mais pesquisas para conseguir produzir estas cabeças em larga escala a ponto de fornecê-las para o resto da galáxia, mas até lá podiam ir se virando com as seis bilhões que já existiam no planeta azul.
FIM
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