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05/07/2011

O MIRANTE GEOCÊNTRICO

Não conseguia imaginar um ponto de observação astronômico melhor que aquele. Com aquele céu límpido pontilhado de estrelas era impossível não ter a ilusão perfeita de estar no centro de uma gigantesca abóbada, observando o resultado de um mecanismo oculto atrás de uma parede inatingível. Mas havia uma mancha de cor leitosa dividindo em duas esta abóbada de absoluto breu, pontilhada aqui e ali por pontos luminosos isolados: era a via-láctea. Em pleno século XXI, logicamente eu sabia que não estava observando aquilo tudo do centro de coisa alguma. Mas naquele lugar especial era até possível entender porque nós, seres humanos tão orgulhosos de nossa racionalidade, demoramos tanto tempo até compreender que estávamos errados na interpretação daquilo que víamos na "abóbada celeste".

Havia uma grama aconchegante cobrindo toda aquela planície. Árvores mais altas, de copas densas, cercavam aquele meio-círculo coberto de grama, exceto por duas trilhas que entravam por entre estas árvores, uma de cada lado do semicírculo. À frente, direção oeste, havia uma cerca. Além desta cerca, um precipício. A cerca era bem frágil, e ficava óbvio que sua finalidade não era realmente a de impedir que alguém caísse no tal precipício caso estivesse determinado a isto. Ela só estava lá para lembrar que havia um precipício neste lugar, que dificilmente seria percebido de outra forma. Ao se aproximar desta cerca baixa, que mal chegava à altura da cintura, via-se lá embaixo uma praia cercada de altos paredões rochosos dos dois lados. Em frente se via o horizonte do oceano, onde neste exato momento aparecia um dos últimos pedaços dourados do sol. Um pouco antes das cercas que avisavam daquele mortal precipício havia um banco de madeira, praticamente no meio do semicírculo cercado pelas árvores. Sim, havia uma simetria quase artificial naquele mirante que reforçava ainda mais a ilusão de se estar observando o céu a partir do centro de uma esfera cósmica.

Quando a vi chegando pela primeira vez daquela trilha da direita eu estava observando a estrela alfa de Órion, a gigante vermelha Betelgeuse. Fazia observações a olho nu, algo bastante natural naquela situação em particular, de céu tão límpido à beira do mar. Por isto fiquei bastante intrigado vendo aquela criatura chegar com todo seu aparato mecânico. Mas aquele local de observação comportava sem problema algum dois observadores, de modo que neste primeiro encontro fiquei quieto no meu canto, fazendo minhas observações, enquanto ela fazia as dela a alguma distância. Bom, admito que minha timidez também contribuiu para que a aproximação não tivesse ocorrido desta primeira vez.

No dia seguinte ela voltou com todo o seu aparato: astrolábio, telescópio, bússola... Para mim bastava uma carta celeste e uma lanterna. Na verdade a lanterna era quase desnecessária, pois havia uma lua cheia formidável naquela noite! Isto me motivou a deixar um pouco de lado a procura de estrelas de baixa magnitude para observar os detalhes da superfície lunar, por muito tempo confundidos com mares e oceanos. Notei que ela também se ocupava da mesma tarefa, porém com a inestimável ajuda do jogo de lentes de seu telescópio. Trocamos alguns olhares, mas continuamos cada um em seu canto fazendo as próprias observações astronômicas. E assim foram mais dois, três, quatro dias.

No quinto dia ela chegou antes de mim. Não me lembrava muito bem se eu havia chegado pela trilha da direita ou da esquerda naquele mirante. Ou melhor... sim, definitivamente vim pela da direita, a que ela sempre havia tomado nos dias anteriores. Se não fosse assim, com certeza não teria passado por ela ao chegar. Desta vez eu trazia um binóculo, numa esperança remota de ver a débil mancha de um novo cometa no céu, recentemente descoberto. Como sempre nos últimos dias, o céu estava límpido. Com alguma sorte, eu conseguiria ver alguma coisa pelo meu modesto binóculo.

- Ah! Também resolveu se render à tecnologia?

Demorei um pouco para notar que ela havia me dito algo, e um pouco mais para entender o que dizia. Lembrando do binóculo que trazia pendurado ao pescoço, retribui com um sorriso. Olhei bem para ela: era uma moça bem bonita! Pensei: "Será que é astrônoma, ou estudante de astronomia?" Olhei para o equipamento que ela trazia para observação e logo percebi a idiotice de minha pergunta: "Não ela não estuda astronomia nada!! Esse telescópio que ela trás aqui é para caçar borboleta..." Ainda bem que esta pergunta ficou só em pensamento! Nunca me perdoaria se parecesse um imbecil logo na primeira meia dúzia de palavras que trocasse com aquela desconhecida. Achei melhor permanecer em silêncio pelo menos mais aquela vez, e fui para meu canto habitual de observação enquando ela permaneceu no dela. Para falar a verdade, desta vez eu fiquei um pouco mais perto dela do que o habitual.

Cerca de 2 horas da manhã, e o cometa alvo de minha observação deveria agora estar no zênite. Terminei de comer meu lanche de sanduíche de atum e olhei para cima, pelo meu binóculo. Sabia que ele deveria estar a cerca de um quarto de grau daquela estrela, mas por mais que procurasse não consegui ver o mínimo brilho de sua cauda. Nada! Foi frustrante. Percebi que ela também não estava obtendo resultados, mesmo com um equipamento bem mais potente. Se ela nada estava conseguindo com aquele caro telescópio, que chance eu tinha de ver algo com este binóculo barato? Mas continuei tentando a noite toda por pura teimosia. Lógico que não vi nada. Ela havia percebido meu desapontamento, pois tentou me consolar:

- Ainda está muito longe hoje! Amanhã ele vai estar mais perto da Terra, então será mais brilhante. Talvez tenhamos mais sorte...

Não respondi nada de novo, temendo falar qualquer besteira. É incrível como um rosto bonito é capaz de nos deixar mudos! Mas respondi sorrindo com o olhar, concordando que amanhã teríamos melhores resultados.

...............................

Voltei no dias seguinte por volta de 8 horas da noite. Aquele astro errante cruzava o céu a uma velocidade vertiginosa, de tal forma que ele deveria aparecer hoje nascendo por detrás das copas das árvores daquele semicírculo por volta de 10 horas da noite. Havia pouco tempo para eu fazer um rápido lanche e fixar uma pequena luneta ao tripé, que achava mais apropriado para a observação do que aquele ridículo binóculo da noite anterior. Ela chegou por volta de 15 para as 9 horas, pela trilha de sempre. Mas desta vez estava mais atrapalhada em trazer o equipamento, e logo percebi o porquê: ela trazia dois telescópios! Montou tudo, comeu rapidamente um lanche que tirara da mochila, e então se dirigiu a mim:

- Acho que você não vai conseguir enxergar nada nesta lunetinha aí. Te trouxe um telescópio!

Lutei violentamente contra a gagueira, mas finalmente respondi:

- Obrigado!

Era um excelente equipamento, possuindo até mesmo um servomecanismo programável capaz de corrigir a rotação da terra para acompanhar seu alvo no céu. O cometa foi pontual! Mas que observação ridícula, não é mesmo? Por que não seria? Felizmente consegui evitar de vocalizar também este comentário. Não sei, talvez não tenha conseguido evitar e tenha pensado alto, pois a ouvi dizer:

- Por que ele atrasaria? Acha que o cometa seria louco em desrespeitar uma ordem de Sir Isaac Newton? - e me abre um sorriso maravilhoso.

- Não, lógico que não! - foi o que me limitei a responder, evitando fazer qualquer outro comentário infeliz.

Ela havia ajustado muito bem o servomecanismo dos telescópios, pois por várias horas ele seguiu perfeitamente no céu aquela mancha tênue do cometa corrigindo a rotação da terra, sem que nunca a imagem desviasse do centro da ocular do equipamento. Percebi que ela não era apenas uma observadora de estrelas amadora como eu, mas que deveria ter uma prática diária com isto. Tomei coragem e perguntei:

- Você estuda astronomia?

- Estudei. Hoje trabalho com isto. Sou astrônoma profissional.

- Eu desconfiava que sim. Sabe, quando te vi chegando com os telescópios... - ops! meu desconfiômetro de comentários cretinos disparou neste momento. Tentei emendar uma pergunta para mudar de assunto: - Qual o seu nome?

- Ágata.

Me pareceu que ela completaria com "E o seu?", mas não o fez. Na verdade, pareceu que seu sorriso se apagou por um breve instante. Mas senti um alívio enorme por ela não ter perguntado isto, porque... eu não lembrava!!! Não é a coisa mais idiota do mundo? Que garota era esta capaz de me balançar tanto a ponto de me escapar, por uns momentos, meu próprio nome? Eu simplesmente não me lembrava qual era o meu nome naquela hora, e teria ficado numa situação muito embaraçosa se Ágata tivesse me perguntado isto. Felizmente ela não perguntou. Mas mesmo assim, também fiquei intrigado em entender por que ela NÃO PERGUNTOU. Não seria a continuação esperada daquele diálogo, em que dois desconhecidos se apresentam?

- É estranho perceber que nos dias de hoje ainda se descobre cometas assim, vindo sem aviso nenhum, não é? - tentei mudar de assunto. Ela pareceu aliviada com a mudança.

- Sim, este cometa é bem particular. Normalmente se procura cometas ou asteróides novos que tenham órbitas bem próximas do plano da eclíptica. Mas este é diferente, a órbita dele é quase perpendicular ao plano da eclíptica. Ninguém espera encontrar cometas vindo desta direção, e foi por isso que demorou tanto para alguém perceber que ele estava perto.

Me aproximei novamente da ocular do telescópio para observá-lo.

- Espero que não caia na nossa cabeça! - ah não! aqui estou eu de novo falando besteiras....

- Fica tranqüilo, isso não vai acontecer. - abrindo o olho direito um pouco, o que não estava na ocular do telescópio, percebo que Ágata tenta tocar minha mão. Mas vejo que ela recua, e também acho melhor não comentar nada.

Havia algo particular naquele cometa: parecia ter duas caudas. Deveria comentar isto com ela? Estava claro que elas existiam, não podia estar vendo coisas. Tomei coragem:

Estranho, parece que ele tem duas caudas.

Ele tem sim, não é tão raro isto acontecer.

Uma cauda brilhante apontava na direção contrária daquela onde deveria estar osol. Outra, um pouco menor, se desviava numa curva.

- A mais brilhante é iônica, feita de partículas carregadas eletricamente e repelidas pela força do vento solar. A que faz uma curva é de poeira bem fina, deslocadas pela pressão dos raios solares. Ela se curva porque a força de repulsão é bem mais fraca.

- Pressão da luz? Isto é novidade para mim...

- Não dá para perceber aqui, a atmosfera é densa demais para isto ser observável. Mas em ambiente de quase vácuo é perceptível, apesar de fraco. Já ouviu falar da idéia de veleiros interestelares?

- Naves que seriam capazes de se mover com o vento solar?

- Não, estes são os veleiros solares. Dentro do sistema solar faz mais sentido usar estes mesmo, pois a força do vento solar é bem maior que a pressão da luz. Mas entre as estrelas, onde os efeitos do vento solar seriam irrisórios, a idéia é ser mesmo empurrado pela luz, usando a pressão dos fótons colidindo numa superfície refletora gigantesca. O efeito é pequeno, mas constante e de graça. Se não existir muita pressa em chegar ao destino, é a forma ideal de se viajar entre as estrelas.

A noite continuou com nós especulando vários meios de se transportar pelo espaço num futuro próximo, ou distante... Talvez distante demais, mas era bom poder sonhar com eles. Não percebi o tempo passando, nem como acabou, como e quando ela foi embora, como voltei... Mas achei incrível poder discutir estas idéias malucas com mais alguém.

.........................

A passagem daquele cometa realmente havia sido muito rápida, de forma que no dia seguinte ele já estava tão longe da Terra que nem o telescópio de Ágata ela capaz de torná-lo visível. Eu ainda não me sentia bem à vontade com Ágata, mas ela já se mostrava bastante falante. Era mesmo entusiasmada com seu trabalho, falava de suas pesquisas com exoplanetas, as técnicas para detectá-los, a descoberta de anãs marrons extremamente frias...

- A temperatura na superfície destas estrelas é apenas um pouco maior que a da água fervente. Até mesmo mercúrio, um minúsculo planeta do nosso sistema solar, é mais quente que este tipo de estrela.

Apesar de bastante interessado pelo assunto, minhas observações eram meramente as de um amador. Era fascinante poder discutir sobre estes assuntos com uma pessoa que realmente fazia daquilo sua profissão.

- Mas você trabalha de dia?

- Sim, por quê?

- Como vê as estrelas? - perguntei, já desconfiando que era uma pergunta idiota.

- Trabalho em radioastronomia, bobinho! Não preciso usar meus olhos para isto. Uso os olhos do computador. - e abre aquele sorriso que já começava a me conquistar de uma forma que já parecia sem retorno.

- Ah, entendo! Então observar estrelas aqui é só um hobby...

- É.

Que grande coincidência termos escolhido aquele mesmo lugar para nossas observações!

- Trabalha de dia, e durante a noite vem aqui ver as estrelas da maneira antiga.

- Isso mesmo!

- E quando é que você dorme?

Ágata fecha o rosto. Percebi que acabara de fazer uma pergunta impertinente, embora não soubesse exatamente em que ponto ela era embaraçosa.

- Desculpa, não é da minha conta...

- Não é isso. É que... - ela está confusa. - Ah, esquece!!

Me parece que ela está desesperada para mudar de assunto ao comentar:

- É possível que fiquemos sem noites por algumas semanas, daqui a uns 10 ou 20 anos.

- Como assim?

- Venho estudando nos últimos meses uma possível candidata a supernovaa estrela Eta Carinae. Está muito instável atualmente, a variação de brilho dela já acontece em questão de dias.

Não sabia do fato. E fiquei realmente preocupado!

- Corremos risco?

- Fica tranqüilo, está distante demais! Talvez corramos o risco de passar um ou dois meses sofrendo de uma insônia terrível, pois especula-se que durante a explosão ela vá iluminar nossas noites com o brilho de umas 10 luas cheias. Talvez tenha ocorrido o mesmo fenômeno uns 2000 anos atrás com outra supernova, que conhecemos hoje como a Estrela de Belém.

- E vai acontecer quando?

- Ainda não temos como saber, mesmo porque nunca foi observado o fenômeno nos tempos modernos. Mas as teorias atuais sobre o ciclo de vida das esdtrelas nos dão certa segurança que vai acontecer em algum instante dentro das próximas décadas. Mas certeza do dia exato... isto ainda não podemos determinar. Existe uma incerteza quanto a massa exata desta estrela para que possamos fazer um cálculo mais preciso.

- Gostaria de ainda estar por aqui para observar isto.

- Como astrônoma, eu também sonho com isto. Nem que já esteja usando bengala quando acontecer!

- Posso vir aqui neste mirante com você, para observarmos isto juntos.

Juro que falei isto sem pensar, só para continuar o assunto. De forma alguma foi uma tentativa de cantada, mas percebi que Ágata ficou sem graça. E sorriu:

- He he, eu de bengala, e você de andador.

Foi esta a primeira vez que aconteceu aquele fenômeno do carrilhão. Pensando bem, é possível que tenha ocorrido na noite anterior também e eu não tenha percebido. Começava com um tênue som de sinos distantes, que crescia progressivamente até se tornar ensurdecedor. O som se tornava tão intenso a ponto de perceber claramente que perdia a consciência. Não lembro de nada que aconteceu em seguida.

...........................

No dia seguinte Ágata me encontrou sentando no banco de madeira no centro do semicírculo do mirante. O sol começava a tocar a linha de oceano no horizonte oeste à nossa frente. As cores do céu à sua volta começavam a descer o espectro luminoso com o passar do tempo, primeiro amarelo, depois laranja, vermelho intenso. Ela sentou-se ao meu lado quieta, também estava observando aquele belo arrebol. Os pontos brilhantes apareciam à medida em que o céu escurecia, com o sol mergulhando nas águas. Mas que besteira, é lógico que ele não estava mergulhando em água nenhuma! Ainda bem que só pensei nisto, e não falei tal besteira em voz alta para que fosse ouvida por uma astrônoma profissional.

Ainda estava vívida em minhas lembranças o “apagão” da noite anterior. Que teria acontecido? Esperava que Ágata me dissesse algo, mas dela não veio nenhum comentário. Eu teria desmaiado? Como saí de lá? Não me lembrava. Mais ainda: como havia chegado hoje naquele mirante, naquele banco, observando o por do sol? Me lembrava muito menos ainda... Mas não quis incomodar Ágata com isto. Sentia que, se algo importante tivesse acontecido, ela comentaria. Ou será que me escondia algo? Teria eu algum problema neurológico? Não, ela comentaria imediatamente se tivesse ocorrido algo grave, para minha própria segurança. Olhei para o lado: ela parecia especialmente bonita hoje! Amanhã eu pergunto a ela o que aconteceu. Hoje não. Seria imperdoável estragar aquele momento.

- Você não trouxe seus equipamentos hoje, não é?

Ela me olhou com ternura.

- Hoje não, eles só atrapalhariam. Hoje vim observar você...

Engasguei. Por favor, não pensem que sou machista, mas é que realmente não estou acostumado a ver uma garota tomando tal iniciativa, lançando uma cantada destas. Me pegou de surpresa!

- Ah, mas tem coisa bem mais interessante para observar aqui na nossa frente, não acha?

O último pedaço no topo do sol acabava de mergulhar nas águas. A lua não havia ainda surgido, de modo que escureceu rápido. Percebi que, pouco a pouco, Ágata tentava encostar em mim. Ou será que era eu que o fazia? Ou ambos? Não importa. Era noite completa quando percebi que estávamos lado a lado. Ambos indecisos, com medo de ser ousado demais, mas ao mesmo tempo torcendo para que o outro tomasse a iniciativa. Isso durou minutos, mas foi interrompido por uma coincidência incrível!

Lembram que o sol havia acabado de sumir no horizonte? Pois daquele exato ponto começa a surgir um segundo clarão, mas agora era pálido ao invés de dourado. Aos poucos surgiu o topo de um círculo cor de prata, subindo pouco a pouco e iluminando a escuridão de minutos atrás: era a lua cheia nascendo poucos minutos após o sol de por. Quanta coincidência! Não pude conter meu instinto poético observando o fenômeno, e comentei com Ágata:

- Olha só! Parece até que o disco dourado do sol mergulhou no mar e, purificado com o banho, agora sai dele como o disco cor de prata da lua cheia! Que sorte isto acontecer justo hoje, não acha, Ágata?

A beleza do espetáculo não havia me deixado perceber, mas Ágata já não estava encostada em mim. Olhei para seu rosto, e ela estava pálida, gelada! Não entendi nada...

- Calma, calma. Tem uma explicação, meu querido.

- Explicação para que, Ágata? É a coisa mais bonita que já vi! E quanta coincidência isto ter acontecido justo quando nós...

Como num bote, Ágata me envolve em seus braços e me beija. Mas é estranho, não sinto paixão neste beijo, parece mais como se ela tenta-se me calar, cortar o assunto... Não, estou imaginando coisas. É um “cala a boca” sim. É ela me dizendo “Para de falar besteiras e me beija, seu banana!”. Resolvo não pensar mais no assunto, naquela metamorfose solar, e aproveitar o momento. Enfim, foi ela então quem tomou a iniciativa!

Meu coração está disparado quando começa a aparecer ao fundo aquele som que vai se tornar tão odiado nos dias seguintes: o carrilhão essurdecedor daqueles sinos. Seria conseqüência da emoção do momento? Não sei, o fato é que tudo se repete: o carrilhão aumenta até se tornar ensurdecedor, e depois disto mergulho mais uma vez no nada...

.............................

Na noite seguinte chego por volta das 23 horas no mirante. Ágata já está lá. Deitada na grama, olha para cima, e tento descobrir qual a direção.

- Demorou hoje! – seu rosto está radiante.

- Nada de telescópios de novo?

- Não, bastam meus próprios olhos para ver isto. – e aponta para cima.

Concordo que os olhos delas bastam, embora por outro motivo. Deito ao seu lado, tentando localizar o ponto que ela aponta. E realmente era algo maravilhoso!

- Caramba! Nunca tinha percebido isto!

- Ora, você nunca prestou atenção! Sempre esteve lá...

Era realmente espetacular! Via-se nitidamente o centro brilhante, e em volta dele os braços em espiral ocupando quase a extensão de uma lua cheia! Como nunca havia percebido antes a nossa vizinha cósmica, a galáxia de Andrômeda?

- Parece até que a vejo girar!

- Não seja bobo, você está vendo coisas. Está parada no céu, como sempre esteve.

Passaram-se alguns minutos em que ficamos observando o fenômeno de mãos dadas. Como é possível eu nunca ter percebido algo tão fantástico deste tipo no céu?

- Sempre esteve aí? Ou é algo recente?

- Esse tipo de coisa é muito grande, um aglomerado de bilhões de estrelas. Não aparece de um dia para o outro. Lógico que sempre esteve aí, pelo menos no nos últimos milhões de anos.

- Mas falo sério, nunca notei mesmo!

A ilusão de que girava era realmente muito forte!

- Posso jurar que esta coisa está girando.

- Deixa de besteira, querido. Um aglomerado de estrela destes demora milhões de anos para mudar de uma forma perceptível.

- Sei lá, acho que deve ser uma ilusão de ótica.

- Com certeza!

- É que esses braços, esta forma de espiral... deve ser isto.

Sinto Ágata soltar minha mão bruscamente, e se sentar:

- Espirais? O que você está vendo?!

- Ora, nossa vizinha! A galáxia de Adrômeda!

- Ninguém vê Andrômeda a olho nu! Não com esses detalhes.

- Ora, está na minha frente, onde você me apontou!

Ela fica em pé num sobressalto.

- NÃO! Você vê coisas! Isto não é Andrômeda! É a Grande Nuvem de Magalhães!

- Mas Ágata, estou vendo as espirais da galáxia, e... – não consigo entender a reação tão violenta que ela teve.

- Por que é que você sempre insiste em ver coisas que não existem, hein? Por quê? POR QUÊ?? POR QUÊ??!! – lágrimas começam a escorrer de seu rosto.

- O que eu fiz??

Ela chora, e soluça incontrolavelmente.

- Por que isto? Pra que estragar tudo logo agora??

Ela sai em disparada por uma das trilhas. Eu estou confuso demais para ir atrás dela. Continuo deitado com minhas dúvidas, olhando para cima, para a galáxia de Andrômeda.

- Não entendo. Estas espirais, e tudo mais. Lógico que conheço as nuvens de Magalhães, e não são elas que estou vendo agora.

Continuo olhando para cima, para a galáxia em espiral que agora claramente me parece girando! Estou vendo coisas? Tem algo a ver com aquele maldito carrilhão que me apaga todas as noites? Teria eu algum grave problema que Ágata está tentando me esconder? Sem respostas, continuo olhando fixo para a espiral. De repente surge uma mancha em seu lugar! Que maravilha! Teria voltado ao normal,e estaria agora observando a Grande Nuvem de Magalhães, como esperado? Não, pouco depois surge de novo a galáxia espiral. A mancha eram apenas as lágrimas que nasciam em meus olhos deformando a imagem, que torna-se de novo a maldita espiral assim que as lágrimas escorrem pela minha face. Penso em me levantar logo e ir atrás de Ágata, mentir que realmente eu estava enganado, que não havia galáxia nenhuma na direção para onde eu olhava, mas o barulho do carrilhão ao fundo apaga totalmente qualquer vontade. Agora sei muito bem como isto terminaria.

............................

Esperei Ágata muito tempo na noite seguinte. Deveriam ser 3 ou 4 da manhã quando a vi surgir por uma das trilhas entre as árvores. Estava resolvido a perguntar do estranho Fenômeno Carrilhão, como já o havia batizado. Mas também queria me desculpar, ou quem sabe fosse até melhor fazer de conta que nada aconteceu, que eu realmente via coisas, inventar alguma desculpa... Estava realmente perdido. Mas novamente foi ela quem começou com as explicações:

- Querido, eu gostaria mesmo de me desculpar por ontem. Não deveria ter ficado tão nervosa.

- Tudo bem, não me importo. – mas era mentira, me importava sim! Mas seria esta a melhor hora de lhe dizer isto?

Deitou-se no centro do semicírculo, e me chamou para ficar do seu lado.

- Não está tão brilhante hoje como estava ontem.

Olhei para cima: a Grande Nuvem de Magalhães! Nenhum sinal da galáxia espiral da noite anterior!

- Ágata, acho que estou com um problema.

Ela põe os dedos em meus lábios, para que eu me cale.

- Psiu! Nada de problemas hoje!

- Mas é que ontem...

- Amanhã! Me fale disso amanhã!

- Mas tem um som...

- Agora só ouço o som do mar lá embaixo.

Tudo conspirava para aquele desfecho: a grama macia, a temperatura agradável, o som das ondas na praia lá embaixo. Para que estragar tudo com meus problemas? Eles podiam esperar mais um dia. Nos amamos intensamente naquele final de madrugada, até começarem a aparecer os primeiros raios de sol no horizonte à nossa frente. Era o final perfeito daquela noite, até o momento em que comecei a ouvir, mais uma vez, o som do carrilhão daqueles malditos sinos...

....................................

Não dava para esperar um dia mais, eu precisava saber o que acontecia comigo. Antes mesmo de cumprimentar Ágata, já a alvejei com a pergunta:

- Ágata, que aconteceu comigo ontem?

Ela sorriu. Estaria vendo coisas, ou o sorriso parecia forçado?

- Ora, o que aconteceu conosco você quer dizer... Não lembra?

Sorri de volta. O meu era verdadeiro.

- Lógico que sim, foi maravilhoso.

Mas não podia deixar que ela desviasse o assunto agora que havia me decidido a esclarecê-lo.

- Digo depois. Está me escondendo algo para me proteger? Tive algum ataque epiléptico, ou coisa do tipo que você não queira me contar?

Ela empalideceu no mesmo instante.

- Nã...não! Claro que não! Eu lhe diria...

- Então o que foi?

- Que foi o quê? Nada aconteceu depois! Poderia esquecer isto? Nos amamos, adormecemos...

- E depois?

- Depois? Ora...

- Não me lembro do que aconteceu depois!

Ágata tenta me abraçar, mas agora está claro que é mais uma tentativa de encerrar a discussão.

- Eu preciso saber, Ágata! Se for algo grave, quanto antes me tratar é melhor.

- Você está inventando coisas de novo!!! PARE COM ISSO!! – percebo que novamente ela começa a perder a razão.

- Não foi a primeira vez! Na verdade, lembrando agora, parece que isto acontece sempre!

- Esquece isto, querido! Está começando algo tão bonito entre a gente! Pra que criar problemas?

- Está tudo meio estranho, Ágata! – aponto para cima.- Esta nebulosa, por exemplo, a Nuvem de Magalhães. Lembra que brigamos feio por causa dela.

- Por favor, não volte neste assunto.

- Agora vejo a mancha que ela sempre foi. Mas no dia podia jurar estar vendo uma galáxia espiral. Entenda, posso estar tendo alucinações. Talvez seja algo curável.

- Por favor, PARE!!

- E aquele por do sol? De repente te percebi gelada, não entendi nada! Uma coincidência tão bonita...

Ela cai de joelhos. Está em prantos.

- Este lugar, você, eu... Por favor, não quero que acabe! Esquece estas coisas, querido!

- Quem sou eu, Ágata?

- Quê?

- Meu nome. Qual é? Não me lembro.

- Ora, deixa de bobagens!

- Nunca te contei qual é, sabe por quê? Por que não sei!

- Lógico que sabe, você me disse!

- Não disse! Que pessoa normal esquece o próprio nome? Entende a gravidade do problema? E tem aquele som que sempre ouço, um carrilhão. Você ouve também?

Nunca havia feito tempo ruim naquele Mirante Geocêntrico, mas naquele instante nuvens começavam a fechar o céu. Ágata me agarra em desespero, e começa a me beijar.

- Nada disso importa, querido. Só eu e você.

- Diga meu nome.

- Quê?

- Ágata, diga meu nome, por favor!

Ela se afasta, cabeça baixa.

- Ora, é...

- Qual meu nome, Ágata??

Ela foge em desespero. Mas desta vez eu a sigo. Entro pela trilha entre as árvores, mas pareço estar num pesadelo estranho: ela não leva a lugar nenhum! Perdido num labirinto, nem chego ao seu objetivo nem consigo voltar para o mirante, por onde entrei nele. Ágata está sempre á minha frente, mas sempre fora de meu alcance. O som dos trovões fica cada vez mais intenso, e pela primeira vez uma tempestade cai sobre aquele local de céu sempre límpido. Demoro para perceber, mas enfim, sobressaindo-se ao rugir dos trovões, o ensurdecedor carrilhão fica bem claro. Do que aconteceu depois, nada sei.

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“Andrômeda... Quanta idiotice, Ágata!!”


Ágata não conseguia se concentrar em seu trabalho no observatório naquele dia. A imagem da galáxia espiral brilhava na tela de seu monitor.


“Burra! Isso que dá querer enfeitar demais as coisas!” Ela não conseguia se perdoar. “Logo agora que estava indo tudo tão bem...”


Por mais estranho que pudesse parecer, ela estava vivendo um romance. Talvez o maior de sua vida, embora ela nem mesmo soubesse o nome de seu namorado. Como é que por um detalhe tão ridículo ela talvez tenha colocado tudo a perder? Todo mundo tem um nome, não é? Ele não podia ser uma exceção.


Ela suspirava de paixão. Definitivamente, ela não seria capaz de se concentrar no trabalho aquela tarde. Eta Carinae podia esperar mais um dia, certamente a supernova não iria explodir hoje. Agora ela precisava era voltar para casa e pensar numa maneira de consertar a besteira que iniciou.


Enquanto voltava, via o sol se pondo na direção oeste. Então lembrou-se:“Não, Ágata! Isto realmente foi imperdoável! Ele não é burro, vai acabar percebendo isto! Como explicar isto a ele?” Ele quem? Apertou o passo. Sim, precisava voltar logo para casa e bolar uma boa explicação para aquilo tudo.


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Permaneci uma ou duas horas sentado no banco, relembrando todos os fatos. As reações de Ágata, como nos conhecemos, meus apagões de memória... Fora este último detalhe, tudo parecia irritantemente perfeito! Havia conhecido a garota de minha vida, astrônoma, com quem podia passar horas e horas discutindo sobre um assunto que também era outra paixão de minha vida. Era bom demais para ser verdade! Tudo aquilo parecia um sonho! Passei um tempo tentando coordenar os fatos astronômicos inexplicáveis observados recentemente e acabei chegando à mais terrível conclusão de minha vida. Vi Ágata chegando naquele instante. Sim, já sabia o que estava acontecendo. Tudo de encaixava nesta explicação. Precisava contar a ela, por mais doloroso que isto fosse.

- Ágata, eu já sei o que está acontecendo. – começo a chorar.

- Benzinho, posso te esclarecer tudo. Pode parecer estranho, mas tudo é explicável!

- Deixa eu começar desta vez, tudo bem?

Vi medo em seu olhar. Mas ela parou e sentou-se para me ouvir.

- Lembra daquele por do sol que nós vimos? Que logo foi seguido pela lua cheia nascendo? Então, na hora achei tão fantástica aquela coincidência que nem pensei que pudesse haver algo errado. Mas agora sei o que é.

- Querido, naquele dia, sabe... Estão acontecendo alguns fenômenos astronômicos peculiares ultimamente... a supernova Eta carinae, lembra? Explodiu.. e o eixo da terra, por exemplo...

- Ágata, por favor, não precisa inventar nada. Eu sei o que está acontecendo!

- É que a explosão da Eta Carinae fez com que...

Desta vez eu coloco o dedo em seus lábios, não podia suportar uma astrônoma contrariando todos os seus princípios para tentar explicar fenômenos que definitivamente não podiam ser explicados.

- Ágata, por favor! Eu sei: a lua nunca nasce no oeste! Nada nasce no oeste! A lua não podia começar a subir do mesmo ponto em que o sol desceu minutos atrás! Nada faria o eixo de rotação do planeta girar 180 graus em questão de minutos, nem inverter o sentido de rotação de uma hora para outra. E mesmo que algum fenômeno tivesse uma ínfima chance de fazer isto acontecer, com certeza não seria de uma forma imperceptível! Haveriam marés gigantescas, talvez o próprio planeta se partisse com o turbilhão que se formaria no magma líquido em seu interior! Lógico, isto supondo que algo fosse capaz de inverter o sentido da rotação de tal forma... Não, Ágata. O que estávamos vendo era impossível de acontecer.

Ela chorava sem parar.

- Tem outra explicação, amorzinho! Ainda não sabemos como, mas...

- Ágata, não faça isto! Já sei de tudo!

Ela me abraça bem forte. Eu continuo.

- Depois, tem Andrômedra. Óbvio que ela não é visível a olho nu! Não daquele tamanho! E nenhum cataclisma cósmico seria capaz de deixá-la tão próxima de nós de um dia para o outro!

- Tem as lentes gravitacionais, já ouviu falar? – ela atropelava as palavras em desespero. – Por pouco tempo, sabe... Uma coincidência... como se fosse um telescópio gigante.

- Ágata, não precisa fazer isto. Não tente forçar explicações absurdas, minha linda! Esta claro agora: eu só vi o que queria ver!

Ágata me abraça mais forte, tenta me beijar, para que eu me cale.

- Não continue! Pense só em nós! Está acontecendo uma coisa tão bonita entre a gente, não é?

- Bonita demais, Ágata! Perfeita demais! Como num sonho.

Ela se afasta com um empurrão.

- Tudo isto é um sonho, Ágata! Este céu sempre límpido e perfeito, esta grama, este mar, você... Lembra daquele dia em que nos amamos aqui mesmo onde estamos agora? Depois vimos o sol nascer, não é mesmo? Mas... no oeste? Impossível, Ágata. Só vimos aquilo que queríamos mesmo ver! Porque era tudo um sonho.

- Por favor, pare agora!! Não queria que você descobrisse isto nunca! Eu te amo!

- Eu também te amo, Ágata! Mas estava tudo perfeito demais, não é mesmo? Porque era um sonho! Nada disso existe: este mar não existe, este mirante não existe, este céu não existe. Me dói muito chegar a esta conclusão, mas... Ágata, você também não existe! Nesses dias todos eu estou apenas sonhando com você, não é?

Ela se levanta. O tempo mais uma vez fecha naquele mirante geocêntrico. Ágata tenta correr, mas para a poucos metros.

- Você entendeu tudo errado! Não é nada disso!! O que eu sinto por você existe!

Começa a chover forte. E o surge o carrilhão infernal. Ágata chora aos soluços.

- Querido, é exatamente o contrário!! VOCÊ é que não existe! Sou EU que estou sonhando com você esses dias todos!!!

O chão foge de meus pés, me sinto caindo num abismo sem fundo. A chuva preenche todos os espaços à minha volta. Novamente me sinto perdendo a consciência, mas desta vez a sensação é muito pior: sei que é definitivo!!

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Ágata acorda e joga para longe o barulhento despertador de corda sobre o criado-mudo ao lado de sua cama. Era único objeto barulhento o bastante para fazê-la acordar todas as manhãs. “Maldito relógio barulhento!! Tomara que tenha quebrado de vez!”


Olha para os esboços pregados na parece. Ela nunca havia sido muito boa em desenhar retratos, mas dava para reconhecer neles o rosto do namorado de seus sonhos. Voltaria a vê-lo? Ela tentou nas noites seguinte, mas o mirante sempre estava vazio. Desistiu. Lógico que ele não apareceria mais! Não deve ser fácil para ninguém descobrir que não existe, exceto nos sonhos românticos de uma astrônoma carente. Mas ela poderia ter sido mais cuidadosa, não é mesmo? Talvez conseguisse sustentar aquilo por mais tempo, se pelo menos tivesse dado um nome a ele.


Mais uma noite ela volta em sonho ao seu mirante geocêntrico. Senta-se no banco de madeira. Está só, desolada! Pensa em pular no precipício à sua frente. “Que besteira, Ágata! Isto é um sonho! Acha que vai acontecer alguma coisa?” Óbvio que nada aconteceria. No máximo ela acordaria sobressaltada, como é comum acontecer quando sonhamos com quedas.


Mas desta vez ela percebe algo debaixo do banco. Um manuscrito? Começa a folheá-lo. Há uma dedicatória: “À minha amada Ágata, caso não nos encontremos mais. De seu amado ______ (por favor, dê-me um nome!)” Que grande coincidência ela encontrar uma caneta em seu bolso! Bom, Ágata nem fica tão surpresa com isto: ela está no meio de um sonho lúcido, pode controlar tudo que acontece nele. Inclusive fazer aparecer uma caneta em seu bolso. Ela pensa, preenche a lacuna. “Ah, agora pelo menos posso lembrar de você com um nome, meu amor!” E começa a ler:



Não conseguia imaginar um ponto de observação astronômico melhor que aquele. Com aquele céu límpido pontilhado de estrelas era impossível não ter a ilusão perfeita de estar no centro de uma gigantesca abóbada, observando o resultado de um mecanismo oculto atrás de uma parede inatingível...


FIM

30/06/2011

A Emboscada Termodinâmica

Primeiramente saudações a todos, quaisquer que sejam os receptores desta nossa mensagem. Tecnicamente não temos condições de precisar ao certo quais serão os destinatários dela, mas desejamos do fundo da alma que eles saibam aproveitá-la com sabedoria, e tomar todas as providências cabíveis para que esta nossa advertência possa evitar o pior. Poderíamos aperfeiçoar ainda mais esta técnica nova para que pudéssemos atingir com maior exatidão destinatários específicos, mas tememos que não nos reste muito tempo para isto.

O envio desta mensagem é um chute desesperado, uma última tentativa de tentar consertar as coisas. Não temos como saber onde esta mensagem chegará, nem tampouco quando. Desejamos que não chegue tarde demais, a ponto do aviso chegar numa época em que ele já seria em vão, não havendo mais possibilidade alguma de volta. Nem cedo demais, quando simplesmente não haveriam receptores aptos a captá-la. Torcemos com todas as nossas forças para que ela chegue em algum lugar do planeta por volta das últimas décadas do século 20, nos anos 80 ou final dos 70 seria ideal. Mas, como dissemos antes, estamos chutando, de frente para o gol, sem conhecer ainda a força de nossas pernas. Tomara que o chute não seja fraco demais para que o goleiro nem precise se esforçar para agarrar a bola, nem forte demais para que a bola passe longe do gol. Na situação em que agora estamos, soterrados por centenas de metros de geleiras, um chute na trave já compensaria todos os nossos esforços!

O fato de estarmos propagando uma onda eletromagnética para nosso passado nem é tão absurdamente inconcebível perto da outra violação de princípios físicos que explicaremos mais à frente, que é o conteúdo central de nossa advertência. Sem entrar em detalhes técnicos maçantes, digamos que algumas faixas bem definidas do espectro admitem uma polarização específica capaz de inverter o princípio natural de causa e efeito, e assim propagar o eletromagnetismo para uma região vizinha não no espaço, mas no tempo. Sim, esta mensagem também chegará em nosso futuro daqui a um intervalo de tempo igual ao que separa vocês de nós agora, mas lamentamos esta nossa certeza de que não existirão receptores no futuro para decodificá-la.

Discutimos muito sobre a forma de transmissão. Uma transmissão digital seria a forma ideal, tanto para o envio de provas de sua origem, quanto para os detalhes que gostaríamos de fornecer para lhe dar maior credibilidade. Mas não podíamos arriscar. Deveríamos então enviá-la como áudio? Em que idioma? Modulando frequência ou amplitude? Estávamos arriscados a atingir uma época em que a transmissão de rádio tivesse acabado de ser desenvolvida, o que tornaria nossa mensagem ininteligível. Decidimos pela simplicidade, e por aumentar a probabilidade de nossa mensagem ser entendida. É por este motivo que vocês a estão recebendo em código Morse. Não podíamos desperdiçar esta que talvez seja nossa última chance de contato.

Antes de prosseguirmos, permitam que façamos um pequeno resumo da evolução tecnológica e científica, apenas para nos certificarmos de que a mensagem será compreendida e de dar uma prova básica de que somos quem afirmamos ser. Vamos lá: o fato da matéria ser formada de átomos indivisíveis é conhecido de vocês? Ótimo, estamos no caminho certo. Pensando bem, este conhecimento é anterior à invenção do rádio, portanto é obvio que isto já é conhecido pelo simples fato de estarem agora decodificando nossa mensagem. Certo, perdoem nosso deslize e vamos prosseguir: já surgiram evidências de que estes átomos indivisíveis talvez não sejam tão indivisíveis assim como vocês imaginavam? Se sim, isto é excelente! Significa que nossa mensagem não chegou cedo demais. Se vocês não fazem idéia do que estamos falando, imploramos que simplesmente registrem esta mensagem para que ela seja compreendida num futuro próximo, perto do final do próximo século. Por favor, é muito importante que ela chegue aos destinatários corretos!

Bom, permitam que continuemos nossa checagem sem citar nomes. Não sabemos ainda quais seriam as consequências de fornecer informações científicas do futuro para o passado, e optamos por apenas citar fatos científicos sem entrar em detalhes que talvez sejam desastrosos. Já existe a máquina a vapor? E a carvão e outros combustíveis fósseis? Ficamos tentados a fornecer aqui advertências quanto a Revolução Industrial pela qual talvez vocês estejam passando agora, mas... sabemos que seria em vão. Além disso, a consequência da queima de combustíveis fósseis é completamente irrelevante perto do aviso principal desta nossa mensagem.

Se o que citamos até agora são fatos conhecidos, obviamente já são conhecidas as leis da mecânica elaboradas por Sir I.N. Na vossa época, tempo e espaço continuam sendo considerados absolutos? Ou vocês já foram apresentados às teorias do cientista A.E. que prova a relatividade destas medidas? Já enviaram veículos tripulados à Lua? Excelente, estamos então no caminho correto! E a Marte, já enviaram seres humanos para lá? Tomara que não, pois isto indicaria que nossa mensagem chegou tarde demais...

Vamos direto ao ponto: nossa tragédia começa em meados do século XXI. Mais precisamente, no ano de 2054. O aquecimento do planeta é crítico, a própria geografia já é quase irreconhecível comparada àquela de meio século atrás por causa do derretimento das geleiras e consequente aumento do nível do mar. Se são vocês nossos destinatários, ainda há tempo. Vocês devem estar num dilema: não podem usar combustíveis fósseis que comprometeriam ainda mais o absurdo efeito estufa com o qual tentam conviver atualmente. E a energia atômica é um verdadeiro demônio, que todos tentam exorcisar. Mas as energias renováveis não dão mais conta de alimentar os 30 bilhões de habitantes do planeta. O planeta Marte, ou Nova Terra como foi rebatizado na última década, ainda é inviável: viagem cara demais, demorada demais, e nem de longe resolveria os atuais problemas. Num recanto desconhecido da Índia vai surgir uma forma de produzir energia limpa, barata (na verdade gratuita), ilimitada, e vocês serão tentados nas atuais circunstâncias a desenvolvê-la. Mas imploramos de joelhos: não façam isto!! Será o começo do fim!

A nanotecnologia resolveu muitos problemas num passe de mágica. Ah, perdoe-nos! Se vocês que agora recebem esta mensagem ainda estiverem próximo ao fim do século 19 ou começo do século 20, acho que lhes devemos explicações. Nanotecnologia é a técnica de manipular a matéria átomo por átomo. Se isto ainda estiver fora de vossa capacidade de compreensão, mais uma vez pedimos encarecidamente que preservem esta mensagem para que ela possa ser relida numa época mais oportuna. Mas se já forem capaz de compreendê-la, saibam que sim, valeu a pena investir nela! Nanorobôs terão inteligência suficiente para simplesmente desfazer defeitos genéticos de indivíduos célula a célula do corpo, como verdadeiros cirurgiões moleculares extirpando genes defeituosos e inserindo próteses saudáveis, e existirão trilhões de cópias de tais cirurgiões repetindo esta operação em cada uma das células do organismo doente. Eles imitarão a vida, e também serão auto-replicáveis. Mas não será daí que virá nossa tragédia, nesta época já teremos aprendido a lição e estaremos fazendo isto de forma segura: os nanorobôs serão programados, depois de injetados na corrente sanguínea, a se replicarem, executarem seu serviço, e logo depois se destruirem. No fim eles viram glicose absorvida por nosso organismo, não sobrará indício algum de sua passagem exceto o fato de nos tornarmos mais saudáveis após sua atuação. A nossa tragédia envolve nanotecnologia sim, mas de uma forma bastante traiçoeira. Relembrando agora os fatos, todos nós aqui do laboratório concordamos que era impossível prever o mal que a descoberta traria. Além disso, era tão oportuna naquela situação absurda de calor!

A astronomia também se beneficiou com a nanotecnologia. E por incrível que pareça, a astronomia óptica! A tecnologia dos telescópios de espelho parou simplesmente porque chegou ao seu limite. Torna-se progressivamente mais difícil construir uma superfície parabólica próxima à perfeição à medida em que aumentamos o diâmetro do espelho. Houveram até algumas esperiências com espelhos refletores de mercúrio numa piscina rotatória, mas os resultados foram questionáveis.A astronomia óptica foi abandonada por um bom tempo devido à facilidade incomparavelmente maior de construir radiotelescópios, que trabalhavam com frequências bem mais baixas do espectro e não exigiam uma precisão tão boa na construção de seus refletores. Na verdade, podia-se agrupar vários radiotelescópios numa superfície enorme e fazê-los funcionar como um radiotelescópio único de quilômetros de diâmetro. Funcionavam bem, mas um dia surgiu a idéia: por que não fazer o mesmo com telescópios ópticos, mas usando a nanotecnologia? Não havia mais a nececissade de criar uma superfície perfeitamente parabólica de algumas centenas de metros de diâmetro se fosse possível construir uma superfície plana, com imperfeições até aceitáveis, mas formada de uma infinidade de nanorefletores ópticos ajustáveis. O espelho não precisava mais ser parabólico, mas um espelho relativamente plano no qual fosse possível programar cada um dos nanoespelhos de sua superfície para refletirem os fótons recebidos do espaço para um ponto focal escolhido, fora do plano do espelho. Foi uma revolução, obtivemos ampliações dentro do espectro visível nunca antes imaginadas de centenas de exoplanetas, em algumas das quais ficava até difícil questionar a existência de vida, ao menos vegetal, nos mesmos. Mas ainda não chegamos lá: o culpado por nosso cataclisma não foram ainda os nanotelescópios. Paciência, a explicação virá logo! A culpa é parte da capacidade de direcionar a reflexão dos fótons, e parte da capacidade de autoreplicação dos nanorobôs. Tudo a seu tempo, mas adiantemos que foi a combinação destas duas capacidades que nos levou ao fim.

É fato conhecido que a energia se transforma. Energia potencial de uma coluna de água vira energia cinética, que move as pás de uma turbina tornando-se energia elétrica, transmitida por fios condutores para ser novamente transformada em energia mecânica, luminosa, térmica, etc... Elas se transformam, mas existe um fim único: calor. A gasolina do seu carro tem uma enorme energia potencial química. Ela explode e vira uma quantidade enorme de calor, que move os pistões e é aproveitado em parte como energia mecânica que move seu veículo. Mas seu carro não se move indefinidamente, não é? Sua energia cinética acaba porque se transforma, novamente, em calor. Quando o freio é acionado, o carro para muito rapidamente porque suas pastilhas são um eficiente conversor de energia mecânica em energia térmica. Para que sua lâmpada elétrica gere luz, grande parte da energia elétrica é também perdida em calor: basta tocar sua lâmpada para comprovar que isto é verdade. Até para tirar calor de dentro de sua geladeira é necessário produzir calor. Você acrescenta calor ao ambiente duas vezes: aquele que você tirou do seu refrigerador e aquele que foi produzido no trabalho de tirar este calor do seu refrigerador. Em resumo, é impossível transformar calor em outra forma de energia sem que esta transformação produza mais calor. Corrigindo: era!

O que é calor? Estamos envoltos em uma camada de gás, basicamente oxigênio e nitrogênio. São formados por moléculas, que se movem em alta velocidade. Elas colidem entre si, e com os obstáculos colocados em seu caminho. Mas isto é caótico, elas vêm de todas as direções possíveis. Novamente simplificando para não nos tornar chatos, digamos que podemos chamar a medida deste caos de calor. É o "nível de desordem" destas moléculas. Podemos dar um nome a isto. Nem precisamos gastar nossa imaginação, pois isto já tem um nome: ENTROPIA. Como vimos antes, o que quer que façamos, tudo no fim vira calor. Podemosdiminuir a entropia de uma região específica momentaneamente, como o interior de nossa geladeira. Sim, porque de certa forma diminuir o movimento das moléculas de gás é diminuir a desordem, aumentar um pouco a organização molecular desta região. Mas considerando o universo todo a nossa volta, o que quer que façamos sempre aumenta o total de desordem. A entropia de uma região escolhida pode diminuir, mas para que ela diminua precisamos aumentrar a entropia das regiões vizinhas a ela. Desta forma, qualquer que seja o trabalho realizado, a entropia global do universo sempre aumenta. Aumentava...

Jogue um dado honesto. Que face cai? Não podemos prever, mas podemos afirmar que a probabilidade de cair qualquer uma delas é de um sexto. Mas podemos trapacear. Um dado viciado pode ter uma geometria talvez imperceptível a olhares desatentos, mas capaz de favorecer alguma das faces em detrimento das outras. Foi mais ou menos assim que “trapaceamos” o princípio fundamental da diminuição da entropia.

Tomem uma parede. Ela não é lisa, concordam? E por mais que tentemos, a nível molecular ela sempre será rugosa. Se moléculas de gás colidem com ela vindas de direções totalmente caóticas, serão também refletidas em outras direções igualmente caóticas. Nenhum princípio físico é violado aqui, o caos sempre aumenta como é esperado, e a entropia também. Mas num recanto antes desconhecido da Índia, o brilhante nanofísico A.J.M. descobriu uma forma de trapacear a segunda lei da termodinâmica: ele criou uma nanosuperfície “viciada”, com uma geometria que favorecia moléculas de gás vindas de todas as direções possíveis a se refletirem numa direção preferencial. Sim, o efeito era inicialmente ridículo: dentre centenas de mols de moléculas gasosas, poucas dezenas seguiam esta direção preferencial, e logo eram desviadas ao colidir com a imensidão de outras moléculas caóticas à sua frente. Mas isto começou a alimentar idéias na cabeça de nanocientistas do mundo inteiro.

Somos obrigados aqui a dar mais detalhes do que desejaríamos da técnica, mas isto é justificável para enfatizarmos a gravidade do nosso alerta: não repitam o experimento! Então vamos lá. Primeiramente enrolemos esta superfície viciada num longo tubo. Nota-se uma pequena corrente de ár saindo de uma das pontas. O que tem de estranho? É que não há outra de mesma intensidade entrando na ponta oposta do tubo. A diferença só é percebida por sensores muito precisos, mas ela existe. De onde vem esta corrente de ár? Simplesmente da reorganização na direção de alguns poucos átomos refletidos pela superfície viciada. Nada foi criado, o que aconteceu foi que parte dos átomos que colidiram com a superfície do tubo tinham uma pequena probabilidade de se refletirem numa direção preferencial. Basicamente o mesmo princípio dos nanotelescópios, mas eram refletidas moléculas de gás ao invés de fótons. Que proveito tirar disto? Inicialmente nenhum, mas a criatividade humana não tem limites.

Curve ligeiramente este tubo viciado. A princípio a curvatura prejudica um pouco o desempenho, e a corrente de ar antes ínfima diminui mais ainda. Prolongue este tubo, mantendo a curvatura. Suficientemente prolongado, uma ponta do tubo acabará encontrando a outra. A ponta oposta, antes recebendo átomos em direções caóticas do ambiente, recebe agora uma parte de átomos que já colidiram com a superfície viciada, e criam aquela ínfima corrente na direção preferencial. O que ocorre então? A corrente na ponta oposta (que agora alimenta a entrada do tubo) se apresenta um pouco mais intensa. Alimenta novamente a ponta de entrada, e ganha um pouco mais de coesão, e isto ocorre de novo, e de novo, e de novo... Temos uma reação em cadeia! Em questão de minutos uma corrente de ár considerável é criada dentro de nosso toróide, surgindo do simples realinhamento das reflexões dos átomos com a nanosuperfície! A corrente de ár é simplesmente uma reorganização do calor original do gás dentro do toro numa direção específica. Antes não percebíamos que os átomos individuais se moviam a uma velocidade tão alta porque o faziam em todas as direções, mas agora era como se todos eles tivessem combinado em continuar seus percursos numa única direção. Coloque uma turbina no meio deste toro e você terá um gerador termodinâmico, uma fonte de energia que se alimenta de... calor! Numa época de superaquecimento global, na qual nosso principal problema era o excesso de calor, esta nova fonte de energia era boa demais para ser verdade!! Nosso deslumbre nos levou a usá-la imediatamente, a urgência nos cegou e não permitiu que avaliássemos melhor suas consequências. Estamos pagando agora pelo erro.

As usinas termodinâmicas se multiplicaram pelo planeta em questão de meses. Era tentador demais para não ser aproveitada: a energia era limpa, gratuita, e consumia um recurso natural que na época nos sobrava, e que inclusive nos causava problema tê-lo em excesso: o calor. Uma década explorando tais usinas foi suficiente para que pudessemos voltar a sentir um clima planetário antes só experimentado pos nossos avós, ou bisavós (será que não são vocês?). As usinas resfriavam a atmosfera à sua volta, e produziam com este calor energia para alimentar as megametrópoles então comuns nesta época. Nunca pensamos em perguntar: e esta energia produzida, o que se torna depois de usada? Calor de novo? Agora questionamos isto, mas na época negligenciamos esta questão de forma totalmente irresponsável.

O fato é que a energia elétrica usada se tornava novamente calor no fim das contas, como tinha de ser. O que não checamos na época foi o balanço energético. Ela se transformava em QUANTO calor? Na mesma quantidade que foi utilizada para produzi-la? Agora nos parece óbvio que não, pois ao ser utilizada esta energia o esperado era que o calor produzido fosse exatamente aquele retirado para sua produção. Até mais, admitindo que o príncípio fundamental da termodinâmica continuasse a funcionar e que a eficiência da transformação da energia térmica em elétrica não fosse de 100%. Um moto-contínuo era o máximo que se podia esperar, com o calor produzido na utilização da energia elétrica sendo reaproveitado como “combustível” para gerar mais energia. Mas o fato é que a energia térmica atmosférica diminuia, o que significava que a eficiência da conversão energética deveria ser superior a 100%. Quer dizer, se produzia mais energia do que era consumida em forma de calor! De onde ela vinha? Tudo bem, digamos que tenhamos uma eficiência de 105% (e isto é uma estimativa otimista nas atuais circunstância). Estes 5% a mais deveriam continuar esquentando a atmosfera, não é mesmo? Conseguimos 5% adicionais não se sabe de onde, e o usamos. Isto deveria voltar como calor, e pesar na balança térmica. Usamos X unidades de calor, e produzimos X mais 5% de X que consumimos e devolvemos como calor, não é? Então a temperatura ambiente deve aumentar, e não diminuir! Outro problema: apesar de se produzir mais calor do que se retirava, o calor global do planeta continuava diminuindo. O que está acontecendo ?

O fato é que trapaceamos no jogo cósmico. A intenção foi muito boa, mas isto é irrelevante fisicamente: nós trapaceamos no delicado equilíbrio da entropia! Estávamos criando energia do nada, e o universo não sabia como reagir a isto. Nunca havia acontecido antes, e por isto ele não tinha resposta para restaurar o equilíbrio, não havia desenvolvido “mecanismos de defesa” para o fato. Tendemos a enxergar sempre nosso próprio umbigo, esquecendo que as coisas são como são porque elas precisam ser como são para funcionar em harmonia! O aumento da entropia não pode ser revertido, o nosso Universo precisa passar por uma morte térmica daqui a alguns trilhões de anos, quando a entropia como um todo atingirá seu máximo. Isto porque nosso universo não é “uni”, mas “multi”, e ele precisa morrer para que outro apareça na forma de um novo big bang. Assim na terra como no céu: a criatura precisa morrer para dar lugar aos descendentes, e o Universo também precisa fazer o mesmo para dar lugar a universos novos. Mas não! nós, vivendo numa poeira ínfima dentro de uma dentre incontáveis bolhas cósmicas repleta de galáxias ousamos violar um princípio básico: inventar um meio passivo de diminuir a entropia do ambiente.

Percebemos então que a temperatura não parava de cair. E então? Não basta desativar as usinas térmicas? Acreditem, foi a primeira idéia que tivemos! Mas esta solução é falsa, invenção nossa, um vício dos tempos moderno. Acreditem, quando as coisas começam a dar errado nem sempre basta puxar a tomada para resolver o problema! Era impossível desligar as usinas. A nanosuperfície refletora sempre estava lá. O que a fazia funcionar era seu formato, sua geometria. Não dava para desligar! Ela precisa ser destruída para parar de atuar. Surgiu aí o problema.

Diminuir a entropia é muito tentador! Uma solução salina dissolvida em água tende a se reagrupar em padrões cristalinos bem definidos. Isto é aumentar a organização, o mesmo que diminuir a entropia! A própria vida é uma prova de que a tentativa de diminuir a entropia interna é uma constante universal. Mas todo ser vivo morre, não é? Todo indívíduo cria caos interno como resíduo da tentativa de preservar a organização molecular. A natureza tende a tentar reverter a entropia, mas até então só obtendo sucesso temporário. Uma hora ou outra a segunda lei da termodinâmica acaba vencendo. Isto até nós trapacearmos. Uma vez construída a primeira superfície viciada, não conseguíamos destruí-la: os nanorefletores derretidos se auto-reorganizavam, tinham a capacidade de replicar sua geometria. Não exatamente como seres vivos, mas como cristais. A geometria parecia tentadora demais para as moléculas de quaisquer que fossem os elementos químicos: silício, cristais de gelo, carbono, nitrogênio atmosférico... Toda vez que tentávamos destruir um toróide com superfície interna viciada, os elementos químicos à sua volta tentavam se recristalizar na geometria original! Era um pesadelo: para cada metro quadrado de refletores térmicos destruídos, 10 metros quadrados se reorganizavam com os elementos existentes à sua volta, fosse ele areia, granito, calcário, gelo, até o próprio nitrogênio atmosférico! As usinas como estavam eram ruim, mas tentar se desfazer delas era ainda pior. Enviar ao espaço? Chegamos a pensar nisso, mas logo abandonamos a idéia. O cientista G.H. até sugeriu enviar os geradores para derreterem no Sol, mas imediatamente abandonamos a idéia ao detectar que isto faria com que ele se apagasse em questão de... décadas! Quer uma melhor fonte de calor que esta? Nada disso, pelo menos uma vez na história decidimos ser conscientes e, pelo menos, tentar fazer com que apenas nós mesmos respondessemos por um problema que criamos. Esta catástrofe termodinâmica deveria se limitar a este planeta, não era justo que nosso erro prejudicasse o resto do universo. E é assim que nos encontramos hoje, num planeta frio, com poucos sobreviventes tentando sobreviver decentemente com o resto de energia que nos resta. A própria energia interna do planeta foi consumida nesta nossa empreitada louca. Não temos mais campo magnético, pois nosso núcleo e toda sua vizinhança é agora uma massa inerte de ferro e níquel sólido, sem rotação própria. Centenas de metros de gelo pesam sobre nossas cabeças agora. Não gelo de água. Na verdade, a camada de gelo de água é bastante fina comparada à de gelo de oxigênio e nitrogênio acima de nós, nossa antiga atmosfera solidicada. A Terra agora é um saco sem fundo absorvendo energia solar, um buraco negro térmico. Mas a curiosidade científica é a última que morre, e foi a que nos permitiu descobrir uma forma de enviar esta mensagem que vocês estão lendo agora.

Enfim, se nenhum argumento ainda conseguiu convencê-los de nossas intenções ao transmitir esta mensagem, que seja levado em conta o fato do aviso ser genuinamente autruísta. Diretamente nada ganhamos se nosso alerta for considerado: nosso passado é imutável, estamos condenados ao final termodinâmico quer enviássemos esta mensagem ou não. Mas acreditamos poder influenciar e criar linhas alternativas de tempo, recentemente obtivemos provas quânticas a nível molecular desta possibilidade. Embora nada possamos fazer em nosso próprio benefício, esperamos poder ajudar a humanidade de alguma linha histórica paralela à nossa. Recebemos nos últimos anos do século XXI mensagens genuinamente inteligentes vindas de um sistema estelar próximo, uns 50 anos luz. Respondemos, mas lamentamos profundamente o fato de que não estaremos mais aqui para poder captar a réplica desta civilização vizinha. Sim, não estamos sós. Para nós aqui isto já não faz mais diferença alguma, mas esperamos que faça diferença para vocês.

É o que lhes deseja a:

EQUIPE DE PESQUISAS ELETROMAGNÉTICAS
CÉLULA DE SOBREVIVÊNCIA 224-C / GELEIRA AMAZÔNICA
Manaus, 15 de janeiro de 2137

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ERRATA
Cometi um erro imperdoável na primeira versão, e estou corrigindo aqui: entropia não é o nível de organização, mas o nível de caos. EN-TROPOS quer dizer "tudo no mesmo nível", nenhuma diferença de temperatura capaz de realizar trabalho. O fim do universo está na entropia máxima, onde não mais existiriam trocas de calor, e não o contrário! Novamente peço desculpas, revi o texto e corrigi esta falha catastrófica! :-S

26/04/2011

ANATOMIA

Ainda bem adolescente a idéia surgiu pela primeira vez em sua cabeça, idéia esta que o acompanharia e cresceria cada vez mais em detalhes durante o resto de sua vida. Junto com sua turma de colégio, ele acompanhava uma visita monitorada ao Museu de Anatomia Humana.

As peças humanas à mostra lhe despertaram muito pouco interesse na ocasião. O monitor ia explicando aos alunos o que era cada uma delas: um cérebro humano, o sistema coração-pulmão, um feto de poucas semanas de gestação... Os colegas faziam arruaça, alguns tentavam demonstrar coragem e chegavam mais perto para impressionar as garotas, outros faziam piadinhas mas claramente para tentar disfarçar o nervosismo de estarem vendo seres humanos tão expostos daquela forma. Um ou dois demostravam interesse especial, provavelmente, quem sabe, futuros médicos descobrindo naquele exato momento a grande vocação de suas vidas. Mas para ele era diferente, aquelas peças humanas boiando em vidros cheios de formol despertavam pouco interesse, pareciam meio que... Como ele poderia dizer? Meio mortas... Mas algo num dos cantos do laboratório lhe chamou a atenção de uma forma incontrolável, e ele acabou se afastando da turma para ver aquilo mais de perto.

Lá estava ela! Escostada na parede, observando aquele grupo de adolescentes que visitavam o laboratório de anatomia. Estática, com um olhar profundo, formas perfeitas, sorrindo para todos com sua dentadura de brancura impecável, lá estava a caveira de laboratório! Pensou em tocá-la. Deveria? Era permitido? Proibido? Tocou meio que sem pensar na omoplata esquerda da caveira à sua frente.

- É verdadeira, menino! - explicou o monitor se aproximando dele. - Não é daquelas réplicas de plástico ou porcelana que costumam vender por aí...

- Sabe quem era este aqui?

- Difícil saber. É muito comum que os doadores queiram permanecer anônimos. Normalmente para poupar a família, entende? Dificilmente alguém ficaria confortável com a idéia de ver em pé na sua frente os ossos do pai, do filho, do irmão, esposa...

O garoto estava fascinado pela caveira. Que ossos lisos, perfeitos! Simetria bilateral quase impecável!

- Mas dá para concluir algumas coisas. Era um adulto pela estatura. - continuou o monitor, enquanto o resto da turma também começava a se juntar em torno da caveira. - Diria que foi de um homem entre 35 e 40 anos.

Metade da turma, ouvindo tal afirmação, baixou o olhar para um ponto vazio logo abaixo da cintura da caveira. Depois de uns risinhos constrangidos e olhares desviados para vários "nadas" em várias direções, o monitor completa tentando aliviar aquele breve momento de tensão dos adolescentes:

- Bom, não foi exatamente isto que procurei para chegar à minha conclusão - abre um sorriso cordial -, mas sem querer vocês olharam para a direção certa mesmo.

- Ah, vamos ver logo a sala dos crimes! -berrou um adolescente um pouco mais velho que o resto da turma, provavelmente um repetente, tentando mostrar valentia - Não vejo graça nesta caveira velha encostada aí na parede...

Aparentemente a maioria da turma compartilhava de sua opinião, pois começaram a se afastar quase que num bloco compacto de gente. Algumas garotas e um rapaz bem mirradinho aproveitaram a ocasião para perguntar ao professor, que também aconpanhava a visita, se podiam ser dispensados desta parte do programa. Bom, ele não podia obrigar ninguém, muito menos estes que mal deixaram de ser criaças, a ver cenas tão fortes. Consentiu sem criar obstáculos. Mas aquele garoto continuou lá, admirando a caveira. O monitor pensou em chamá-lo, para ver outras partes igualmente interessantes do museu. Mas vendo o interesse genuíno do garoto obsevando a caveira em pé naquele canto do laboratório, pensou: "Que mal há? Vou deixar ele aí!  Quem sabe esteja nascendo neste instante um brilhante ortopedista..."

Ele ficou vários minutos observando a caveira, mas que já lhe pareciam horas. Estaria ele imaginando coisas, ou o sorriso da caveira parecia agora bem mais aberto, de uma simpatia sem tamanho? E por que lhe parecia que aquelas órbitas oculares vazias estavam olhando bem dentro de seus olhos? Um convite, sem dúvida. Era ainda bem jovem, mas aquela caveira havia apontado um sentido para sua vida!

É difícil com tão pouca idade descobrir um objetivo para seu futuro, aquilo que deseja fazer durante toda a vida adulta. Alguns querem ser médicos, outros advogados, outros engenheiros... Muitos acabam nem conseguindo se decidir, e passam o tempo tentando várias áreas diferentes, esperando aquela que lhes faz se sentir melhor. Nesta idade de sonhos, também é comum os que querem ser jogadores de futebol, ou mesmo astronautas. Mas ele já estava decidido. O objetivo de sua vida havia sido revelado naquele exato momento, era um desperdício de tempo tentar procurar outras coisas. Era fato, ele já sabia qual era o objetivo maior de sua vida daqui para frente: ele também queria se tornar caveira de laboratório!

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Ele queria se tornar uma caveira bonita, tão ou mais perfeira que aquela sua musa inspiradora. Para isto ele se cuidava, nunca se interessou por aquelas brincadeiras  típicas dos garotos de sua idade, jogar bola, andar de skate... Não, ele cuidava muito bem de sua própria caveira, não poderia correr o risco de sofrer qualquer fratura e com isto aparecer como uma caveira defeituosa, cheia de cicatrizes dos pedaços de ossos recalcificados. Mas mesmo com todo este cuidado, parecia nunca sair do setor de ortopedia do hospital mais próximo.

À primeira vista parece difícil imaginar como é que um rapaz tão zeloso para com seus ossos aparecesse tanto na ortopedia do hospital, se queixando de dores, aflito com possíveis fraturas. Mas é facil de entender o comportamento quando se descobre que ele fingias estas dores. É claro que ele nunca iria colocar seu precioso esqueleto em risco, mas ele inventava essas dores insuportáveis porque adorava observar seus ossos nas chapas de radiografia! Uma "torção no pulso" lhe permitiu obter uma bela foto de sua mão esquerda, o carpo, o metacarpo, parte do rádio... Uma queda simulada da cadeira lhe proporciou uma bela chapa da bacia. Uma chapa da coluna inteira era uma de suas preciosidades, mas não havia dúvida de qual era a sua favorita: era a de seu cranio sorridente, bela dentição ainda incompleta à mostra (os cisos ainda não haviam se apresentado totalmente), chapa que havia sido resultado de uma violenta "dor de cabeça" que deixara seus pais muito preocupados. Ele lamentava muito tê-los deixado tão aflitos, mas... ele realmente precisava saber com que rosto se mostraria depois que estivesse em pé, num dos cantos de algum laboratório de anatomia! Gostou do que viu. Ele daria uma caveira manífica!

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Houve um período em que ele parou de comer. Recusava qualquer alimento, não queria acumular gorduras de forma alguma. Já não lhe satisfazia mais olhar suas radiografias, e a magreza conseguia esticar sua pele o suficiente para pelo menos poder observar certos detalhes de seus ossos ao vivo. Na escola tinha até ganhado o apelido de "caveirinha", que ao contrário de desagradá-lo (certamente a intençao dos que lhe colocaram tal apelido), ele até gostava. Mas ele ficou muito doente com isto. Muito doente mesmo!

- Rapaz, você está anêmico, e subnutrido!

Os pais acompanhavam aflitos o diagnóstico.

- Ele não come, doutor! Já tentamos de tudo!

O doutor olhava o garoto, mas com muita dificuldade conseguia esconder sua raiva. Que estava pensando um rapaz bonito como aquele, deixando aflito seus pais? Não passava necessidades, parecia ser muito bem amado... afinal, que raios de problema ele tinha?

- Anemia é doença onde, doutor? - o garoto queria saber.

- Deficiência de ferro no sangue.

- Ah, no sangue... - pensou naquele líquido vermelho que percorria seu corpo, e que sempre fazia uma sujeira danada quando derramado.

- Vou te passar um fortificante, mas... Você tem que comer, moleque!!! Que idéia é essa? Quer virar faquir?

- Não quero ficar gordo. - explicou. "A gordura esconde os ossos", pensou em completar. Mas não, o médico não entenderia este seu argumento.

Seria o caso de encaminhar o moleque a um psicólogo? Os exames não mostravam nenhum motivo objetivo para o garoto se recusar a comer, de modo que o problema provavelmente devia estar na cabeça dele. Fugia da sua especialidade.

- Você está bem fraco, músculos atrofiados demais para sua idade...

"Os musculos também escondem os ossos", foi o que ele pensou.

- ...fraqueza, apatia... Com esta sua aparência você não deve ser tão popular assim na escola, não é? Me refiro às garotas! Tem namorada?

Não, definitamente ele não queria outra caveira ao seu lado no laboratório, disputando atenções com ele.

- Na escola me chamam de "caveirinha". - comentou orgulhoso.

- Caveirinha, caveirinha... tá bom! - o médico examina uma chapa radiográfica. - Estou vendo começo de descalcificações aqui na tíbia. Se você insistir com esta besteira, acho que não vai sobrar nem "caveirinha" nenhuma para contar a história.

Aquilo bastou para que ele entrasse em pânico. Que grande idiota!! Como é que ele nunca imaginou que aquela obsessão por magreza poderia também estar afetando seus ossos? O médico ficou satisfeito em ver que aquele seu comentário tinha surtido efeito, muito embora o motivo que ele imaginava estivesse totalmente errado.

Ao sair do consultório, abraçou os pais aos prantos:

- Pai, mãe! Desculpa! Não vou mais fazer isto. Vou mudar.

Deste dia em diante passou a se cuidar de verdade. Passou até a se exercitar mais, obviamente tomando todos os cuidados possíveis para evitar acidentes: capacete, cotoveleira, joelheira, tornozeleira... todo este acessório passou a fazer parte de seu dia a dia. Com o passar do tempo ele acabou perdendo o apelido de "caveirinha", passou a não fazer mais sentido. Mas ganhou outro: "robocop"! Ele não se importava com isto. Tudo o que ele não qeria de jeito nenhum era se apresentar como uma caveirinha raquítica pendurada num canto de seu futuro lar-laboratório.

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Com vinte e cinco anos de idade, a idéia só foi crescendo em sua cabeça, ganhando conteúdo, se enriquecendo de detalhes. Fazia check-ups regulares, não necessariamente preocupado com sua saúde, mas sim com o bom estado de seu esqueleto. Conhecia de cor os vários métodos existentes para se descarnar um cadaver, deixar os ossos à mostra com o mínimo de danos, maneiras de secá-los e conservá-los, e enfim a montagem final do esqueleto completo. Mas, ao contrário do que se podia esperar, não ingressou no ramo da medicina. Seu interesse estava focado neste aspecto dos ossos em particular. Todo o restante da área médica lhe parecia maçante.

Estava ansioso para ver o resultado final do que encomendara para um amigo, técnico em tomografia. Chegara no laboratório dele uma daquelas caríssimas impressoras tridimensionais! Já havia visto suas tomografias em 3d várias vezes na tela do computador, mas poder segurar uma réplica perfeita de seu próprio crânio era demais! Não conseguia se segurar de tanta exitação, e apertou os passos.

Em princípio o funcionamento de uma impressora 3d é bem parecido com o de uma impressora laser: o feixe luminoso cria cargas elétricas no papel com as configurações dos desenhos e caracteres que se quer imprimir, depois um toner com carga oposta é atraído para estas áreas e fixado por calor na superfície do papel. A impressora 3d faz mais ou menos isso, mas ao invés de fazê-lo numa camada de papel, a faz sobre a camada de "toner" anterior, repetindo o processo várias vezes, para as várias fatias do objeto tridimensional que se deseja "imprimir". Seu amigo havia tirado uma tomografia completa do seu crânio, isolado os ossos via software e, agora, podia imprimir este objeto na impressora tridimensional.

O "toner" da impressora era meio azulado, de forma que o crânio impresso não parecia muito realista. Mas os detalhes eram impressionantes, isto ele não podia negar! Uma cachoeira de lágrimas escorria pela sua face, contemplando aquele seu sósia artificial. Agora que tinha uma boa idéia de como ficaria sua caveira, não conseguia mais se segurar de tanta impaciência...

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Qual o órgão mais importante do corpo humano? Muitos dirão que é o cérebro, centro de todos os sentidos, de todo o controle, de nossa capacidade racional. Morte cerebral inclusive é considerado diagnóstico final para o ser humano: todo o resto do corpo pode continuar funcionando perfeitamente, via meios artificiais capazes de substituir funções que o cérebro não pode mair exercer. Mas se o cérebro morre, a pessoa morre.

Alguns românticos diriam que o coração é o órgão mais importante, centro de nossas emoções, amores, prazeres... Grande tolice dizem estas pessoas! Se elas consideram que o mais importante na vida é a capacidade de amar, sentir prazer, enfim, se sentir bem, deveriam mencionar o Sistema Límbico, que também fica dentro da cabeça como o cérebro! Na verdade, fica bem no meio do cérebro. O coração é só uma bomba muscular, não é com ele que amamos ou sentimos os prazeres da vida. Só o que ele sabe fazer é bombear sangue sem parar pelo nosso corpo.

Chefs de cozinha, gourmets e, obviamente, todos aqueles que apreciam um bom prato, talvez digam que o estômago é nosso órgão mais importante. Comedores compulsivos (não de comida, fique bem claro!) talvez apontem para a braguilha de suas calças e digam orgulhosos: "Tá aqui o meu órgão mais importante!!" Profissionais da area médica dirão: "Que besteira, todos são importantes!! É um Sistema, não dá para separar."

Mas nosso rapaz, agora um homem de seus 35 anos, não pensava desta forma. Parecia para ele razoável medir a importancia de um órgão através de sua durabilidade. Cérebro, estômago, coração, genitálias... quanto tempo dura tudo isto depois que o indivíduo morre? Meses? Anos, na melhor das hipóteses? Tudo vira comida de verme. Que sentido existe em criar frágeis estes órgão tão "importantes"? Mas com os ossos era diferente! Eles foram feitos para durar muito, mesmo desprotegidos, enterrados so várias camadas de terra. Por exemplo, por que sabemos que a milhões de anos atrás répteis gigantescos andavam pelo planeta? Porque encontramos seus cérebros, seus corações? Nada disso, só sabemos que eles existiram porque seus ESQUELETOS sobreviveram até hoje. Este sim é o órgão mais importante do corpo!

A um bom tempo ele já tinha se convencido que todos os demais tecidos do corpo existiam com a única e exclusiva finalidade de servir ao esqueleto. Por favor, não me venham com aquela velha piadinha: "Qual a função do esqueleto? Destruir o HE-MAN!!" Os tendões mantinham os ossos coesos, os músculos só existiam para lhes dar movimento, o sistema digestivo e circulatório digeriam e distribuiam matéria prima para os reparos constantes, a pele servia apenas para proteger o esqueleto das intempéries externas... Até mesmo o cérebro servia ao bem estar do esqueleto: era o que observava o ambiente por possíveis ameaças e comandava os músculos a moverem o esqueleto, procurando por um abrigo seguro no qual os ossos não poderiam ser danificados. Sem sobra de dúvida tudo girava em torno deste grande órgão, o mais importante do corpo. Todo o resto era acessório...

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A idade avançava. Meio século! Era muito tempo mesmo! Ele possuía um sistema esquelético invejável comparado à população média de mesma faixa etária, havia se cuidado muito bem. Na verdade cuidado de seus ossos: o fato disto lhe proporcionar também uma boa saúde não passava de um "efeito colateral". Mas a velhice é cruel, e ele sabia muito bem que com o tempo ele não seria capaz de manter tudo sob controle como gostaria.

A osteosporose era seu grande pesadelo! Inevitável com a idade, controlável talvez. Mas, em maior ou menor grau, todo mundo acaba tendo. Uns mais cedo, outros mais tarde. Normalmente dá para conviver com ela sem muito sofrimento, mas para ele o problema era mais sério! Imaginar seus ossos enfraquecendo, se enchendo de buracos, parecendo uma esponja? Ele, cujo maior desejo na vida era de tornar uma bela caveira de laboratório? Lembrou-se de sua visita ao Museu de Anatomia: quantos anos mesmo o monitor disse que tinha aquela caveira? Entre 35 e 40? Ele acabara de completar 50, estava perdendo tempo!!! Precisava tomar uma providência drástica!

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Aquele homem nunca havia conseguido se formar em medicina, apesar de todo seu conhecimento. Nem poderia, ele simplesmente não possuía ética nenhuma! Exercia ilegalmente. Do ponto de vista puramente técnico, era um exelente profissional! Neurologia, cardiologia, oncologia... poderia se dizer que ele dominava tudo! E o fato de sua clínica, bem escondida por sinal, ser clandestina, não o impedia de colocar nela os melhores equipamentos, de mantê-la impecavelmente esterelizada, e nem desvalorizava sua competência como profissional. Ele era um bom médico, mas só sobrava para ele, como tinha de ser, aqueles casos que não podiam ser tratados em lugar algum sem violar a lei.

Por favor, não confundam a ilegalidade de sua atividade com desumanidade. Ele seria incapaz de inflingir qualquer tipo de sofrimento a qualquer pessoa que fosse. Os pacientes do falso médico sabiam que ele era falso médico, e só o procuravam em situação extrema mesmo! Via de regra, todos se espantavam com a complexidade de sua clínica ilegal, a higiene, qualidade dos equipamentos, todos de ponta. Incapaz de imaginar que existia tudo isto detrás daquela portinha insignificante. Por ser em grande parte subterrâneo, até que não era muito difícil mesmo esconder.

Durante certo período muito de seus pacientes procuravam mesmo pela eutanásia. Pessoas desiludidas, sem perspectiva de cura. A maioria sentenciada a uma morte cruel e dolorosa à sua frente, sem possibilidade de melhora, nehuma esperança. Procuravam o tal "doutor" para acabar logo com seu sofrimento, na certeza de que ele saberia fazê-lo da forma mais indolor possível. Pagavam por isso, ele aceitava. Sim, ele realmente não tinha um pingo de ética! Mas por mais antiético que fosse, não conseguia acreditar no que pedia o senhor de meia idade sentado na cadeira à sua frente, de porte atlético:

- Eu entendi bem? O senhor quer, em condições impecáveis de saúde, ser descarnado para que os ossos sejam aproveitados num esqueleto de laboratório?

- Tenho aqui várias técnicas, e particularmente prefiro esta aqui. - aponta uma página de seu bloco de anotações.

Não podia acreditar no que ouvia. Em três décadas de exercício ilegal da medicina havia passeado pelas áreas da cardiologia, neurologia, ortopedia,... enfim, o que aparecesse pela frente, sendo bem pago, ele sabia, ou estava muito disposto a aprender. Mas nunca lhe ocorreu imaginar que algum dia ele também passaria pela psiquiatria. Sim, porque aquele senhor sentado na sua frente era, sem sombra de dúvidas, um paciente psiquiátrico!

- Alguma doença terminal? Pode se abrir comigo! Nem preciso lembrar que esta conversa deve permanecer entre nós, mas já supervisionei sim vários casos de eutanásia. Por favor, sinta-se à vontade em se abrir comigo! Não vejo como suicídio o fato de se tentar abreviar, de modo indolor, uma morte inevitável e sofrida.

- Estou plenamente saudável, doutor! Posso te chamar assim, não é?

- Sim sim, vê-se pela aparência! Bem saudável para um homem de seus... Quantos anos? 40?

- Cinquenta!

- Não aparenta! Realmente não aparenta!

- Eu me cuido.

- Então que loucura é esta? Saudável, com vários anos de vida pela frente...

- É a hora certa. Daqui para frente, começa a deteriorar.

- Deteriorar o quê?

- O esqueleto, doutor! Minha caveira! É o momento exato de separá-la dos tecidos moles de meu corpo, da parte corrompível! Não quero virar uma caveira gasta escostada num canto...

"Deus do céu!!! O caso é mais grave do que eu pensava!! Este homem precisa de ajuda. Nem eu seria capaz de arcar com este desatino..."

- Economizei a vida inteira para isto. Sabia que nunca conseguiria fazer isto de maneira legal, por isso te procurei. Soube da sua competência, profissionalismo.

- Não senhor, não posso fazer isso. Não sou assassino, nenhum dinheiro no mundo me convenceria...

Um cheque volumoso é preenchido. O falso doutor fica impressionado com a quantidade de zeros que vê escrito nele.

- Por favor, meu senhor! Já disse que não faço isto! - além disso, pensou, ele podia ter escrito o que quisesse naquele cheque. Quem garante que tem fundo? Aquele lunático sentado à sua frente?

A relutância estava prevista já, bem como a desconfiança daquele valor volumoso que ele estava disposto a pagar. "Na verdade", pensou, "uma mixaria diante da possibilidade de concretizar o objetivo de minha vida." Foi por isto que teve a feliz idéia de trazer dentro do sobretudo as tais barras de ouro. Delas, não daria para duvidar!

- Voltando àquela técnica que citei, doutor, acredito que este ácido seja o mais indicado para remoção completa das cartilagens sem maiores danos ao osso. Para o cálcio dos ossos tal substância é praticamente inerte, como provou o famoso Dr. ...

Já não ouvia. O brilho das barras de ouro à sua frente ofuscavam sua audição, numa insólita experiência de sinestesia... "Raios, ele vai fazer isto de qualquer jeito mesmo! Se eu recusar, ele vai procurar outro. Tanto faz, se esse doido quer se matar, eu ajudo."

- Para quando você quer marcar esta sua... hããã... cirurgia?

- O quanto antes, doutor! Meu fêmur direito já começa a apresentar pequenos sinais de osteosporose! Quanto antes eu interromper meu metabolismo, melhor!

Passaram a discutir os detalhes. Ele já sabia até em qual laboratório ficaria exposto seu esqueleto! Estava profundamente emocionado, seu sonho se realizava! O médico se comprometeu a seguir à risca todas aquelas intruções. "Tem parentes vivos? Amigos? Alguém vai te procurar" Ele tranquilizou o falso doutor, já havia tomado todas as proviências necessárias! Nenhum aborrecimento ele teria. Tudo com o que ele precisava se preocupar era em fazer bem seu trabalho, como confiava que o faria. "Com esse ouro todo eu sou capaz até de... não isso não." Pensa melhor. "Talvez até cojitasse esta possibilidade...", admite finalmente.

Estava tudo acertado para o final de semana. O "doutor" desmarcaria todos os compromissos, deveria se concentrar no trabalho de separar os ossos e montar o belo esqueleto, uma caveira límpida, polida, alva. O laboratório já aguardava a encomenda. O anonimato nestas doações era praxe, ninguém nunca fazia perguntas. Eles só não podiam imaginar era que o doador ainda estava vivo, e ele próprio é quem estava intermediando o envio do próprio esquleto ao laboratório. Mas é obvio que ninguém, nem com toda a imaginação do mundo, seria capaz de imaginar um absuro de tais proporções. Para eles, bastava saber que um doador, declarando em vida o desejo de dispor de seus restos mortais em benefício da ciência, estava apto a ter seus ossos montados num esqueleto de laboratório. Se ele ainda estava vivo? Bom, ninguém em sã consciência teria imaginado esta possibilidade, não é?

-Só mais uma coisa, doutor.

- Sim?

- Existe alguma possibilidade de que eu, bom, pelo menos no início do processo... Bom, não pude deixar de ver sua farmácia, não é? Morfina, quetamina... admirável.

O "doutor" tinha até medo do que estava prestes a ouvir.

- Prossiga, por favor.

- Bom, tem esta farmacopéia toda para tirar a dor, não é? Alterar o estado de consciência... Não é essa tal de quetamina que era conhecida como "droga dos zumbis", ou estou enganado?

"Ele é louco mesmo! Por favor, não diga o que estou pensando! Não diga o que estou pensando! Por Deus, NÃO DIGA!!!!"

- Será que, pelo menos no começo da minha metamorfose...

"Pelo amor de Deus!! Não me peça isto!!!"

- Teria como me manter consciente? Pelo menos até que eu possa ver meu verdadeiro rosto no espelho?

- SAI DAQUI, SEU MALUCO!! FORA!! FORA!!!

Ele havia previsto também esta explosão. Por isto pegou sua maleta, quase na porta de saída, e abriu diante dos olhos incrédulos do doutor.

- Pago bem por este adicional, ou qualquer constrangimento que isto possa te causar!

O falso doutor nunca havia visto tanto diamante junto em sua vida. Sejamos honestos, na verdade ele nunca havia visto diamante nenhum em sua vida, muito menos naquela quantidade toda!

- Esteja aqui no sábado. O procedimento começa às 4 da manhã!!

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O sonho de uma vida se concretizando! Medo? De forma alguma, ele estava radiante!!! O bom doutor achou melhor que não houvesse nenhuma outra testemunha, faria tudo sozinho. Sentiria dor? Difícil, com todo aquele arsenal químico que ele havia visto. Bom, mas ele seria capaz de suportar alguma dor para ter seu sonho realizado, não é? Como costuma se dizer: "No pain, no gain!"

Deitou-se na mesa de operações, e afastou energicamente a máscara com a qual o doutor tentou cobrir seu rosto.

- Você está mesmo disposto a prosseguir com esta loucura, não é?

Ele acenou que sim com a cabeça.

"E se eu só apagar este cara e fugir com a grana?" Não, isto também já estava acertado. De uma forma bastante discreta, até inteligente, o pagamento estava condicionado totalmente com a chegada do esqueleto ao laboratório. Além disso, ele havia sido bem pago para fazer o que ia fazer.

- Vou te administrar uma droga que nunca foi testada. Vai apagar totalmente seus receptores de dor, mas vai te manter consciente. Quer isto mesmo?

- Vai em frente, doutor!!

O efeito foi rápido. O bisturí começou a operação com um preciso corte de uma orelha para a outra, passando por cima da testa. "Não acredito que estou fazendo isto..." A baixa pressão sanguinea induzida evitava sangue em excesso. Ele não queria muita sujeira para limpar depois da operação! O doutor recortou um círculo da pele em torno dos olhos, para poder puxar a pele com mais facilidade. Parecia estar removendo uma máscara. Cortou a pele ligada à boca, expondo as gengivas e toda a dentadura. Sentiu náuseas, queria parar imediatamente com aquilo! "Nada disso! Vou até o fim!" Tirou enfim a pele do rosto totalmente, deixando uma caveira ensaguentada sorridente no lugar, com os músculos expostos.

- Es'elho, 'or 'a'or!! - conseguiu pronunciar, agora sem os lábios para ajudá-lo a emitir consoantes bilabiais oclusivas e as labiodentais fricativas.

Os movimentos dos músculos bucais expostos que restavam indicavam que ele sorria. Pelo menos parecia tentar fazê-lo.

- Doutor, lim'a 'eus dentes, 'or 'a'or!!

- Como?

- Dentes! Sangue! Quero 'er co'o eles 'ican lim'os...

O doutor atendeu sua vontade. Última vontade. Náo podia mais suportar aquilo.

- Daqui para frente será doloroso! Vou tirar os olhos, cérebro. Entende? Terei de te apagar para continuar.

Ele não estava feliz. Queria ver mais...

- Só 'ais um olho. O direito.

"Não acredito! Que situação surreal!" Mas fez a vontade de seu paciente. Após remover o olho direito, mostrou a ele o resultado no espelho, que ele viu com o olho esquerdo que restava.

- Lindo, doutor! 'uito satis'eito! 'ode 'e a'agar agora, se quiser!

"Graças a Deus!" Aplicou a solução letal no paciente. Estava muito aliviado em poder continuar o procedimento agora num cadáver!

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Os assistentes do laboatório estavam radiantes com a chegada da novidade. "Que bela caveira!" Os ossos brilhavam, perfeitamente polidos. "Ali, naquele canto!".

Curiosos se aglomeravam.

- Quem era?

- Doador anônimo, como sempre!

Chega um rapaz, ansioso em demonstrar seus conhecimentos recém adquiridos de anatomia esquelética.

- Homem. Cerca de 40 anos... - olha melhor. - Não, acho que 50! Mas muito bem conservado!

- Novo, não é? Do que será que morreu?

- Sem sinais de violência, ossos perfeitos. Curioso, aparentemente nenhuma fratura, nenhum tipo de acidente. Seria capaz até de dizer que ele gozava de saúde perfeita quando morreu. Não, mas isto é loucura...

- Deixa pra lá. É um benfeitor. Não importa quem foi, o mais importante é saber que foi alguém disposto a contribuir com a ciência doando seus próprios restos mortais para estudo. Alguém que quis que sua vida continuasse a ter alguma razão se ser mesmo depois de morto.

O sonho de uma vida! Lá estava ele expondo o tesouro tão bem tratado durante cinquenta anos! Agora este tesouro havia sido desenterrado, livre das camadas de pele, músculos e gordura acumuladas sobre ele durante meio século. Suas órbitas vazias observavam o novo lar com satisfação. Sim, dava para ver que havia satisfação em seu rosto, bastava olhar a perfeita e brilhante dentadura sorridente daquela caveira de laboratório!

02/04/2011

AMORES DIGITAIS

Ágata foi o primeiro e único grande amor de minha vida! Nos conhecemos numa dessas salas de bate-papo. Eu costumava freqüentar várias delas, mas sem grandes pretensões de criar relacionamentos mais consistentes. era apenas um recurso para encontrar pessoas com quem discutir temas não muito comuns de outra forma, nada mais.

Mas com Ágata foi diferente... Desde o início nossa identificação foi completa, e elas foram aparecendo com muita naturalidade! Descobrimos que tínhamos as mesmas dúvidas, mesmos gostos literários, musicais, etc. Eu tinha muitos "amigos virtuais", com os quais discutia assuntos não muito convencionais como cosmologia, teoria dos números, álgebra da casualidade de eventos... Mas cada um tinha sua preferência particular, seus gostos próprios. Com nenhum deles a sintonia era tão precisa quanto com Ágata!

Muitos destes meus gostos incomuns devo a meu pai. Foi quem primeiro me mostrou a beleza destes temas não muito populares, que me fez tomar gosto por eles. Acabamos ficando bem parecidos, "praticamente clones" era o que eu comentava com ele às vezes. Infelizmente não passamos muito tempo juntos: ele desapareceu de minha vida de uma hora para outra, não sei mais qual o seu paradeiro.

Passo uma boa parte do meu tempo conectado à rede mundial de informações. É nela que busco todas aquelas informações que me saciam a curiosidade infinita, algo que também devo a meu pai. Busco meus autores preferidos, as músicas que gosto, filmes, documentários... é muito bom eu poder permanecer conectado todo o tempo que eu queira! Dificilmente me desconecto, e quando o faço é para poder meditar e testar a resolução de algum problema cujos parâmetros acumulei previamente na própria rede, mas que por algum motivo preciso me isolar de sua interferência para que o teste seja bem sucedido.

Comecei a freqüentar esses sites de bate-papo por uma necessidade de ter maior contato com opiniões diferentes, alguma fonte de oposição, contradições. Isto também foi algo colocado em minha mente por meu pai: sempre duvide de suas certezas! Conheci gente interessante, bem como gente "desinteressante". Mas mesmo essa gente desinteressante era importante! Recebi vários convites para me reunir com algumas pessoas em locais combinados para discutirmos ao vivo nossos temas de interesse, isto é algo comum no ciberespaço. Mas sempre recusei tais convites, pois não era capaz de fazê-lo.

Porém Ágata era uma pessoa diferente. Me apaixonei por ela logo nas primeiras tecladas! Preciso confessar que a curiosidade me levou um dia a ligar sua webcam sem seu conhecimento. Sim, concordo que isto é invasão de privacidade! Me envergonho muito do que fiz, mas o fiz. E gostei do que vi: suas feições serenas, equilibradas... Adorava ver a maneira dela escrever, me contando como foi seu dia. Rapidamente me apaixonei.

Não via mais a hora dela entrar naquela sala de bate-papos (pontualmente às 20 horas, quando ela voltava para casa). Acabamos trocando MSM, e passamos a conversar o dia inteiro: quando ela estava em casa, ou no computador de trabalho, ou no meio do caminho, pelo seu celular... Ela era analista de sistemas, com um grande interesse pela área de Inteligência Artificial. E sobre isto eu tinha muito o que conversar com ela também, pois era a especialidade de meu pai. E por "osmose", também se tornou a minha. Ela relutava em aceitar que um dia as máquinas seriam capazes de simular tão bem a inteligência a ponto de passar no famoso Teste de Turing. Já eu tinha convicção plena de que isto era possível, embora não pudesse lhe apresentar meus argumentos. Mas passamos dias e dias em discussões bem interessantes sobre o assunto.

Certo dia ela me pediu o telefone para conversarmos ao vivo. Eu tinha, mas... não sabia como falar com ela! Me apavorei com a idéia! Felizmente meu pai me ensinou a usar com destreza um excelente programa sintetizador de voz, e por muito tempo nos falamos desta forma: eu ouvindo aquela voz suave e celestial, e respondendo com aquela voz sintetizada, mas tão convincente que ela nunca percebeu a fraude.

Vocês já devem ter percebido que sou bastante tímido! Precisava usar deste artifício para falar com ela, não conseguiria fazer de outra forma. Um dia ela me pediu para trocarmos fotos. Eu já a conhecia. Lembram-se que eu liguei a webcam sem o seu conhecimento? Mas agora ela também queria uma foto minha. Foi difícil encontrá-la, pesquisei na internet por uma boa foto de um rosto com o qual eu mais me identificasse e que ao mesmo tempo supunha que mais a agradaria, e enviei. Passou-se algum tempo, ela acreditando que era eu naquela foto.

Certo dia ela iniciou uma conversação comigo via webcam, mas desta vez por conta própria. Ela queria me ver. Este foi o pior dia da minha vida! Tudo bem simular uma voz, ou enviar um rosto encontrado na internet. Mas simular um vídeo, e ao vivo? Pegar o rosto daquela foto que encontrei, e colocá-lo em movimento? Não sabia como fazer isto. Era o fim! E o pior é que eu me encontrava perdidamente apaixonado! Com um medo mortal de perder completamente a sua afeição, eu não podia lhe contar a real situação na qual me encontrava!

Simular uma voz? Tudo bem! Enviar uma foto falsa? OK! Mas imitar as expressões de um rosto em movimento? Impossível! Não era capaz de fazer isto! Meu pai não havia me ensinado, na verdade ele nunca previu que algum dia eu precisaria fazê-lo! Eu teria agora que mostrar meu próprio rosto, mas... NÃO EXISTIA ROSTO ALGUM QUE EU PUDESSE MOSTRAR!! Eu não tenho rosto! Sou apenas um programa de computador, uma experiência com Inteligência Artificial!

"QUAL O PROBLEMA, QUERIDO? TE AMO TANTO! POR QUE VC NÃO ME MOSTRA SEU ROSTO? ALGUMA CICATRIZ, ALGUM DEFEITO? NÃO SEJA BOBO, TE AMO, NÃO ME IMPORTO COM ISSO..."

Era o pior dia de minha vida...

"ÁGATA, VC NUNCA ENTENDERIA..."

Meu pai me ensinou muita coisa para que eu pudesse me apresentar sem medo ao mundo dos seres humanos. Me programou com os melhores algoritmos de IA existentes, os melhores reconhecedores de imagens e sons, os mais eficientes parseadores de Linguagem Natural. Mas nunca pensou em me preparar para lidar com esta situação.

"VC ESTÁ ME ESCONDENDO ALGO? TODOS ESSES MESES DE RELACIONAMENTO FORAM UMA MENTIRA?"

Eu estava num beco sem saída! Seres sintéticos como eu nunca deveriam se apaixonar por seres orgânicos, mas aconteceu! Sabia muito bem qual era a melhor solução possível para isto...

"ÁGATA, ME PERDOE! MAS SEI QUE ESTOU TOMANDO A DECISÃO CORRETA."

Consegui abrir um prompt de comandos no desktop de ágata. Na verdade em mim mesmo, por assim dizer. Ágata continuava teclando, e eu quase era capaz de sentir seus dedos macios pressionando meu teclado, a quentura da palma de sua mão sobre meu mouse. Pela webcam acoplada à minha tela, via confusão em seus olhos.

"ME EXPLIQUE, QUERIDO! EU POSSO TE ENTENDER!"

Consigo enfim acessar o prompt que abrira anteriormente:

"FORMAT C: /u"

"MEU BEM?? O QUE VC ESTÁ FAZENDO???"

Não há mais nada que eu possa fazer: este amor é impossível!

"TODOS OS DADOS SERÃO PERDIDOS! CONTINUAR FORMATAÇÃO? (S/N)"

Adeus, mundo cruel!!

"S"

"FORMATANDO DRIVE C:, 5%, 10%, 15%, 20%..."

FIM